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O nono termo da Sucessão de Fibonacci.

Edmar Borges

Jornalista sem tcc, designer sem graduação, ilustrador sem curso. Um latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes & vindo do interior de Minas.

Entra pra ver, mas tira o sapato pra entrar

Você estava certo. Nós somos os piores. Eu dei um chelique quando você nos acusou disso, mas passou. Então entra, pode entrar. Quer um leite? Agora senta que eu vou te contar o que eu passei aqui dentro depois que você me deixou.


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A vida inteira eu ouvi as pessoas falarem sobre esse lugar. Ao que tudo indica, é o ponto turístico mais cogitado do planeta e, embora não seja muito bonito nem arejado, todo mundo visita um dia. É comprimido, úmido e amedrontador. Faz com que o ser humano mais radiante da face da Terra se desdobre em uma criatura ossuda e violenta.

Todo mundo conhece esse lugar. Fica entre o purgatório e o epicentro de uma chacina às três da tarde de domingo. É logo ali, virando à direita depois do presídio manicomial, na casa sem portas nem janelas onde é madrugada todo dia e os carmas das últimas cem reencarnações guardam a cerca.

Mais famoso que o Louvre, mais sufocante que o travesseiro e chamado Fundo do Poço. É inevitável. Mais cedo ou mais tarde, todos o conhecerão por algum motivo. Mas, com tantos problemas e tantas terríveis inclinações, eu não podia imaginar que o meu motivo seria você.

Veja bem, é só uma questão de lógica. Aos nove anos eu já tinha conhecido o luto e a miséria. Na adolescência colecionei traumas de subúrbio e a minha juventude tem sido uma eterna alucinação sobre o abuso do mundo. Muito me espanta que, com uma história de vida como a minha, que nem minha melhor amiga de 12 anos de amizade conhece a metade, eu ia cair assim por causa de alguém como você.

Alguém tão pequeno, eu digo. Porque nosso relacionamento foi, a princípio, o que são meus lápis de cor vagabundos: uso quando os Faber-Castell acabam. A pena nisso tudo é que, sem prever, meu desenho com você ficou o mais bonito. Mas acabou. Fomos em frente depois que você me obrigou a fazer aquele papel, a nos libertar quando eu era o que não queria ser liberto, coisa mais cruel e covarde deixar aos cuidados de quem ainda pensa a tarefa de dispensar. Mas tudo bem, você nem viu o mundo, você nem sabe onde pisa e acha que pisa melhor. Sem falar no meu passado, que você não seria capaz de carregar e não teve interesse em conhecer. Oh, você é muito pequeno perto dele. No big deal, bitch. Eu fiz um monte de tatuagens, comecei a malhar e entoo mantras sobre o infinito todos os dias.

A questão é que eu me machuquei lá atrás. Porque no dia em que me apaixonei por você, comecei a pisar em ovos. Eu precisava tomar as decisões, falar em voz alta e sentir por nós dois. E o pior eu nem te conto: quando comecei a te amar, comecei a escorregar no chão cheio de ovos quebrados. Aí fiquei todo roxo, você pode imaginar. E quando precisei que você me estendesse a mão e me levantasse, você voltou pra minha casa com a minha blusa cheirando a outro homem. Aí eu me levantei sozinho, obrigado.

E admito: escorreguei mais milhares e milhares de vezes depois disso. Tem sido um desafio ficar em pé, ainda mais depois do mais novo trauma que minha história ganhou essa semana e que não tem nada a ver com você. Mas por isso estou aqui, te expurgando. Porque mesmo com tantos problemas sérios e que exigem minha atenção exclusiva, você continuava sendo um que latia sem parar.

Então eu percebi que precisava ver se o problema era comigo, afinal. Porque eu achei, desde o começo, que era com você. E era, era bastante. Mas você não tem culpa sozinho, meu bem. Relaxe. Eu também sou egocêntrico. E por isso fiquei tão ofendido. Porque você se interessou por outro e para isso você se desinteressou por mim. Como pode alguém se desinteressar por mim? Não pode.

Mas pode, sim. Afinal, o que me faltava era perceber que sou só um poço de carências e não um ser divino. Sou apenas uma porção de identidades, às quais já dei importância demais. Seguidores no Instagram, likes no Facebook, acessos no Behance. Quero sucesso, realização profissional, dinheiro. Quero ser aquele que você ama de verdade e que não troca por nenhum outro. Eu quero mesmo, mas não preciso. E aí que está: quem estou querendo ser? Eu não sou nada além de uma ferramenta de tudo aquilo que existiu antes de mim no universo e que continuará existindo mesmo depois que eu ou você, tão sordidamente triviais, tivermos morrido de forma trágica ou pela idade.

Tanto faz quem somos. Tanto faz eu e você. Amor, meu amor, eu te amei muito e de um jeito incrível. Mas agora eu simplesmente sinto curiosidade, vontade de saber como você está. Eu sou forte de novo. Eu fiz uma tatuagem por dia e dei a volta no japamala centenas de vezes pensando em nós. No começo eu queria que você se sentisse tão mal quanto eu, porque eu perdi a cabeça, mas chega de Kelly Clarkson no último volume, de chorar lavando os pratos e de desejar sua desilusão. Chega. Música, louça suja e fracasso sempre foram temas polêmicos entre nós.

Agora, eu estou faxinando a casa, mudando os móveis de lugar, limpando as frestas e trocando os quadros. Entra pra ver. Você é bem-vindo de volta. Não ao meu coração, porque isso já passou. Mas entra no quarto, na sala, senta aqui na mesa pra gente falar das incertezas que você tem sobre seu futuro, pra você me fazer rir de novo e eu te olhar com carinho. Nada mudou, apenas tudo. Apenas a decoração.

Dessa vez você precisa respeitar meu lar. Ao som de Cícero, Years & Years ou Tópaz, não importa. A casa está limpa de novo, eu consegui me resgatar do Fundo do Poço e meu percurso de volta foi cansativo. Mas entre descalço, viu, não me insulte com solas que eu não sei por onde passaram, nós nos odiamos de uma forma que nem dá pra demonstrar com raiva. Maior que todas as palavras, né?

Então lembre-se: caso tenha interesse em vir, eu só vou estar em casa se você tiver consideração por cada coisa minha, porque cada uma delas veio parar aqui dentro de um jeito que você nunca vai saber.


Edmar Borges

Jornalista sem tcc, designer sem graduação, ilustrador sem curso. Um latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes & vindo do interior de Minas..
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