tanto mar

Sobre ondas, conchas, pedras e marés

Manu Marinho

Apaixonada por artes e natureza, chocólatra, cinéfila e alucinada por tudo que diga respeito ao humano. Escritora desde outras vidas. Acho. Em metamorfose desde sempre.

Lancei meu primeiro livro 'O gosto amargo da maçã caramelada' em 2014, pela editora Multifoco

Da distopia nossa de cada dia

Sobre uma viagem de ônibus e a nossa ingênua insignificância


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Eu no ônibus, voltando de um longo dia de trabalho. Ar-condicionado. Dei o meu melhor e estou satisfeita. Resumindo: fiz minha parte! Ouvi elogios do chefe e creio estar no caminho certo. Recebo mensagens gentis no meu celular; dos amigos, dos amores. É sexta-feira. Mentalmente, planejo minhas próximas férias e penso no look que usarei no final de semana. Ponho o álbum favorito pra tocar. Coloco meus fones de ouvido. Ainda que eu falasse a língua dos homens, que eu falasse a língua dos anjos, sem amor, eu nada seria. Sinto-me plena; de vida, de planos e afetos. O mundo é bom e eu transbordo amor.

Olho pela janela. Num impulso, retiro os fones de ouvido. Vejo uma mulher negra e magra caminhando pelas ruas. Aparenta mais de setenta anos e carrega uma sacola de plástico grosso na cabeça. Ela equilibra o peso com dificuldade, e suas roupas são sujas e gastas. Está descalça e parece exausta sob o sol forte. Em meio à rua que pulsa nervosa, ela anda vagarosamente. Ela é o inverso; do fluxo, da cidade, de mim. Ou seria ela o meu próprio reflexo? Seria ela o nosso próprio reflexo?

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Meus olhos congelam na sua expressão cansada. Vejo o suor que escorre e chega salgado na boca, riscando caminhos na pele já traçada de tempo. Me afundo mais na poltrona do ônibus. O ar-condicionado parece-me ainda mais agradável e sou tomada por uma certeza profunda: jamais uma viagem pra casa me pareceu tão longa. Tenho um ímpeto de... Não. Não.

Desvio o olhar daquela cena e me volto ao celular. Sorrio com as novas mensagens que acabei de receber. É sexta-feira. Estará alta ou baixa a temporada na Ilha Grande? Amanhã devo ir ao aniversário da Marcinha. De vestido, é claro.

Som. Ainda que eu falasse a língua dos homens, que eu falasse a língua dos anjos, sem amor, eu nada seria. Retiro os fones de ouvido. Dou pausa na canção. Coloco novamente os fones. Conecto na rádio FM.


Manu Marinho

Apaixonada por artes e natureza, chocólatra, cinéfila e alucinada por tudo que diga respeito ao humano. Escritora desde outras vidas. Acho. Em metamorfose desde sempre. Lancei meu primeiro livro 'O gosto amargo da maçã caramelada' em 2014, pela editora Multifoco.
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