taberna das artes

Uma pausa da vida real

Adriano Schone

Publicitario lúdico, uso a arte como ponto de fuga do caos.

Música em meio a selva de concreto e aço

Em um mundo barulhento de constantes mudanças, Anton Walter Smetak encontrou uma maneira de fazer som com instrumentos feitos de sucatas. O suíço buscava diferentes percepções sonoplásticas. A partir de pesquisas e do uso de materiais cotidianos foi possível encontrar uma combinação perfeita. Na década de 1970, Bill Fontana cria uma técnica interagindo som e espaço: as esculturas sonoras. Essas nos fazem refletir sobre a simplicidade do ambiente.


EsculturasSonoras.jpg

A cidade já não é mais tão bela, o tempo apressado desgasta a felicidade e o bom senso. A falta de simpatia já virou rotina e ninguém percebe. Tudo vira motivo para grudar a mão na buzina e xingar a inocente mãe do motorista da frente, que respeitosamente parou para algum pedestre conseguir atravessar a rua (tipo de motorista em extinção, inclusive). Sabemos que um dos maiores causadores de stress é o barulho intenso do trânsito, ninguém se respeita em meio a tanto ruído e o que temos é um comboio de pessoas irritadas vagando pelas ruas. Esse é o mundo moderno, um mundo novo cheio de desesperos e rivalidades.

Anton.jpg Anton Walter Smetak (Reprodução) “Um mundo novo requer uma música nova, e para isso, instrumentos musicais diferentes”. Pensando assim, Anton Walter Smetak(1913-1984), suíço naturalizado brasileiro, criou um novo conceito entre artes plásticas e música. O músico compreende a sutil diferença entre “fazer som” e “fazer música” e passou a estudar profundamente os microtons, buscando no oriente, especificamente naÍndia, aprender mais sobre essa nova idéia. De volta ao Brasil, Smetak deseja produzir e expandir essa arte, mas para tornar acessível ele precisou criar formas de produzir os instrumentos a partir de materiais simples, como sucatas. Flautas feitas de bambu, canos de PVC ou até mesmo de porungas viram instrumentos extraordinários. Todos esses materiais passaram por uma pesquisa acústica na qual foi examinado o itinerário do som, em sua forma espiritual, psíquica e física.

O passo seguinte para “uma música nova num mundo novo” fica por conta do americano Bill Fontana.O cientista sonoro dá início, em1976,ao processo de criação de uma nova técnica musical, cuja principal característica deste gênero é a arte de manipular ou extrair sons de instrumentos que tem como objetivo interagir e transformar nossa percepção áudio-visual e arquitetônica dos espaços. O compositor nos mostra uma nova forma de perceber nossa escuta tradicional, conseguindo adaptar propostas sonoras que tenham o meio urbano como imagem sônica criando um mundo sinestésico. Exemplo disso foi a obra em que Bill Fontana levou a Paris, no Arco do Triunfo: o som do mar batendo na Costa da Normandia. Ou seja, ele conseguiu alocar um som inusitado para determinado espaço urbano, criando assim uma nova experiência, ou percepção de escuta por meio do evento.

A modernização segue, juntamente com o caos e stress da sociedade, felizmente a criatividade de criar novas percepções vem acompanhando essa evolução, mesmo que timidamente.Há alguns meses tivemos em Fortaleza – CE, uma exposição de esculturas sonoras, onde o artista Narcélio Grud expôs seus instrumentos musicais em praças, calçadas e outros espaços públicos. Eram instrumentos construídos com canos, fios, recipientes em metal ou outros materiais semelhantes, adaptados a placas de proibido estacionar e a alguns outros elementos urbano do cotidiano. “Mais do que instigar a ludicidade e a criatividade dos passantes, as esculturas trazem uma reflexão sobre a paisagem da cidade e o ritmo do fluxo de seus habitantes” diz Grud. narcelio.pngNarcélo Grud, artista brasileiro (Reprodução) Assim deixo minha sugestão para ouvir barulhos com uma nova percepção, não apenas como ruídos; seja na buzinada que o carro de trás dá enquanto você da a preferencia para algum pedestre ou no assobio de um homem (leia-se pedreiro) admirado com sua beleza. Até breve.


Adriano Schone

Publicitario lúdico, uso a arte como ponto de fuga do caos. .
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