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O nono termo da Sucessão de Fibonacci.

Edmar Borges

Jornalista sem tcc, designer sem graduação, ilustrador sem curso. Um latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes & vindo do interior de Minas.

Demônio de Neon é uma armadilha da plasticidade

E tem gente caindo como uma garota do interior devorada pelo showbiz. Mas o filme traz muito mais a ser avaliado e discutido sobre a superficialidade do que parece.


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O texto abaixo contém spoilers até dizer chega. Prossiga por sua conta e risco. Mas prossiga.

"A beleza não é tudo. É a única coisa".

Com a frase mais batida do mundo da moda e suas convenções estéticas, Nicolas Winding Refn propõe um debate sobre o papel decisivo da beleza física nos mais grandiosos e também nos mais ínfimos processos de julgamento pelos quais um ser humano passa várias vezes por dia. Afinal, como é questionado na cena, você está disposta/o a se interessar sexualmente por alguém sobre quem não sabe absolutamente nada?

Bom, pode até estar. Que fofo da sua parte.

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Mas Demônio de Neon não é sobre você se sentir tão cósmica e transcendentalmente conectada/o com outra pessoa que os padrões de beleza deixam de importar. Oh, é lindo quando isso acontece. Mesmo. Levantamos da cama dia após dia para tornar isso um hábito, derrubar o muro do confinamento estético e abrir as alas para pessoas como eu, mero mortal.

Mas Demônio de Neon, julgado o melhor e o pior filme de 2016, aguardado com a expectativa de uma multidão de grávidas em abstinência, não é sobre nossa luta necessária e ininterrupta por quebra de padrões, mas o contrário: é sobre nosso deslize de cada dia, nosso pecado inconfessável e os alvos que a nossa obsessão elege quando ninguém está vendo.

É um filme superficial sobre o golpe da superficialidade. Duas horas de metalinguagem blasé.

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Neon Demon, do mesmo diretor do aclamado-aplaudido-idolatrado Drive, conta a história de Jesse (Elle Fanning, boa em Malévola e imperdível em Ginger & Rosa), uma adolescente que se muda para L.A. e se joga na carreira de modelo. Logo de imediato, sua beleza chama a atenção da galera. E aqui está o primeiro ato da armadilha que o filme lança no caminho.

pdc_neondemon13.gifJesse deixa a galera sem fôlego: “nossa, uau”

Elle Fanning é ótima na administração de semblantes. Ela faz o carão certo na hora certa e seus trejeitos ingênuos e inseguros se convertem numa dose extasiante de empáfia muito rapidamente. Eu a considero uma boa atriz. Mas isso não importa muito nesse contexto. O que importa é que ela é:

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Bonita.

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Loira. Bem loira.

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Magra.

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Com olhos azuis oblíquos e dissimulados.

E acaba se destacando no meio das outras aspirantes a modelo. Em um momento de rejeição, uma de suas futuras facínoras chega a quebrar o espelho do banheiro de raiva. Quando Jesse entra, rola o seguinte papo:

—Como é a sensação? — A moça pergunta.

—De quê? — Jesse faz a sonsa.

—De caminhar em uma sala, e é como se fosse pleno inverno. E você é o sol.

Depois de pensar 1 pouquinho, Jesse responde:

—É tudo.

E acaba se cortando com um pedaço do espelho quebrado, o que desperta na outra seu instinto mais vampiresco e ela se transforma numa inesperada chupa-cabra.

s2.pngMIM DÁ SEU SANGUE PLEASE SÓ UM POUQUINHO

Com isso, só fica mais claro o poder que a indústria do entretenimento exerce sobre a definição social e cultural da beleza. Ser feliz não é ser visto, é ser notado. E para ser notado, há que ter algo (the thing, no mundo da moda).

Vale lembrar que não ser notado não é uma opção.

Você deve se perguntar: Jesse tem o quê? Todas ali são bonitas, loiras, magras e com olhos azuis oblíquos e dissimulados. O que ela tem de diferente?

Nada.

Ela se destaca porque alguém tem que se destacar, mesmo num grupo de pessoas idênticas. Alguém tem que ser a/o eleita/o da vez. Mesmo que você seja um cordeiro marrom num grupo de cordeiros marrons, as pessoas podem escolhê-lo sem nenhum critério lógico, porque a natureza da superficialidade não trabalha com a diferença, ela trabalha com variáveis voláteis; com a superfície. Uma garota tão loira, tão magra, tão “bonita” quanto todas ao seu redor ter algo é uma alegoria ao disparate da frivolidade.

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Então, durante seu primeiro trabalho importante, Jesse sofre um epiléptico ritual de transformação. Ela se apodera de seu algo. O bicho pega. E a cena, claro, não podia ser menos apoteótica e visualmente eletrizante, ao mesmo tempo em que pontualmente contemplativa. É um momento uauuu, cheio de hipsteragem e trilha sonora maneira.

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São minutos que falam por si só, não importa muito como o roteiro tem se comportado. Exatamente como quando você repara em alguém que acha bonito na rua.

O mais importante, neste momento, não é a música preferida da pessoa, o que ela pensa sobre o Donald Trump, como ela pretende se livrar dos seus vícios mais prejudiciais ou como era visitar o sítio dos avós todo final de semana na infância. Nem o signo você quer saber ainda.

Quando ela passa e seu e̶s̶p̶í̶r̶i̶t̶o̶ rosto diz “estou aqui”, não é a sua história que desceu para brincar. É a sua beleza. Crua, no instante em que foi reparada.

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Depois de começar a se achar a filha da Gisele Bündchen com a Bela Adormecida, Jesse definitivamente se apodera do discurso regurgitado dia e noite por todas as bocas ao seu redor. Até maltrata o único boy que teve paciência para ela. E as coisas vão indo; ela tá foda, tá bombando, tá top. Até que tá demais da conta.

b2.pngToda trabalhada na sensualidade.

É quando três panteras se reúnem para mostrar para ela o que é bom pra tosse. Todas as três foram rejeitadas. Uma por ela e duas por causa dela. Uma quer tê-la e duas querem ser Jesse. O que você faz quando quer ter/ser alguém?

Você mata a pessoa, obviamente. E come depois, no mínimo. E usa o sangue dela como se fosse Monange Hidratação Intensiva.

the-neon-demon-2016-2.jpgReceita caseira altamente recomendada pela Xuxa e pela Condessa Elizabeth Bathory.

Mas o mais importante é a pré-morte de Jesse. O momento de devaneio dionísico em que ela está na prancha de uma piscina vazia e assume para os mortais sua culpa, sua tão grande culpa, por ser tão perfeita. A entrega pontífice e o hedonismo infame da sua autocoroação delatam sua ingenuidade diante das consequências.

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Então, depois de uma perseguição gostosinha, ela leva o soco derradeiro e cai estatelada na piscina, toda quebrada mesmo, os osso tudo virado tadinha. Foi mais louco do que o tapa na cara que ela levou da amiga em Ginger & Rosa. E daí em diante o filme mostra como as duas meninas que queriam ser Jesse conseguem trabalhos de destaque após devorarem suas vísceras e se banharem com seu sangue em uma cena frissônica.

E, claro, é tudo muito bonito. Plasticamente falando.

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Por isso, vamos lá, pessoal, não subestimem tanto assim o Refn. Eu sei que ele pode ter se tornado presunçoso, é a consequência da aclamação exagerada da qual ele foi alvo depois de Drive. Mas estou falando sobre estética, sobre fotografia, sobre as cores que ele usa, não sobre o roteiro. Porque quem disse, para começo de conversa, que ele é bom roteirista? Como roteirista, talvez ele seja um ótimo revendedor Jequiti.

Mas como pensador visual, ele é um pensador visual porreta. Não nos poupa disso nem nos créditos. Então, ao meu ver, ele está é criticando pessoas como eu, que compram sua beleza pela sua beleza. Ao oferecer uma história insossa e mixuruca envolta por uma redoma estética perfeita e extasiante, ele diz:

— Ei, vai dizer que meu filme não é lindo?

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Sua plasticidade é filha do hype. Refn nasceu desse conceito. Sua fissura por neon, que foi a fissura de mais uma porção de pessoas na concha das artes visuais e audiovisuais de 2016, sabe a quem se direcionar e é por isso que seu filme é para dois tipos de pessoa: os que o odeiam e os que o veneram.

Cada tipo tem seus motivos. Sabe Deus quais. Mas no quesito superficialidade da abordagem x impecabilidade da aparência o que Demônio de Neon tem a contribuir com nossos processos constantes de autoconhecimento e autocrítica é fazendo algumas/uns se perguntarem:

Quando eu olho para aquela pessoa na rua e tenho certeza de que ia amar transar com ela, o que eu estou levando em consideração?

ou

Quando eu dou amei naquela foto plástica, quando eu adiciono aquela pessoa porque nossa you look like my next mistake, quando eu curto e sigo tantas páginas de revistas de moda, quando eu me deleito no padrão… ops, me deleitei no padrão AF E AGORA???

tumblr_o8tjdagm2a1vvaceuo4_r1_500.gifAcho que essa deleitada no padrão me fez mal

Cara, está tudo bem, pelo amor de Deus. Tudo é cíclico e um dia depois do outro, bora fazendo. Não tem problema se você quer ser cult ou ter Gucci. A mensagem do filme, e eu estou tirando essa mensagem do toba mas foi a que eu concluí lendo críticas e ouvindo comentários, é:

A beleza é a única coisa. É a estética que sustenta. Compre ou rejeite, mas entenda seus motivos.

E a minha mensagem é:

A beleza não é a única coisa. Mas é algo.

E se você consome a beleza que os seus princípios revolucionários de quebra do padrão pedem para não consumir, apenas reflita um pouco sobre e chegará a algum lugar, com certeza. Mas não se avexe tanto, não se entupa de dilemas, vai tomar um sol enquanto isso porque hedonismo não tem sido pecado. Não tem problema achar o Sean O’Pry atraente, gente. Mesmo ele não sendo.

O problema (seu e não meu, aliás) é ser hipócrita.

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Edmar Borges

Jornalista sem tcc, designer sem graduação, ilustrador sem curso. Um latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes & vindo do interior de Minas..
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