tanto mar

Sobre ondas, conchas, pedras e marés

Manu Marinho

Apaixonada por artes e natureza, chocólatra, cinéfila e alucinada por tudo que diga respeito ao humano. Escritora desde outras vidas. Acho. Em metamorfose desde sempre.

Lancei meu primeiro livro 'O gosto amargo da maçã caramelada' em 2014, pela editora Multifoco

Linha de Montagem

Hoje - só hoje - eu choro pelos meus inimigos.


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Sim, eu acredito que em todo ser humano há potencialidade para o amor. Mas também é verdade que em todo ser humano também há potencialidade para o ódio. Eis então que me pergunto: qual das duas capacidades é estimulada; pelo capital, pelas mídias, pelo estado? E a resposta me faz ter pena dos meus inimigos.

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Sim, a resposta me faz ter pena dos meus inimigos. Eu olho para os lados e vejo o fascismo sempre à espreita, o ovo sendo chocado. Mas a questão é que quem está chocando o ovo não é só o skinhead americano, o candidato à prefeitura ou o pastor evangélico. É o Seu João, que é legal pra caramba, gente boa mesmo. Quem está chocando o ovo é a Dona Maria, aquela mulher super simpática, do sorriso farto e da alegria contagiante. E eu me pergunto então o que aconteceu com João e Maria por esses estranhos caminhos da vida. E eu me pergunto o que não aconteceu.

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João nasceu em uma família de classe média, teve acesso à escola. Mas a escola de João estava mais interessada em ensiná-lo matemática (e nos próprios índices de aprovação no vestibular), pois assim João teria mais chances no mercado de trabalho, já que afinal o trabalho liberta. João tornou-se então um bom aluno, um bom graduando, um bom profissional. João não sabe quem ele é. João é frustrado, mas desconhece o por quê. João não sabe que deveria ser feliz na única vida que tem, e por isso não entende aqueles que têm necessidade de luta e de felicidade. João crê que direitos humanos é para humanos direitos. João não vê humanidade no que é diferente dele, porque não o ensinaram a ver. João não enxerga, João apenas vê.

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Maria nasceu em uma família religiosa. Maria aprendeu que há um deus único, e que, portanto, todos os outros além do seu são representações do demônio. Maria aprendeu a acreditar, e se só há um deus, só há o meu. Faz sentido, Maria. Maria acredita que bandido bom é bandido morto, porque é isso que aquele jornalista grita na televisão. Se está na televisão, está certo, Maria. Maria tem medo de ser assaltada, de ser morta, de ser estuprada. Maria pede a seu deus pra voltar pra casa em segurança. Maria quer que todos os cracudos morram.

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Sim, João e Maria são meus inimigos porque João e Maria são fascistas. Mas eu entendo – eu preciso tentar entender: João e Maria são vítimas da mesma sociedade que eu. João e Maria foram adestrados para isso: para viver de amarras, para odiar o diferente, para querer exterminar a diferença. O que nos separa é que alguns são falhas do sistema. João e Maria não. Atarraxem o parafuso do machismo, a mola do racismo; batam o prego da homofobia! Pronto! João e Maria são produtos perfeitos de uma doente linha de montagem. Mas não esperem, João e Maria, que por entendê-los eu vá me render aos seus dogmas, à sua ignorância, ou vá ser mais serena na luta. Entender o porque do seu ódio só me faz melhorar a estratégia e medir mais a pontaria.

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A verdade é que estamos todos no mesmo barco. Todos à deriva numa sociedade pautada pelo capital, pelo lucro; norteada por uma educação desumanizadora. Todos nos tornamos arremedos do que poderíamos ser. Todos nos tornamos tristes versões de nós mesmos. A verdade é que estamos todos no mesmo barco, embora alguns tentem nadar contra a corrente. Nademos! Mas hoje – só hoje – me deixem: eu preciso chorar pelos meus inimigos. Choremos.


Manu Marinho

Apaixonada por artes e natureza, chocólatra, cinéfila e alucinada por tudo que diga respeito ao humano. Escritora desde outras vidas. Acho. Em metamorfose desde sempre. Lancei meu primeiro livro 'O gosto amargo da maçã caramelada' em 2014, pela editora Multifoco.
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