tablados em observação

Um simples olhar da atmosfera teatral

Gustavo Moura

Escreve de maneira desprentenciosa sua visão acerca do complexo universo teatral

Alabama Song: A Manifestação do Espírito de Brecht

Alabama Song é apenas uma criação artística que percorreu o século com a essência de seu criador, Bertold Brecht. Nasceu nos tablados do teatro e ganhou os palcos do rock n’ roll, da poesia, da expressão artística. De maneira racional ou intuitiva, os grandes artistas acessam grandes feitos e os transformam em sua própria arte.


brecht4.jpg "Devorei prazeres e fiquei faminto, bebi ilusões e continuei sedento." - Bertold Brecht

Alabama Song (whiskey bar), faixa 5 do 1o álbum, homônimo, do The Doors, de 1967. Conheci a música através de uma fita com o nome “Doors”, escrito por uma caneta Bic azul. Me lembro quando a executava a todo volume no meu micro-sistem. Quando o lá menor dos teclados de Ray Manzareck atacava, um pintor que na minha casa trabalhava exclamava bem humorado: “Olha aí! Outra vez aquela música de circo!”. Era motivo de gargalhadas, como se para o circo a música nos transportasse. Ele era um pintor de casas, não de obras de arte. Mas tinha um intuição, pois mais tarde descobri que ele tinha certa razão sobre as origens da música, que não era circense, mas sim do teatro. A canção é do alemão Bertold Brecht, da sua peça Hauspostille (1927), com música de Kurt Weill. Mais tarde, em 1930, fui usada novamente na ópera A Ascenção e Queda da Cidade de Mahagonny. Mahagonny é uma cidade fictícia criada por Brecht onde tudo é permitido: jogos, mulheres, farras e muito whisky. É a autêntica diversão. O conteúdo da ópera é o prazer. Qualquer semelhança com o comportamento de Jim Morrison seria mera coincidência?

Os Doors gravaram a música após Dorothy Fujikawa, esposa de Ray, mostrar para a banda o original da ópera de Brecht, cantado por Lotte Lenya, e sugerir que eles fizessem uma versão rock para a canção.

Já David Bowie, que também gravou música, é fã declarado de Brecht. O Camaleão fez estada em Berlim, berço de 3 grandes álbuns do artista. Na cidade de Bercht ele criou Low (1977), Heros (1977) e Lodge (1979), a chamada “Trilogia Berlim”. O período de Bowie na capital alemã é tido como um grande momento de criatividade artística da carreira do cantor, quando ele se transformou também em um pintor e colecionador de arte contemporânea, além de iniciar um curso intensivo de auto-aperfeiçoamento em música clássica e literatura.

Afinal, o que tem Bertold Brecht com The Doors e Bowie?

Em uma sociedade que separa a cultura da educação, que não trata a arte como uma forma de trabalho, seria normal separarmos as coisas: um é do teatro e outro da música. Mas é certo que todos pertencem ao mesmo universo: o da arte.

Reproduzo aqui a citação de Aderbal Freire-filho: “Mesmo que um monte de artistas não atribua suas próprias descobertas cênicas a Brecht, mesmo que esse movimento de abertura poética do palco seja em grande parte inconsciente das suas origens brechtianas, garanto: é com Brecht que o palco é aberto, escancarado, fertilizado, preparado para a explosão da nova poesia cênica, para ser novo, amplo, vivo, rico de possibilidades, em suma, infinito.”.

Morrison, que vivia flertando com a carreira de poeta, era extremamente teatral. Fazia o palco explodir nas apresentações dos Doors. Poderia recitar uma poesia, instigar o público provocando o sistema, evocar o caos, iniciar um ritual Xamã. Era o show em que tudo poderia acontecer em nome do prazer, perfeito para a cidade de Mahagonny.

David Bowie, por sua vez, é muito mais do que um músico. Artista plástico, ditador de tendências, também flertou com as artes cênicas no teatro e no cinema. Ele está em constante movimento, pulsando. Faz da sua vida um grande palco para sua arte.

Alabama Song é apenas uma criação artística que percorreu o século com a essência de seu criador, Bertold Brecht. Nasceu nos tablados do teatro e ganhou os palcos do rock n’ roll, da poesia, da expressão artística. De maneira racional ou intuitiva, os grandes artistas acessam grandes feitos e os transformam em sua própria arte. Artes plásticas, teatro, música, poesia, dança, cinema, etc. Tudo está no mesmo balaio. Está tudo conectado. E há um fio condutor chamado de arte que permeia nosso cotidiano, mesmo que as pessoas não tenham a consciência plena disso. O que seria do mundo sem a arte? Como seriam as ruas das cidades, o seu dia sem música ou as nossas vidas sem o cinema, por exemplo?

Brecht já dizia: "Todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver.".


Gustavo Moura

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