take my wings and fly away

Arte, cultura, cinema

Joana Miranda

Curiosa, viajante, cinéfila, leitora compulsiva, esteta, acredita na possibilidade do encontro das culturas e na procura individual do equilíbrio.

O Mentor

Apesar de se situar no clima do pós segunda guerra mundial e de se inspirar na figura do criador da cientologia, o Mentor não é um filme sobre guerra ou sobre religião. É um filme sobre a relação entre dois homens. Complexa, difícil, intensa, inquebrável.


mentor1.jpg

O Mentor, agora em exibição em Portugal, não é um filme fácil e não é, provavelmente, um filme inesquecível. Mas é um filme a que vale a pena assistir pelos desempenhos magistrais dos dois atores principais: Joaquin Poenix e Philip Seymour Hoffman. A complexidade das personagens a que dão corpo oferecem ao filme uma densidade psicológica notável que compensa a excessiva falta de direccionalidade e de ritmo da narrativa, em parte explicada pelo percurso deambulatório da personagem Freddie.

mentor2.png

Freddie Quell (Joaquin Phoenix) é um veterano da Marinha norte-americana que regressa à Califórnia depois de anos a lutar no Pacífico, durante o período da II Guerra Mundial. Com marcas psicológicas profundas que alteraram o seu comportamento, sofrendo de stress pós-traumático, vive uma vida sem rumo, marcada pelo álcool, pelo vicío em sexo e por atitudes imprevisíveis e violentas.

Segundo o realizador, o pós Segunda Guerra Mundial foi um período em que as pessoas estavam à espera do futuro com muito otimismo mas em que tinham, simultaneamente, que lidar com a dor e a morte com que se tinham confrontado no passado.

Com o fim da guerra surge a possibilidade de iniciar uma nova vida, uma vida “normal” e Freddie tenta alguns trabalhos sem grande sucesso. Cansado de procurar adaptar-se sem resultado às normas da sociedade, conhece Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), o carismático e complexo líder de um movimento filosófico auto-nomeado "A Causa".

Dodd sente, desde o primeiro momento, uma empatia enorme pelo rapaz e decide protegê-lo, gerando-se entre ambos uma relação de grande intimidade, complexidade e que se tornará, com o passar do tempo, difícil para ambos. Dodd tenta aplicar os seus estranhos métodos terapêuticos.

O método do “processing” que Dodd emprega em Freddie, questionando-o agressivamente para aliviar traumas passados, é uma representação do método da dianética proposto pelo fundador da cientologia L. Ron Hubbard, bem como a crença numa alma imortal que já ocupou vários recetáculos. Mas as comparações, e a importância do movimento para o argumento, acabam aí.

mentor3.jpg

O filme conta com alguns momentos comoventes e esclarecedores como a canção que Lancaster canta a Freddie perto do final do filme e a cena final na praia. Apesar de inspirado no criador da cientologia, religião que conta entre os seus seguidores com alguns famosos de Hollywood, este não é, de facto, um filme sobre cientologia mas um filme que assenta na relação profunda entre dois homens.

No final coloca-se a grande questão: optará Freddie por viver na segurança proporcionada pelo seu mentor ou conseguirá viver sozinho, longe desse mentor? Será possível viver-se sem servir uma qualquer causa?

Paul Thomas Anderson consegue sempre grandes interpretações do seu elenco. Tal como é evidente com Daniel Day-Lewis em Haverá Sangue, n’O Mentor Phoenix e Hoffman encontram-se relativamente à solta, improvisando e exagerando à vontade.

Anderson deixa-os criar o seu espaço, limitando-se a gravar as suas representações como um espectador maravilhado, sem grandes movimentos de câmara, como alguém que observa de fora. Em momentos chave como a cena que decorre no deserto, surgem planos grandes e irrepreensíveis, metódicos, que abrem espaço à reflexão do espetador.

Um filme dramático com argumento e realização de Paul Thomas Anderson que valeu a Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman e a Amy Adams a nomeação para Óscares.

O Mentor Título Original: The Master De: Paul Thomas Anderson Com: Philip Seymour Hoffman, Joaquin Phoenix; Amy Adams Género: Drama M/16 anos EUA, 2012, cores, 144 min.


Joana Miranda

Curiosa, viajante, cinéfila, leitora compulsiva, esteta, acredita na possibilidade do encontro das culturas e na procura individual do equilíbrio..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @obvious //Joana Miranda