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O nono termo da Sucessão de Fibonacci.

Edmar Borges

Jornalista sem tcc, designer sem graduação, ilustrador sem curso. Um latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes & vindo do interior de Minas.

Síndrome de Capitão América

Os afetados por essa síndrome são aqueles que adoram a frase “hoje em dia o mundo está perdido”. O curioso é que essas são as mesmas pessoas que viram as primeiras bombas nucleares, estudaram em severos internatos e contemporizaram com a tortura de regimes militares. Conheça os capitães da hipocrisia.


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Para quem não sabe, o Capitão América nem sempre foi esse homem divino do tamanho de um canhão pintado de azul, vermelho e branco. Um dia, nos seus tempos escuros, ele foi um cidadão mirrado e cabisbaixo chamado Steven Rogers e fissurado em ser militar para poder contribuir na Segunda Guerra Mundial. Bom, isso já indica um problema: quem, em condições de vida favoráveis, sonha em ir pra guerra?

Aconteceu, porém, que nosso amigo Steve não foi aceito nas forças armadas norte-americanas, onde esse lance todo de se alistar é quase uma religião. Mas ele estava disposto a se humilhar. Disse que faria de tudo para ser aceito. Resultado: virou a cobaia de um projeto ultra secreto e tornou-se o primeiro exemplar de um supersoldado. A ideia era criar um exército dessas coisas (a história fica cada vez mais absurda), mas o idealizador da experiência é assassinado e morre com ele a fórmula do projeto, de forma que Steve fica solitário nessa batalha.

Agora que você entendeu quem é essa criatura, vou te dizer o que ela faz: bosta nenhuma. O Capitão América não passa de um conservador, elitista, egocêntrico e saudoso... guerrilheiro. Um instrumento de guerra de alto nível. Um malhado e apaixonante símbolo do ufanismo estadunidense e, portanto, um oponente a altura de Hitler. E aí vem a parte mais intrigante – como alguém combate o nazismo e continua sendo um idiota?

capitao 03.jpg"Não acredito nisso..."

Eu chamo isso de Síndrome de Capitão América, um hábito de todos os tempos que se caracteriza principalmente por dois sintomas: se pintar de bonzinho antes de falar dos próprios vícios e ter a ilusão de que foi criado dentro de uma concha, com a melhor educação, o melhor método de aprendizagem, os valores mais respeitosos.

As pessoas com essa síndrome consideram o presente um caos. Para elas, se o apocalipse não chegou, está bem perto. As novas configurações familiares, o domínio do espaço urbano, o desenvolvimento tecnológico e as adaptações culturais são uma ameaça aos bons costumes de acordo com esses capitães América. Eles realmente acham que computadores vão dominar o planeta, que as drogas desvirginaram a sociedade, que os filmes estão muito pesados ultimamente, que tem mulher pelada em todo lugar, que homossexuais são promíscuos, que trans são aberrações, que o pikachu é tarado, que Harry Potter é satânico e que todo africano passa fome. São pessoas que acham que se os presídios estivessem mais cheios não haveria criminalidade, que se os japoneses não acreditassem em falsos deuses não seriam alvo de tantas catástrofes naturais e que se nossas filhas e namoradas não fossem tão pervertidas não seriam assediadas sem parar.

Essas pessoas não notam que, em contrapartida à intensificação de certos hábitos que eles consideram prejudiciais, outros estão sendo engolidos pela cultura do politicamente correto. Eu entendo que cenas de nudez estão cada vez mais comuns nos filmes e programas de TV, mas para todos eles existe uma coisa muito importante chamada classificação indicativa. Hoje, é absolutamente proibido fumar cigarros em áreas cobertas, mas os capitães Américas vieram do tempo em que isso era divulgado:

propaganda-antiga-cigarro-5.jpgSeu médico recomenda os cigarros Camel.

E esse absurdo machista básico também:

propaganda-antiga-cigarro-3.jpg"Sopre na cara dela e ela vai te seguir onde você for".

São aqueles que dizem que as escolas não ensinam nada hoje em dia e que os professores são folgados, mas não faz nem décadas que colégios internos agrediam deliberadamente seus alunos com palmatórias e as professoras de primário, especialmente no interior, humilhavam as crianças com suspeitos métodos de “aprendizagem”. O Capitão América é aquela pessoa que levanta o queixo para descrever a educação exemplar que teve dos pais, mas foi obrigada mais de cem vezes a ajoelhar no milho e levou coça de cinta para “aprender”. Ela brilha e reluz em seu uniforme com as cores da bandeira, mas é produto de um experimento de guerra, de uma cultura de opressão. Ela acusa os jovens de usarem muito a internet, mas quando chegou a primeira TV em sua casa, lá na década de oitenta, dormiu no sofá cinco noites seguidas. Ela desmerece os diferentes tipos de roupas, de personalidades e de relações afetivas sob o argumento de que, na sua época, todo mundo tinha decência.

Desculpe, Capitão. Mas nunca houve uma época na história da humanidade em que todo mundo teve decência. Você com certeza se lembra de História Antiga, considerando que teve os melhores professores. A gente sempre causou transtorno uns aos outros. Já fomos capazes de enviar centenas de milhares dos nossos para manicômios pelos motivos mais esdrúxulos do universo. E eu não discordo de forma alguma que os índices de violência têm crescido, que o consumo de drogas é cada vez maior em todas as partes do mundo e que a corrupção está exacerbada. Mas há também ações de prevenção, instituições ativas na busca pelo desenvolvimento social e medidas abrangentes e não paliativas em muitos lugares. Além disso, veja bem: se alguém cresce na base da violência, não me espanta que também se torne violento; se alguém sofre com a desigualdade, não me admira que se revolte; se alguém não suporta a realidade, é claro que se abstém dela. Se não exigimos de quem rouba porque está no poder, não podemos exigir de quem rouba porque não está.

capitao 02.jpg"Sniff."

Faça-me o favor. Até outro dia crianças ganhavam armas de fogo no natal e homossexuais eram chacinados e acusados de infectarem o mundo com o HIV. Hoje sabemos que o número de heterossexuais portadores de Aids no Brasil é maior que o de gays. E muitas pessoas que hoje acusam a humanidade de truculência e mau comportamento são as mesmas que concordam com as decisões homofóbicas e moralmente ofensivas do governo Putin, na Rússia, que proibiram demonstrações públicas de afeto entre homossexuais e privaram xs trans do direito à carteira de motorista sob a alegação de que elxs não têm condições mentais de dirigir.

Mas eu acredito que o caminho da humanidade é feito de passos, não de pulos. É uma jornada constante, diária. E a não ser que tenhamos sido criados por fadas, num sistema perfeito e num século que não foi marcado por duas guerras mundiais, não temos autoridade para usar a frase “hoje o mundo está perdido”. Segundo essa lógica, ele sempre esteve. E eu não penso assim. Eu penso que ele não se perde nem se encontra, e que não é saudável julgar o presente com base na saudade do passado. Em tempos de reinvocação da ditadura militar, é urgente a consciência de que cada era tem seu preço, seu cheiro e sua cor, e que se gastamos a maior parte do nosso dia nos reconhecendo no hoje e sendo gratos pelo que melhorou não precisamos reclamar do que, na nossa opinião individual, está pior.

Então, se liga. Ninguém é Capitão América. Não somos cobaias bélicas ou encomendas políticas, não precisamos vencer guerras e não precisamos querer vencer guerras. Combater o crime local já é um grande passo. Aqui é todo mundo Peter Parker, o que me faz concluir que somos heróis de verdade.

spiderman_02_04.jpgCom grandes poderes vêm grandes responsabilidades, mas só se torna célebre quem não faz questão disso.


Edmar Borges

Jornalista sem tcc, designer sem graduação, ilustrador sem curso. Um latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes & vindo do interior de Minas..
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