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O nono termo da Sucessão de Fibonacci.

Edmar Borges

Jornalista sem tcc, designer sem graduação, ilustrador sem curso. Um latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes & vindo do interior de Minas.

Toda pele que eu encosto não é tua mas todo olhar que me atravessa na rua

é inquestionável, inevitável e indisputavelmente o teu.


44472-10325102-fire_jpg.jpgFotografia de Kyle Thompson

No dia que você foi, você foi porque eu disse pra você ir. E me arrependo tanto. Queria voltar no tempo e fazer de novo. Queria ter me esgoelado pro prédio todo ouvir, ter te expulsado sangrando, ter performado sem classe. Queria ter chorado bem na sua frente e na de todos os vizinhos, esfregado em você e nas paredes meus pedaços em vez de correr pro quarto e jogar tudo no chão.

Eu queria ter sido vulnerável, queria ter te dado uma última amostra da minha Verdade, queria ter te empurrado, socado essa sua cara bonita e cuspido em você. Ai, como eu me arrependo de ter sido tão doce, tão comedido, tão ponderado, de ter dito “a gente se fala” em vez de gritar para você ir se fuder bem longe com todo o grito que eu guardei.

Agora já foi.

Agora, na verdade, ainda é. E o tempo passa pela metade desde então. Mas tudo certo, ele vai passando e tem outras coisas em volta. Em breve, esse ciclo vai secar. Um ano escrevendo sobre você de vez em quando, um ano desde que eu tive que dar de comer para a desgraça e saciar o esplendor, um ano de não te querer por perto e ainda assim te procurar ao meu redor.

Um ciclo inteiro

encostando em toda pele que não é tua.

Mas todo olho que me atravessa na rua

é o teu.

Embora uma parte de mim tenha ido com você e isso tenha sido a coisa mais bonita, os pesadelos ficaram. Como isso podia acontecer? Como esse olhar tão luminoso e cansado que eu não dava a mínima sob a luz do sol das quatro da tarde na varanda do meu quarto em março ainda me encontram nas noites, em milhares de casas desmembradas que visitamos juntos enquanto eu durmo e, com você em outro plano, eu rondo três centenas de cômodos arruinados para saber se você ainda está comigo mesmo ou se eu vou ser feliz um dia?

Não sei.

E agora já foi. Mas agora eu já sei.

A mente demora a entender, mas quando se encontra se acaba. A alma segue. Ela é sábia, é leal e não tem dó. Ela entendeu muito antes de todos que você precisava ir, que você queria ir, que você tinha ido. A mente sofreu inconsolável e ininterruptamente durante o tempo em que a alma tem brincado de público. Não foi trabalho sujo dela encomendar o medo que eu tenho das pessoas desde você, o choro descabido em ocasiões inoportunas como lavando louça na festa de família, a raiva de mim e de você e o sofrimento por não aceitar que, afinal, homem vem e vai igual estação.

Você, inverno.

Inferno.

Que agora eu cruzei, amor. Você não é mais labirinto pra mim, te percorri tanto desde aquela tarde rude num quarto seco que agora decorei cada armadilha, agora eu vejo as covas e sei quantos demônios estão de guarda em cada pulo. Descobri a frequência do som da sua voz me chamando para dormir, marquei as paredes onde me debrucei esperando você voltar e desvendei as esquinas onde você aparece toda vez para dizer que, se eu soubesse como machuca, não amaria mais ninguém.

Eu sei. Agora eu sei.

Mas isso não vai me impedir.


Edmar Borges

Jornalista sem tcc, designer sem graduação, ilustrador sem curso. Um latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes & vindo do interior de Minas..
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