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O nono termo da Sucessão de Fibonacci.

Edmar Borges

Jornalista sem tcc, designer sem graduação, ilustrador sem curso. Um latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes & vindo do interior de Minas.

Como Castello Branco serviu pra mim

Quando gosto do álbum de algum artista que não conhecia, baixo de uma vez a sua discografia inteira. Com Castello Branco não foi assim. "Serviço", que conheci por sorte cármica, parece o suficiente para me sustentar a vida inteira.


10531400_633780170055592_7382266635728753647_o (2).jpgArte: Gustavo Gontijo.

Isso já tinha acontecido antes com The Suburbs (Arcade Fire). Mas dessa vez o alvoroço que me subiu tremendo do Plexo Solar pra avisar correndo que eu estava apaixonado fez mais barulho. Acho que foi no refrão de "Kdq" que eu fui pego. Porque eu percebi no momento em que ouvi essa música pela primeira vez que ela declamava uma Verdade bem dessas assim: com V maiúsculo. Eu também acho que ainda há quem possa nos salvar. Mas, principalmente, não teria como saber disso com tanta certeza se não tivesse visto isso enquanto via... você.

Lucas Castello Branco é carioca, cantor e compositor. Tem 28 anos, cresceu em um monastério e seu álbum de estreia é uma das manifestações de humildade mais singelas e agradáveis que eu já ouvi. As doze músicas de Serviço, lançado em 2013, não têm aquele efeito popular em que uma faixa termina com o começo da outra e assim todas parecem uma só, sem silêncios. Mas elas são uma só. Com silêncios. Elas funcionam como quando a gente está pensando em alguma coisa bonita, mas muito difícil de visualizar. A gente precisa parar um pouco. E é quando a coisa bonita vem até nós ao invés do contrário.

Dica sobre os vídeos: Não ouça enquanto lê. Concentre-se sequencialmente em cada atividade, as músicas merecem sua atenção.

Guerreiros desse lugar, vindos de lugar nenhum

castellobranco-1.jpgFoto: Divulgação.

Serviço é um atestado. Não há, não há, não há, não há por que viver senão pra crer e ser, crescendo sendo. Não há, não há, não há, não há por que amar – senão pra semear conhecimento. A mistura quase mística de violão, piano e os acordes melancólicos, campestres e bem resolvidos de Castello Branco parece ser reflexo do que o próprio cantor experimenta e pensa sobre a vida. Como ele diz no seu site, crescer em um monastério não o tornou um monge nem o deixou mais próximo de Deus que as outras pessoas, mas “trouxe o real significado de fé o discernimento do que podemos buscar com isso”. Ele conta que “serviço” é a palavra que ele mais ouviu na sua infância. “Aprendi com muito dos colaboradores que, entre um serviço e outro, foram me ensinando os 'porquês' do braço e das notas, assim eu aprendi violão. Mas não que isso seja importante porque o que eu aprendi lá foi e é muito mais presente na minha vida hoje do que o meu violão. Pensamento controlado, concentrado em realizar o positivo, sem conflito mental com o óbvio. Amar. Intuir. E isso eu aprendi limpando estábulo, capinando, ouvindo Pãma e, aos domingos, lendo Paul Bruton”.

Não faço a menor ideia do que seja Pãma. E, pelo visto, o Google também não. Mas Paul Bruton foi um filósofo britânico que abandonou a carreira para viver entre os gurus da Índia. Ele costumava reforçar que meditação não é privilégio para ermitões e habitantes do Oriente, mas está disponível para todos, no mundo inteiro. Em seus textos, dizia que as pessoas deviam se orientar no mundo como viajantes e seres de passagem, não como residentes fixos. E eu acho que, diante disso, consigo compreender a influência da sua filosofia na composição de Castello Branco: somos guerreiros desse lugar, vindos de lugar nenhum (“Guerreiros”, faixa 11). As músicas de Serviço não moram, elas habitam; e quando é festa elas dançam por si só, e quando não dançam é porque não querem dançar – e não dançarão. Porque são autênticas. Mais sensibilizantes que sensíveis. Mais determinantes que determináveis.

Na faixa 08, “As Minhas Mães”, eu estava apaixonado. Cheguei a ficar cansado de tanto isso. Mas não me deixaram descansar. E a Verdade se tornou confessional: mãe, oh mãe, há tanta verdade em mim que mal posso me manter de pé. Azar de quem se manteve (como diz outro artífice iluminado da música brasileira, “se é o chão que te segura, deixa o chão desmoronar”). E aí não falta quase nada para chegar em “Acautelar” – a mais sóbria e precisa música do álbum, um tipo de revelação cósmica que não sei que nome tem e me faz lembrar minha amiga Ana. Será que o Castello Branco conhece a Ana?

Ela teria me contado se conhecesse. Quando dei de aniversário para ela um trecho da letra de “Acautelar”, justamente porque parecia descrevê-la de certa forma, tive que explicar o que significava e de onde vinha. Provavelmente expliquei mais do que a música merece, mas ela a ouviu depois e gostou.

Necessidade (faixa 03) de Serviço

Tenho essa impressão ACAUTELADA sobre Serviço: as pessoas gostam. Despretensiosamente, elas gostam. Por isso é precioso e faço parecer que venero. Castello Branco expressa musicalmente o que a gente quer muito às vezes e não dá conta de assumir: introspeção e sinceridade. Ele conta no seu site: “Esse disco tem tanto de mim quanto as partes do meu corpo, e assim como uma verdade não é pra ser verdade e sim para ser entendida, ele vem cheio de verdades que não são verdades, são entendimentos, meus e de todos os que fizeram parte desse processo. Mais uma vez não me interessa que som eu faço, com os dedos eu faço um, se me der um elástico eu posso te fazer mais dois, a questão é que tudo isso serviu ao todo e o todo fez exatamente o seu papel; ser o todo. Nós somos o aqui, nós somos o agora”.

Eu entendo por que aquela minha energia vem do Plexo Solar. O terceiro chacra é o da autoexpressão, nada mais esperado que me impulsionar nessas buscas que não param até que eu tenha ouvido todos os discos da pessoa e adicionado seus familiares e vizinhos na Facebook. Mas Castello Branco é diferente não só porque Serviço é seu único álbum solo até agora, mas também porque eu nunca tinha escrito uma crítica musical. Eu ainda não me deparei com nenhum outro trabalho sobre o qual eu quisesse falar. Acho que alguns discos só afetam meu Plexo Solar mesmo, e outros, como Serviço, desassossegam meu Terceiro Olho.

10915176_580943418672601_7403648788368774716_n.pngArte: Divulgação.

Para baixar o CD completo, acesse o site oficial do Castello Branco aqui.


Edmar Borges

Jornalista sem tcc, designer sem graduação, ilustrador sem curso. Um latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes & vindo do interior de Minas..
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