tanto mar

Sobre ondas, conchas, pedras e marés

Manu Marinho

Apaixonada por artes e natureza, chocólatra, cinéfila e alucinada por tudo que diga respeito ao humano. Escritora desde outras vidas. Acho. Em metamorfose desde sempre.

Lancei meu primeiro livro 'O gosto amargo da maçã caramelada' em 2014, pela editora Multifoco

Dias desleais

Sobre tempos difíceis e o desafio do copo meio cheio.


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Gravura de autor desconhecido.

Tenho sentido desesperança, preciso confessar. Eu, que sempre vi o copo meio cheio. Tenho sentido raiva, devo admitir. Eu que sempre me peguei falando de amor. Tenho sentido medo, tenho que dizer. Eu que sempre admirei minha própria bravura.

A verdade é que os tempos têm sido duros. Acordo às seis e leio o jornal. Chacina. Ódio. Holocausto. Todos os dias, em todos os lugares; em países distantes, no meu bairro, no meu vizinho. Século XXI e a lógica da violência ainda é a lógica que orienta o globo.

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Charge de Latuff, 2013.

Só no Brasil, há cerca de trezentas células neonazistas. A Europa responde com extermínio a morte que foi impelida aos seus. Os Estados Unidos são referência para aqueles que defendem o porte legal de armas. Tudo morre em nome do capital. Os meninos morrem em nome do capital.

As pessoas ainda matam em nome de Deus, e as pessoas ainda creem que matar os que matam é a solução. A cor de alguns ainda é indissociável condição para a vida ou para a morte. O amor de outros ainda é condenado. O sexo de nosotras ainda é violentado, das mais diversas formas. Tomemos diariamente nossa dose de descaso, com gelo e sem açúcar, por favor.

O Estado é podre e o sistema fede.

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Aylan, o menino sírio de três anos que virou símbolo do drama dos refugiados ao redor do mundo.

Diante de tanta violência, porém, me pego pensando – faz-me bem a memória do copo -, que talvez as coisas sempre tenham sido assim, ou talvez até tenham melhorado. Há menos de um século, mulheres não votavam. Há menos de um século, pessoas foram colocadas em câmaras de gás. Há cerca de um século, negros eram considerados animais.

Talvez hoje, pelo fácil acesso à informação, estejamos mais acessíveis à barbárie. Ela nos chega mais rápido e com mais intensidade, com vídeos e fotos alegremente postadas pelos amigos na timeline ou indiscriminadamente compartilhada por todos no whatsapp. A verdade é que sempre fomos toscos, só que agora o espelho está o tempo todo na palma da nossa mão, com dois chips e câmera frontal.

E mais ainda: hoje todos temos voz. As redes sociais escancaram as práticas veladas, a hipocrisia das opiniões. Hoje sabemos com quem estamos lidando. Hoje sabemos quem precisa de educação no seu sentido mais profundo; aprender sobre direitos, amor e empatia. E como hoje vemos claramente, hoje nos indignamos. Já dizia o poeta, ou o profeta de bar, não importa: se indignar profunda e verdadeiramente é o primeiro passo.

men_women_and_children_6.jpg Imagem do filme 'Homens, mulheres e crianças', que fala sobre o uso da tecnologia na sociedade contemporânea.

Pensava que esse texto seria uma distopia. Mas olho para o lado e vejo o sorriso da minha mãe, e no celular a mensagem de alguém que pergunta se hoje eu estou bem. Ando na rua e vejo a mulher que se indigna ao ver um cão ser maltratado e leio a notícia da brava insurreição dos estudantes. Vejo na TV que Moçambique finalmente está livre das minas terrestres, e que em Israel, um restaurante dá desconto para árabes e judeus que dividirem a mesa.

Sim, eu ainda acredito nesses pequenos milagres. Sim, eles são pequenos, mas estão aí para desafiar a débil lógica da violência, da exploração e do fascismo. Não, eles não são o bastante, mas nos dão impulso para continuar na jornada, lutando e acreditando que um dia toda a barbárie será pretérito. É, talvez eu ainda veja o copo meio cheio mesmo. Que esse líquido sempre seja o amor. Tim tim.

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"A esperança é o sonho do homem acordado."

Aristóteles


Manu Marinho

Apaixonada por artes e natureza, chocólatra, cinéfila e alucinada por tudo que diga respeito ao humano. Escritora desde outras vidas. Acho. Em metamorfose desde sempre. Lancei meu primeiro livro 'O gosto amargo da maçã caramelada' em 2014, pela editora Multifoco.
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