tanto mar

Sobre ondas, conchas, pedras e marés

Manu Marinho

Apaixonada por artes e natureza, chocólatra, cinéfila e alucinada por tudo que diga respeito ao humano. Escritora desde outras vidas. Acho. Em metamorfose desde sempre.

Lancei meu primeiro livro 'O gosto amargo da maçã caramelada' em 2014, pela editora Multifoco

Porque sou como o mar

Sobre o que me leva ao mar, ou sobre o que dele levo em mim.


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Eu era uma daquelas crianças que de vez em quando vemos nas praias; caminhando cambaleantes em direção ao mar, tropeçando nas pequenas dunas de areia e levantando, sempre com os olhos mirados n'água. Um peixinho, diziam. Em casa não quer tomar banho, ok. Cuidado, o mar não tem cabelo! Curiosidade, gosto, instinto; intuição primitiva. Mas somente há pouco tempo entendi o lugar que o mar ocupa em mim.

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O mar tem suas marés. Às vezes acorda sereno e faz cócegas nas canelas da areia, escorrendo sonolento de volta pra dentro de si. Às vezes revolve-se, rebela-se, revolta-se; e cresce e enche: transborda-se. Mar deveria era ser adjetivo, feminino, plural. O mar é sempre vários, tal mulher regida de lua.

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O mar é sempre vários, mas também é uno. Impossível confundi-lo com rio, ou com qualquer coisa que seja. Em cada ponta que é sua é outro: ora azul turquesa, ora verde claro, ora cristalino. Sua infinita finitude é reconhecida à distância, sua amplidão faz que seja irmão quase gêmeo do céu. O mar é ator de múltiplas e distintas faces.

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O mar é como deve ser. Às vezes frio, congelante; é mistério pro olhar alheio. Mas pode ser quente e delicado, envolvente como um abraço. O mar é singelo. Não é terra, nem é ar: o mar é o caminho do meio.

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O mar não tem nascente. Não se pode dizer onde começa ou acaba, pois é rota circular. Há tempos de abundância e a chuva faz festa no espelho deitado da água. E há os tempos sofridos, nos quais o sol só faz que maltrata, parecendo que tudo reseca. Mas sua matéria inevitavelmente renova, pois é a própria origem da vida. O mar, sempre, se recomeça.

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Creio que eu, tal qual concha pequena, nasci no ventre do mar. Pois sinto, em cada reencontro, um recaminhar para mim. Pois sinto, a cada quebrar de ondas, a sincronia com as batidas do meu coração. Pois é na água salgado que antevejo, nítido, o meu mais completo reflexo e o meu mais infinito desejo de nadar pra dentro de mim.


Manu Marinho

Apaixonada por artes e natureza, chocólatra, cinéfila e alucinada por tudo que diga respeito ao humano. Escritora desde outras vidas. Acho. Em metamorfose desde sempre. Lancei meu primeiro livro 'O gosto amargo da maçã caramelada' em 2014, pela editora Multifoco.
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