tablados em observação

Um simples olhar da atmosfera teatral

Gustavo Moura

Escreva, Gustavo. Escreva.

The Suit. Um Sobrevivente do Apartheid

Quando Can Themba escreveu "The Suit" ele tinha um objetivo claro: “Isso mudará a nossa vida e nos dará uma fortuna”, disse à esposa. Não foi isso que aconteceu. O apartheid não deixou. Can teve todas as suas obras proibidas na África do Sul e teve que se exilar na Suazilândia, onde morreu triste, pobre e alcóolatra.


África do Sul, anos 50. O talentoso autor negro, Can Themba, escreveu um conto intitulado “The Suit” . Ele tinha um objetivo claro. “Isso mudará a nossa vida e nos dará uma fortuna”, disse à esposa. Não foi isso que aconteceu. O apartheid devastou a África e deu um destino diferente à sua vida. Can teve todas as suas obras proibidas na África do Sul e teve que se exilar na Suazilândia, onde morreu triste, pobre e alcóolatra.

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Can não viveu para colher os frutos de sua obra. Mas ela continua viva, muito viva. Foi adaptada para o teatro e encenada pela primeira vez em Johanesburgo, no Market Theatre, em 1990, na recém-libertada África do Sul. Depois foi pra Londres e também transformou-se em uma adaptação em francês chamada “Le Costume”. Voltou a ter versão em inglês, com direção de Peter Brook, e passou pelo Brasil em 2015 para quatro apresentações.

Com certeza “The Suit” é uma história belíssima, mas não só isso. Parece que quando Can a escreveu, usou papel e caneta para colocar a sua vida nas palavras. Imagino que na duríssima África do Sul dos anos 50 escrever textos não era um hobby ou algo para passar o tempo. Era uma necessidade de vida, de sobrevivência. Teria ele escrito algo tão bom se fosse penas um hobby ou um passatempo?

O terno mencionado no título pertence ao amante de Matilda. Philomen, seu marido, flagra o casal adúltero e o amante foge e deixa para trás o seu terno. Philomen usa o terno para castigar a esposa. Matilda passa a ter como principal tarefa cuidar do “novo convidado de honra” da casa: o terno. Precisa alimentá-lo, trata-lo bem e até passear com a vestimenta aos domingos. Tudo para que se lembre do seu ato de infidelidade a todo momento. A princípio o texto pode parecer apenas uma história sobre traição. Mas nos leva também para o local onde se passa a história: Sophiatown, subúrbio de Johanesburgo. Era um lendário e populoso reduto da cultura negra. Um epicentro da política, jazz e blues durante os anos 40 e 50. Foi destruído pelo apartheid logo após Themba ter escrito o conto. Assim como o terno, o lugar é mais um personagem da peça.

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Sentado na poltrona J21 do Sesc Pinheiros, em São Paulo, me emocionei com a montagem de Peter Brook. Cenário simples, o brilhante trio de atores negros Cherise Adams-Brunett, Jared MaNeill e Ery Nzamba, acompanhados pelo talentoso trio de músicos Jay Phelps (trompete), Harry Salkey (violão) e Danny Wellington (piano). Ali foi contata uma bela história de maneira belíssima. A simplicidade e precisão do espetáculo nos engana e faz o teatro parecer uma arte fácil de ser realizada. Músicas lindas cantadas por Jared McNeill. Desde a primeira “Feeling Good”, de Nina Simone, às outras que eu ainda desconhecia (Mirian Makeba e Franz Shubert). Uma real transgressão. Vi um terno virar gente, o cotidiano de uma sociedade. Fui levado ao cenário de terror que massacrou Sophiatown e a população da África do Sul naquela época. Vi a música perder para a imbecilidade, a arte ser derrotada pela brutalidade. A vida colocada de lado por ideais estúpidos. Eu realmente não estava no Sesc Pinheiros em SP, em 2015. Estava em outra dimensão.

Jared McNeill cantando "Malika", de Mirian Makeba

No dia seguinte acordei pensado no que tinha presenciado. Percebi que um texto escrito em meio ao terror do apartheid ainda continua vivo e pulsante. Can Themba morreu de maneira trágica. Acabou sem dinheiro, triste e alcoólatra. Mas seu texto sobreviveu. Themba não conseguiu mudar sua vida e de sua esposa, como planejara. Mas com certeza tem mudado milhares de outras vidas pelo mundo com sua belíssima história.


Gustavo Moura

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