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O nono termo da Sucessão de Fibonacci.

Edmar Borges

Jornalista sem tcc, designer sem graduação, ilustrador sem curso. Um latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes & vindo do interior de Minas.

O que é teu já tá guardado

E adivinha? Não sou eu que vou te dar.


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Eu venci a guerra, mas não estou satisfeito.

Por algum motivo, eu venci e não estou feliz. Sob a humilhação e o ressentimento, uma parte de mim guarda o desejo mais obcecado por paz e silêncio, só isso depois de tudo. Desejo a força necessária para me reerguer do chão pós-batalha no meio de vários corpos, que são os meus corpos, o exército de mim. Só isso que quero: me levantar. Mas eu não consigo deixar de querer, ainda, mesmo a caminho da enfermaria, mesmo me certificando da vitória, que seu corpo esteja atravessado em algum lugar sob os escombros. Minha necessidade é de vingança. Que venha o carma e te despedace, que os deuses arrebatam a sua maldade, que o rei faça nua a justiça. Passei cada minuto dessa guerra esperando testemunhar a apoteose para a qual achei que tinha nascido: ver você derrotado.

Você, o oco do oco do oco do sem fim do mundo, tão mirrado que nem o diabo ambiciona.

Mas quando eu olho ao redor, percebo que não sou eu quem faz a lei. Eu criei e recriei o universo para conseguir vencer esse combate, mas não sou eu quem faz a justiça. Porque ninguém faz. Não precisa. Ela será feita sozinha. Assim, como Deus. Desse jeitinho, como uma coisa que nunca nasceu e existe mais que todas que já nasceram antes. O sujeito passivo mais agressivo de toda a história.

Mas isso porque, diante da mágoa, pensei que eu fosse agente do curso das nossas vidas. Na dor e na solidão, eu me senti o centro do mundo e achei que fosse alguém. Soldado ferido: atenção! Eu pensei que poderia me ajoelhar diante de uma entidade e contar tudo o que você fez comigo e que eu seria ouvido imediatamente, que isso resolveria o problema porque alguém trataria de fazer o serviço e você estaria sofrendo para pagar pelo que me causou.

Esse não era eu.

Existe um tipo de processo pelo qual se passa quando o coração é mágoa, quando ele é mesmo mágoa, quando ele já passou por todos as etapas da dor, ultrapassou os limites do combate, converteu-se em recipiente para o que chega. E o que chega é sequela, exposição da carne. Feridas postas à mesa, sangue por todo lado, cena de Taratino dentro do peito em plano aberto. Um processo bem específico e bastante observável (como todos os processos que seu corpo e sua mente irão conhecer na vida). E trinta vezes por dia dói como um lampejo à lembrança mais sutil de como era estar lutando essa guerra.

Eu pensei que estava lutando essa guerra depois de você. Mas foi durante.

E o negócio é o seguinte: eu não sou ninguém, e Deus me disse isso sem falar nada quando ele simplesmente ignorou meu pedido para te ver estraçalhado na lama com ossos expostos e convulsionando. Mas essa justiça não é minha. Nem dele. Não nos diz respeito o que você fez com sua vida depois daquele dia em que sumiu, depois de decidir que eu não tenho nada a ver com o que você quer, depois que meu coração ficou tão magoado que virou mágoa. Não nos interessa porque a Justiça é auto-oportuna. E eu lutei, levei a campo tudo o que eu tinha para levar, fui devagar deixando o peito abrir com os golpes e dentro dele entrou a luz do sol, a luz de Shiva, a luz de mim. Não sei se ela entrou ou saiu.

E eu só queria ver seu corpo no chão. Eu queria ser justiçado.

Até eu perceber que eu estava sendo você. Eu não sou esse cara estranho que chegou. Não sou e não sei ser mais viril. Eu não sei não, viu? Mas cuidado por quem me tomas. Posso engolir você só pra cuspir depois. Mas não vou. Porque essa guerra nunca foi contra você. Eu venci, mas eu venci a mim mesmo. Sempre fui meu único inimigo. Assim como você é o seu. Consegue ver agora? As coisas se encarregarão de acontecer e o que é seu não me pertence de forma alguma. Mais dia, menos dia, seja você quem for, a hora vai chegar. Espero que você aprenda. São meus corpos no chão, e cada um deles é uma parte do meu ego que eu matei inesperadamente enquanto tentava matar você.

Fica atento, rapaz. Qualquer brisa me verga, nenhuma espada me corta.


Edmar Borges

Jornalista sem tcc, designer sem graduação, ilustrador sem curso. Um latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes & vindo do interior de Minas..
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