tanto mar

Sobre ondas, conchas, pedras e marés

Manu Marinho

Apaixonada por artes e natureza, chocólatra, cinéfila e alucinada por tudo que diga respeito ao humano. Escritora desde outras vidas. Acho. Em metamorfose desde sempre.

Lancei meu primeiro livro 'O gosto amargo da maçã caramelada' em 2014, pela editora Multifoco

A arte que se recusa a ser real

Por que a arte moderna e toda a sua influência na contemporaneidade são ainda hoje mal compreendidas? Culpa dos artistas ou do público? Afinal, o seu sobrinho de cinco anos seria realmente capaz de pintar uma tela dessas?


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Guernica, de Picasso.

“Toda a gente quer compreender a arte. Por que não tentam compreender as canções de um pássaro? Pessoas que querem explicar telas normalmente ladram para a árvore errada”. Pablo Picasso

Podemos dizer que arte é, a partir de uma ótica bem geral, uma forma de rearranjar e despragmatizar o mundo. Qualquer tema, ritmo, cor ou personagem cabem numa obra de arte. Mas o que faz diferença, o que a tornará incrível ou medíocre é, sobretudo, o modo de contar.

E é no final do século XIX que tem início uma revolução no modo de contar. Com a invenção da fotografia e do cinematógrafo, já não fazia sentido uma arte que reproduzisse e tivesse tanto compromisso e apego com aquilo que denominamos realidade. O Realismo, enquanto modo de pensamento e perspectiva artística, começava a enfrentar significativo declínio de adesão na abordagem dos artistas.

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A fonte, de Marcel Duchamp. A crítica e a recontextualização do objeto.

Ainda hoje, no entanto, para o grande público, uma arte que não tenha estrita relação com a realidade é alvo de críticas, dúvidas e incertezas. Frases como “Meu priminho de cinco anos faz melhor” e “Não entendo o sentido disso” são constantemente ouvidas quando o assunto é a maior parte da arte produzida a partir dos séculos XIX e XX. Se grande parcela do público atual não aceita uma arte menos figurativa, como deve ter sido a recepção à época? E de quem é a culpa dessa não aceitação? Autor ou público?

Salvador Dalí enfrentou problemas ao expor suas obras, e teve algumas exposições embargadas. No Brasil, a Semana de Arte Moderna de 1922 enfrentou sérias dificuldades de público e crítica. Monteiro Lobato foi um de seus ferrenhos opositores e o poema “Os sapos”, de Manuel Bandeira, foi vaiado pela plateia, acostumada a lirismos e rimas ricas. É claro que uma ruptura tão grande com o cânone traria estranhamento. Mas pode-se afirmar que mesmo hoje, um século depois, ainda há muita rejeição a esse tipo de arte.

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A metamorfose, de Kafka. A completa desconstrução da realidade: o protagonista se transforma em um inseto.

Peças teatrais com enredos não lineares, um espetáculo de dança feito com formas desconstruídas e um objeto de artes plásticas que não seja o que vulgarmente denominamos belo, estão, na grande maioria das vezes – ainda hoje – destinados a um gueto de meia dúzia de entendidos.

Podemos afirmar, no entanto, que nem público, nem autor podem ser culpabilizados por esse fenômeno de não-sintonia, na medida em que o autor, tendo compromisso com a arte e com seu tempo, não pode ficar aquém de sua própria identidade artística em nome de uma popularidade, e o público – sobretudo em países com pouco incentivo à educação – não tem qualquer estímulo ao contato com qualquer tipo de arte, principalmente a de uma estética mais livre e subjetiva.

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Heitor Villa-Lobos, compositor moderno brasileiro. >

De uma maneira superficial, podemos dizer que a arte compreendida entre os séculos XIX e XX são um convite pra olhar pra dentro, e não pra fora. E ela causa temor e desconforto por ser livre demais, e por desconstruir muitos pilares e algumas das certezas mais engessadas.

Talvez se houvesse uma educação para realmente formar indivíduos, uma educação para o despertar de uma consciência mais plural de percepção, uma educação que incentivasse o sentir - ao invés de um culto ao racionalismo -, uma educação em que o lúdico fosse tão valorizado quanto um livro de exatas, todos nós tivéssemos a oportunidade e o interesse em conhecer esse universo, um rasgado convite aos sentidos.


Manu Marinho

Apaixonada por artes e natureza, chocólatra, cinéfila e alucinada por tudo que diga respeito ao humano. Escritora desde outras vidas. Acho. Em metamorfose desde sempre. Lancei meu primeiro livro 'O gosto amargo da maçã caramelada' em 2014, pela editora Multifoco.
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