tão legal...

...Quanto Um Dia De Chuva Em Bucareste.

Janaina Barroso

Um drink com Capa

De uma forma leve e reflexiva, um outro olhar sobre o homem por trás do ícone Robert Capa, um dos fundadores da Agência Magnum. Como a vida pessoal influenciou a sua arte e como sua arte influenciou o modo de fotografar a verdade acima de tudo.


3240912_9584c.jpg“Não é preciso pousar a câmera. As imagens estão lá, basta capturá-las. A verdade é a melhor imagem, a melhor propaganda” (Robert Capa)

O húngaro judeu Endre Erno Friedmann morreu pisando numa mina. Robert Capa morreu fazendo o que mais amava: fotografando. Ligeiramente fora de foco, depois da guerra sua vida teve cor e sabor de sangue e champanhe.

Se apaixonou por uma judia alemã, tal qual Romeu e Julieta só que em tempos de guerra. Os amantes boêmios inventaram o pseudônimo Robert Capa, em tempos que precisavam de dinheiro, já que os clientes de jornais e revistas pagavam mais quando o fotógrafo era americano. Mas, logo Endre adotou esse nome para si, pois ajudaria a fugir da perseguição dos judeus na Segunda Guerra.

Então, antes de Robert Capa existir, Endre Friedmann existia e amou a jovem anarquista judia alemã, Gerda Taro, mulher de fibra e também fotógrafa. O que prova que por trás de um grande homem sempre tem uma grande mulher. E sempre terá.

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Infelizmente, Gerda morreu jovem, aos 26 anos, cobrindo a Guerra Civil Espanhola. Ela foi esmagada acidentalmente por um tanque. Capa ainda teria toda a sua vida pela frente. Assim todos pensaram. Mas, tal qual Romeu e Julieta da literatura, o casal de jovens fotógrafos tiveram suas vidas ceifadas de forma trágica. Não ao mesmo tempo, mas mesmo assim, mortes trágicas.

Depois da morte de Gerda, Capa seguiu com sua vida boêmia, cultivou amigos, foi o melhor na profissão que escolheu, correu atrás de seus direitos, cobriu de guerras a momentos em família, e assim foi feliz à sua maneira, apesar de todas as dificuldades que enfrentou na vida. Cada um cura a dor à sua maneira, uns murcham e outros florescem.

Robert Capa, como boêmio, foi um grande amigo. Como artista, foi um grande fotojornalista. Como homem, foi um grande nome da Fotografia.

É extremamente difícil definir Capa. Não foi um ser humano comum, não passou em branco pela vida. Passou em preto e branco pelos banhos de sangue das cinco guerras que cobriu. Nós, ficamos com a beleza de seu legado, e ele com todo o peso dos horrores que toda guerra deixa nas costas de quem a vê de perto. Mas, esse peso não o estragou. Lapidou-o. Transformou-o em diamante. Tornou-o imortal.

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A vida noturna era intensa. Extremamente colorida. Imaginem o cheiro de cigarro impregnando o ar já contaminado pelas bebidas e conversas calorosas acompanhadas do carteado. O sedutor que conquistava muitas mulheres, e despertava a inveja dos inimigos, apenas se divertia.

Talvez, tenha visto algumas vezes como teria sido sua vida ao lado de Gerda. Com eles, jamais haveria rotina. Talvez, nunca tenha desistido de cobrir guerras depois da morte de sua amada. Talvez, fosse a forma de continuar fazendo o que ambos amavam fazer. Uma forma de mantê-la viva. Talvez...

Foi amigo de grandes artistas mas não se considerava um. Tinha muito a contar sobre suas fotografias e como e onde as tirou. Um drink com Capa deveria ser um evento, um acontecimento. Uma aula de como viver bem num mundo à beira da destruição que foi a Segunda Guerra. Cada dia podia ser o último. Carpe Diem devia ter sido o seu lema.

Ernest Hemingway e Picasso eram seus amigos. Literatura e Pintura. John Huston e Gene Kelly também. Cinema e Dança. Teve um romance com Ava Gardner e Ingrid Bergman. Atrizes. Não estou tentando contar sobre sua vida em detalhes, mas sobre todas as formas de arte que influenciou apenas sendo o amigo que era.

Já naquela época, sabia que todas as artes são uma coisa só. Um amontoado de pessoas fazendo aquilo que mais gostavam. Fazendo o que seus corações pediam, contrariando a sociedade que costumava ser castradora de sonhos. Até hoje é assim, na verdade.

Em um tempo em que o mundo tentava disfarçar a guerra, ele foi lá e tirou o esparadrapo da mídia impressa de uma vez só, mostrando as feridas purulentas da guerra. Também absorveu um pouco de cada amigo e moldou o seu próprio estilo de retratar a vida à sua volta.

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Antes dele, o mundo conhecia a fotografia dos soldados antes e depois da guerra. O seu diferencial foi cobrir a guerra enquanto ela acontecia, sem câmeras pesadas, apenas com sua Leica. Trouxe a realidade da guerra para dentro dos lares dos pais que se orgulhavam de ter um filho herói. Depois de Capa, os filhos se tornaram apenas soldados tristes tentando sobreviver e voltar para casa.

Mostrou e ainda mostra que, seja na guerra ou nos momentos em família e amigos, registrar o momento é fundamental. O nosso cérebro pode falhar um dia, mas a fotografia estará lá para nos lembrar que vivemos, fizemos e acontecemos.

Capa fez e aconteceu. Mas sempre manteve os pés no chão. Seu humanismo deve, hoje, inspirar as pessoas, não só na fotografia mas em todas as áreas da vida. Ver o horror da guerra e, ainda assim, fazer a diferença no mundo é algo que deve ser sempre lembrado.

É um exemplo para nós, hoje, que somos bombardeados com tantas notícias ruins e ficamos na mesma faixa criticando e reclamando. Sair desse nível, e tentar fazer algo que mude o mundo, nem que seja começando pela nossa casa, é preciso.

John Lennon disse que a vida é o que acontece enquanto estamos fazendo planos. Conhecendo um pouco mais sobre Robert Capa, posso dizer que a vida dele foi o que aconteceu entre um drink e outro.


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