tão legal...

...Quanto Um Dia De Chuva Em Bucareste.

Janaina Barroso

Além dos Olhos de Arbus

A vida além do retrato imaginário. Conheça um pouco de Diane Arbus e seu modo inconfundível de fotografar a realidade.


Diane-Arbus-1949 - Copia.jpg Uma fotografia é um segredo sobre um segredo. Quanto mais ela te conta, menos você sabe. -Diane Arbus

Allan Arbus fotografava o mundo perfeitinho da moda dos anos 40/50 ao lado de sua assistente e também esposa, a nova-iorquina judia de família rica, Diane.

Diane Nemerov casou-se com Allan aos 18 anos e tiveram 2 filhas. Somente aos 36 anos, iniciou sua carreira de fotógrafa com uma Nikon 35mm, e aos 39 trocou por uma Rolleiflex, com a qual encontrou seu estilo de fotografar.

Em vez das fotos de estúdio, como as do seu marido, e modelos perfeitas paras os padrões da sociedade, ela decidiu buscar a sua própria identidade. E a encontrou em toda parte, nas ditas pela crítica da época: “Pessoas normais, esquisitas e marginalizadas.”

diane_arbus_11.jpg O que eu nunca vi antes é o que reconheço. -Diane Arbus

Arbus chocou sua época trazendo à tona, o mundo como realmente era. Conseguiu olhar além das aparências. Com suas fotos quadradas e em preto e branco, ela encontrou sua assinatura como um instagram de sua época, trouxe para a o mundo da arte as pessoas reais.

É triste até, saber que as pessoas pagavam para ver as ditas 'aberrações' nos Circos de Horrores, mas se sentiam desconfortáveis em vê-las retratadas em seu dia a dia em revistas ou galerias de arte.

Por outro lado qual é a diferença para os dias de hoje, onde a sociedade exige uma perfeição que nem existe? São as diferenças e nossas imperfeições que nos tornam únicos no mundo.

diane_arbus_-_a_woman_in_a-3.jpeg A fotografia é um salvo-conduto que me permite ir a todos os lugares que eu desejar e fazer o que eu quiser. -Diane Arbus

Diane era à frente de seu tempo, mas ficaria decepcionada se pudesse ver o nosso mundo atual. Ninguém mais se importa em conhecer quem somos por dentro. As pessoas nos olham nos olhos buscando seu próprio reflexo.

Arbus revelou o dia a dia de gigantes, anões, gêmeos, idosos, travestis, nudistas, tatuados e todos os considerados feios e fora dos padrões. Ter um desses rótulos te resumia à somente isso. Os rótulos são o cimento dos muros que construímos entre nós e as outras pessoas.

Conseguiu ver que essas pessoas tinham sua vida exatamente igual a de qualquer um, com dias bons e ruins, com sonhos e metas, com coragens e medos, enfim, que todas eram apenas isso, pessoas no mundo com histórias de vida para contar.

2345260991_1c06681f4c[1].jpg

Compreendo Diane profundamente. Devemos olhar além do que nossos olhos podem ver. É clichê mas é uma verdade. Um rótulo não endurece uma pessoa ao ponto dela não se magoar. Vai doer sempre, por mais que você não perceba. Mas se a tratar como uma igual sua, o que realmente é, vai aprender muito com ela. E ela com você.

Em 1969 Diane e Allan se separaram. Casais com a mesma profissão tendem a ser felizes juntos. Mas nesse caso, faltou muito apoio de Allan, que não quis acompanhar Diane nessa aventura. Por sua vez, Diane não se conteve em ficar satisfeita com o mundo quadrado de Allan. Uma pena.

Depressiva, sempre esteve nos limites do humor. Quando começou a fotografar doentes mentais, foi do amor ao ódio por eles e por sua fotografia, e o medo de um dia depender do cuidado de terceiros a fez reavaliar sua vida.

Childwithhandgrenadedianearbus.jpg “Quero fotografar as cerimônias importantes do nosso presente porque, enquanto vivemos aqui e agora, tendemos a perseguir somente o que é aleatório, estéril e amorfo. Nos arrependemos pelo presente não ser como o passado e nos desesperamos pela sua marcha constante ao futuro. Os inumeráveis e inescrutáveis hábitos do presente repousam à espera de seus significados.”D.Arbus

Diane se matou em julho de 1971 com apenas 48 anos, encontrada em seu banheiro com cortes nos pulsos, após ingerir uma boa quantidade de barbitúricos.

Tinha seus tormentos existenciais mas cada um escolhe como enfrentá-los ou não. Isso não desmerece em nada sua participação no mundo da fotografia. E antes de partir já havia deixado sua marca, e é isso que conta no final.

Arbus viveu seus ultimos anos intensamente, se compararmos com o começo de jovem esposa assistente do marido. Mergulhou no desconhecido e o trouxe consigo. Como uma filha de família rica, obediente ao marido iria conhecer o submundo dos esquecidos? Pela tv dos anos 40/50?

strat5.jpg

Coragem e não ter medo de errar é o que deve nos mover. Diane foi muito aplaudida e o triplo disso criticada. Mas cumpriu seu papel nesta vida, e como último ato de rebeldia, decidiu como queria sair de cena. E assim o fez. Deixando suas fotografias, máquinas do tempo, para a eternidade.

Arbus-Girl-Emerging-from-ocean_SMALLERjpg.jpg

“Em todo trabalho de Arbus os mais simples acontecimentos fotográficos incorporam um tipo de literatura: enigmas, fábulas, lapsos freudianos, e a linguagem metafórica que pertence aos sonhos e aos pesadelos. Nenhuma fotografia, antes ou depois dela, fez do ato de olhar um exercício de tanta inteligência ao mostrar que olhar as coisas ordinárias significa tornar-se responsável pelo que se vê”. -Richard Avedon. Fotógrafo americano e amigo de Diane Arbus.

Diane-Arbus-1970-1.jpg


version 3/s/fotografia// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Janaina Barroso