tales from tannhauser gate

Apenas o nosso corpo tem limites...

Pedro Quedas

Depois de concretizar o seu grande sonho de escrever um livro, sorriu ao ver que tinha muito mais com que sonhar...

O Poliglota do 15

O Poliglota do 15 é a razão porque é impossível não nos apaixonarmos por Lisboa. Com um sorriso e umas boas vindas na língua que nos der mais jeito, é o mais disponível guia turístico que alguma vez tive o prazer de "conhecer". Tal como a cidade que tão bem apresenta, o seu amor é incondicional.

www.joaoleitao.comCom um bigode que já não se usa e uns óculos escuros que se usam ainda menos, vagueia pelas várias carruagens do eléctrico 15, de Algés à Praça da Figueira e desta no sentido inverso. Nunca falha um dia e nunca se senta. Como podia, se tem uma tarefa a cumprir e o tempo urge? O tremer das mãos denuncia uma idade que a alma se recusa a reconhecer.É o Poliglota do 15, o guia turístico não oficial da bela cidade que me viu nascer e nunca se esquece de me mostrar o seu amor incondicional. Nunca conversei com ele mas nunca me canso de o ouvir falar. Em inglês, alemão, francês, espanhol ou italiano (ou qualquer outro idioma que seja necessário, teimo em crer), o Poliglota nunca se recusa a dar as boas-vindas a todo e qualquer turista que nos visita e tem a boa fortuna de com ele se cruzar. Tanto ajuda a explicar o processo de compra dos bilhetes como aponta, embevecido, para a miragem bem real da Torre de Belém lá em baixo, junto ao rio. Explica um pouco sobre a sua história, que é a de todos nós.Olho para a direita, para a diária visão da extensão majestosa do Mosteiro dos Jerónimos e dou por mim a reconhecer o quanto a tomo como garantida. Um pouco como todos tendemos a fazê-lo com o amor dos nossos pais, por (triste) exemplo. Com as palavras do Poliglota na cabeça, compreendo pela primeira vez essa realidade tantas vezes ignorada: que a beleza de Lisboa está na sua partilha.Lisboa não é dos lisboetas. Não é uma banda 'indie' desdenhosamente mantida em segredo por patéticos 'pseudo-hipsters' convencidos que o valor da arte se prende, de algum modo, ao seu reconhecimento. Não, Lisboa é de todos nós. Do mouro e do tripeiro, do rico e do pobre, dos resmungões e eternos velhos do Restelo e dos extasiados e fugazes turistas. Lisboa é mais bela a cada cicatriz que ganha, a cada fado cantado e a cada galeria aberta.Lisboa é minha. Mas, acima de tudo, Lisboa é..."Welcome", diz o Poliglota do 15 a uma família francesa meio abalada pelo entusiasmo espontâneo do seu inesperado contacto.Exacto.

Pedro Quedas

Depois de concretizar o seu grande sonho de escrever um livro, sorriu ao ver que tinha muito mais com que sonhar....
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/geral// @destaque, @obvious //Pedro Quedas