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O nono termo da Sucessão de Fibonacci.

Edmar Borges

Jornalista sem tcc, designer sem graduação, ilustrador sem curso. Um latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes & vindo do interior de Minas.

Tragédia por tragédia e o mundo acabará

Por que estamos andando por esse caminho onde as perdas, as dores e as consequências se convertem em números e batalham num pódio para ver qual tragédia é pior?


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Dois acontecimentos de grande escala midiática ganharam a timeline e as rodas de conversa na última semana: o rompimento das barragens da mineradora Samarco, em Bento Rodrigues, distrito de Mariana (MG), e os atentados homicidas com armas de fogo e explosões em Paris, na França. O primeiro destruiu o Rio Doce, principal fornecedor de água de várias cidades mineiras e do Espírito Santo, e seus efeitos ambientais, políticos e sociais ainda não podem ser calculados. O segundo matou mais de 100 pessoas, foi considerada a maior violência a afligir a França desde a Segunda Guerra Mundial e seus efeitos também não podem ser calculados ainda. Mas espera... Por que estamos falando de cálculo? Por que estamos andando por esse caminho onde as perdas, as dores e as consequências se convertem em números e batalham num pódio para ver qual tragédia foi pior?

É como se nosso pai e nossa irmã tivessem morrido e estivéssemos preocupados em descobrir qual dos dois vai fazer mais falta. Você faria isso? Temos acompanhado a timeline e descoberto que, dentre os vários fenômenos a se compreender, esse é um urgente. A propagação de opiniões e intenções toma o debate e se esparrama no painel do cotidiano como a lama das barragens, se espalha por toda a cidade como os atentados em Paris. E não se trata apenas da carapuça virtual: no dia a dia, nas ruas, na escola, antes de dormir e no café da manhã as pessoas têm comentado, alarmadas, sobre essas duas tragédias especificamente. De repente, tropeçamos no erro de compará-las como se fossem dois produtos numa prateleira. Qual dor vamos comprar?

O que acontece é que aqui, no Brasil, a tendência de internacionalizar a atenção gerou, com o passar dos anos, uma justificada revolta. Não foi ontem que começamos a dar "prioridade" para a dor importada. Fome na África, ataques nos Estados Unidos, primavera política em Israel... Está tudo ali no nosso histórico de compartilhamentos, é só conferir. E como algumas pessoas realmente têm a capacidade de se restringir ao caos externo, aqui dentro muitos de nós têm razão quando questionam a empatia pelo cenário de origem, tão diariamente trágico. Mas devemos clarear a mente e pensar duas vezes. O que há em comum entre a tragédia no Brasil e a tragédia na França? Qual a vítima em comum? Onde tudo isso acaba?

Em nós. Seres humanos. E somos muitos. Vivemos em países diferentes, enfrentamos todos os dias nossas próprias odisseias e aquelas causadas pela (des)estrutura política, estamos todos cerceados por limitações, injustiças e terror. Mas moramos todos no mesmo lugar. Os efeitos humanos superam os ambientais, políticos, sociais, econômicos, etc. Justamente porque está tudo interligado. Dependemos do ecossistema, dependemos da segurança pública, dependemos de paz. E é necessário que se faça uma breve diferenciação entre uma coisa e outra. Uma se trata do descaso de uma mineradora extremamente influente e lucrativa que se mantém pelos interesses econômicos do capitalismo e outra da cultura do terrorismo que tem assombrado não só países desenvolvidos como aqueles em que a mídia dominante não põe a cara. Às vezes ela nem chega perto. Ambas ferem o patrimônio humano, que é, no fim das contas, o cerne de nossas preocupações. Certo? Não é porque o primeiro podia ser evitado que o segundo também não. Mas são casos diferentes. Não podemos olhar com os mesmos olhos para os dois. São tragédias de naturezas diferentes e, mais uma vez, tudo o que temos diante de nós é o resultado humano.

O rompimento das barragens que desestabilizou a vida de milhares de pessoas ao redor do seu raio de destruição não foi uma catástrofe inesperada. Mas quem sabia que ela viria? Foi um caso de omissão, ganância e irresponsabilidade nos níveis mais alarmantes. Mas como medir esses níveis? Se tivesse destruído 25% a menos do que destruiu ela estaria um nível abaixo no quesito dor? E em Paris, se tivessem morrido 80 pessoas em vez de 129, seria menos divulgado? Diferente da imprensa, que funciona por meio de interesses nem tão humanos assim e está aí escolhendo quem vai colocar na tela da TV e quem vai deixar de lado em nome de sua própria manutenção financeira, nós, pessoas que recebem as informações, devemos buscar mais de um ponto de vista sobre os casos. Nós não podemos fazer essa conta desse jeito. Não devemos fazer contas.

Mesmo porque não daríamos conta se começássemos a fazer. Você já parou para pensar em quantas tragédias acontecem no mundo? Você já parou para pensar no tamanho desse mundo, na quantidade de países, de sociedades, de empresas irresponsáveis, de pessoas que fazem terrorismo em todos os inúmeros lugares do planeta? Confiamos demais na timeline. Em países pequenos ou pobres, de mínima visibilidade global, guerras são travadas todos os dias. Em pontos de colisão ideológica no oriente médio, em comunidades periféricas no Brasil, em localizações esquecidas pelo mundo no continente africano... Não tem sido fácil morar na Terra, essa é a questão. Talvez nunca tenha sido. A proporção dos ataques na França e dos rompimentos no Brasil é imensa. Eu sei que existe um limiar mínimo que sugere o tamanho de uma consequência para um país, um povo, uma comunidade. Não é como se pudéssemos comparar a completa extinção de um rio que abastece dezenas de cidades com uma prisão injusta de uma pessoa inocente porque ela é negra e pobre. Mas aí é que devemos dar um passo para trás e observar antes de prosseguir. Cuidado nessa hora. Cada luta é uma luta, mas são todas lutas. São todas perdas. E desde quando precisamos mesmo calcular a mais pesada? Como eu disse, está tudo interligado. Todo o caos, o terrorismo, o descaso... É tudo fruto da mesma ganância ou da mesma obsessão. Aqui, na França, na China e nas Filipinas. Inclusive, em maio desse ano, um ataque contra mesquitas nas Filipinas deixou 18 feridos. Cadê isso na timeline? Não vou nem dizer que não matou, não abalou o ecossistema, etc. Não mesmo. Mas, como eu disse, cada luta é uma luta. A dor é dor.

Então devemos pensar sobre as hashtags, os aplicativos de apoio, os filtro de foto de perfil. Vamos mesmo abraçar as causas? Sua foto do Facebook vai ficar ilegível de tanta transparência. E para além da vida online, um fenômeno que ainda estamos engatinhando para entender, temos sido sinceros com a gente mesmo na vida real? Não busco aqui ter a pretensão de dizer como as coisas funcionam. Eu também não sei, eu também estou assimilando. E esse texto não é para todo mundo. Mas o que percebo é que alguns correm o risco de estarem tão viciados em competição que estão levando até o sofrimento para o ringue. O próprio ringue será destruído assim. Mas precisamos repensar nossas relações com o meio ambiente e o meio humano. Foi divulgada ontem a união entre os Estados Unidos e a Rússia, dois supostos inimigos políticos, para combater o estado islâmico após o massacre na França. São duas das nações mais poderosas do mundo, que investem pesado em artilharia e mecanismos bélicos, unidas para combater o terror. Como eles vão fazer isso? Usando suas armas. Provavelmente criando mais terror. Olá, guerra, sentimos sua falta. Traz para a gente mais um pacote de tragédias, assim teremos o que postar pelos próximos cinco anos. Faz da nossa casa o seu ringue.

Olho por olho e o mundo acabará cego. Tragédia por tragédia e o mundo acabará.


Edmar Borges

Jornalista sem tcc, designer sem graduação, ilustrador sem curso. Um latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes & vindo do interior de Minas..
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