tablados em observação

Um simples olhar da atmosfera teatral

Gustavo Moura

Escreva, Gustavo. Escreva.

O Teatro na Era do Homo Smart

O tempo vai passar, os hábitos da civilização irão mudar. A tecnologia e a internet podem dominar o mundo. Mas nada irá substituir a experiência teatral. Pois o Teatro eleva a plateia acima das leis que governam a vida cotidiana.


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Se um dia fomos “Homo Sapiens”, podemos dizer que hoje, 200 mil anos depois, vivemos na era do “Homo Smart”. Sempre focados em nós mesmos, com nossos diversos aparatos do admirável mundo novo, é quase impossível olhar nos olhos dos outros nas ruas, no metrô, nas salas de espera. Até em uma simples mesa de almoço, entre amigos, está difícil estabelecer o mínimo de contato visual. A principal barreira somos nós mesmos, pois nossos olhos estão voltados para a timeline do Facebook, o novo e-mail da firma ou a mais nova tuitada do dia. Observe você mesmo (se conseguir!): nos cafés, restaurantes, nas filas, no trânsito – sim, o WhatsApp matou os flertes nos congestionamentos e sinais vermelhos - e até mesmo na sua própria residência. Ousa dizer o contrário? Se estiver em casa, faça uma pesquisa de campo pelos cômodos e veja o que os outros moradores estão fazendo agora.

restaurante-celular.jpg "Só depois que a tecnologia inventou o telefone, o telégrafo, a televisão, a internet, foi que se descobriu que o problema de comunicação mais sério era o de perto" - Millôr Fernandes

Além dos smartphones, as smartTVs levam todo tipo de conteúdo para as casas, não somente a programação dos canais abertos e fechados. Os conteúdos on demand e via streaming são a tendência - o que é ótimo. Mas ao mesmo tempo é triste ver as locadoras deixando de existir. A última que vi fechando as portas funcionava em um local compartilhado com uma livraria. Ambas deram lugar a uma farmácia. A troca é emblemática. Será que somos uma sociedade cada vez mais doente, sem cultura ao alcance? Há quem diga que até o cinema está em risco. Eu tenho fé e me recuso a aceitar tal hipótese. Mesmo que hoje seja simples ter o mesmo conteúdo das telonas nas telinhas, a experiência com a primeira é incomparável.

E assim caminha a humanidade, sempre acelerando. As informações voam, os dias passam rápido demais e as pessoas não têm tempo para o tempo. O ser humano desaprendeu a ver o mundo, a olhar para o outro. Se a TV matou a janela, a internet a enterrou pra lá de 7 palmos. Ninguém mais olha pro céu pra saber da chuva. A consulta é no app do tempo. E se o céu contrariar a previsão on line, o culpado é o pobre São Pedro que estava desinformado, sem wi-fi lá no céu. Será que tudo vai evoluir assim, nesse ritmo alucinante, e realmente vamos perder o nosso olhar, a nossa sensibilidade para o mundo real?

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Ninguém sabe a resposta. Mas o que o Teatro tem com isso? Quanto mais o mundo caminha nessa direção, mais o Teatro se fortifica como sagrado. O mundo pode ser o mais “smart” possível, mas o Teatro sempre será o Teatro. Uma arte artesanal, feita por gente, de carne e osso, sempre. A fórmula é simples e primitiva, mas funciona há mais de 3 mil anos: Um lugar, um ou mais atores e uma plateia. Essa é a configuração mínima necessária para que se caracterize uma apresentação teatral. O tempo vai passar, os hábitos da civilização irão mudar. A tecnologia e a internet podem dominar o mundo. Mas nada irá substituir a experiência teatral. Pois o Teatro eleva a plateia acima das leis que governam a vida cotidiana. O ato de sair de casa, encontrar outras pessoas, sentar-se em uma plateia, se permitir olhar outros seres humanos contarem uma história ao vivo, é e sempre será algo especial, mágico. É garantia de vida, pois é feito de pessoas para pessoas. Essa é a essência básica. Não adianta estar on line, ver pelo youtube. Tem que estar de corpo presente para o ter. Por isso ele vale mais a cada dia.

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Certamente você já ouviu dizer que o Teatro é mágico. Tal encanto está na sua capacidade inacabável de se apresentar aos olhos do público sem revelar seu segredo pessoal. Pra muitos é algo libertador - tanto pra quem faz, quanto pra quem assiste. Pra outros é lugar de gente doida. O certo é que ele nos transporta para lugares nunca antes habitados, onde nenhuma tecnologia ousaria tentar. Tenho certeza absoluta de que o Teatro sobreviverá a “era smart” e jamais será corrompido. Na verdade o cálculo é inversamente proporcional: quanto mais a sociedade se subverte ao novo do novo, mais importante será o Teatro em suas vidas. Direta ou indiretamente. E mesmo que a passos curtos, o “homo smart” perceberá que o Teatro pode devolver algo muito valioso que ele um dia teve ao seu alcance: a capacidade de olhar outro ser humano. Mas será ele capaz de desligar o celular durante o espetáculo? Eis a questão.

teatro-greco-taormina.jpg Teatro grego romano de Taormina, situado na Sicília, Itália. Foi o primeiro Teatro helenístico.


Gustavo Moura

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