tão legal...

...Quanto Um Dia De Chuva Em Bucareste.

Janaina Barroso

Modo: Automático

Vivemos constantemente no modo automático, diferente da rotina que é essencial para a organização dos nossos dias, ele nos tira toda a alegria real que o dia pode oferecer.


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Ela acordava toda manhã como se não tivesse dormido nada na noite anterior. Sempre os mesmos sonhos e a mesma exaustão, mas levantava, pedindo forças aos céus para que aguentasse mais um dia.

Arrastava-se pela casa de olhos quase fechados até o banheiro e lavava o rosto com água fria pra despertar. Minutos depois olhava-se no espelho e dizia mentalmente: -Não sei quem é essa pessoa em que você se tornou!

Virava-se em direção a cozinha em busca do café forte e bem quente. Água fria e café bem quente, combinação perfeita para despertar.

Conferia os e-mails, lamentava os que adoraria receber mas não estavam lá. E excluía todo o spam indesejado. Tomava um banho sempre no automático, como quando fazia tanto o mesmo percurso de volta pra casa e parava de prestar atenção aos detalhes do caminho.

Escolhia qualquer roupa do armário, perfumava-se, maquiava-se, disfarçava tudo que podia para ter a forma de alguém mais artificial. O espelho ainda dizia: -Você não era assim!

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Ela ignorava mais uma vez e saía de casa disposta a cumprir suas funções, também no automático, para voltar o mais rápido possível pra casa para poder tirar esta máscara que colocava todos os dias assim que pisava na rua.

Automaticamente aparecia um sorriso em seu rosto, erguia sua coluna, estufava os peitos e encolhia a barriga, e quando encontrava algum conhecido pelas ruas, lá estava ela com um sorriso estampado, parecido com comerciais de creme dental.

E quando perguntavam como ela estava se sentindo, logo dizia automaticamente: -Muito feliz! Obrigada por perguntar.

E a pessoa logo afastava-se dela, pois as pessoas odeiam pessoas felizes que não sejam elas mesmas. Ela sabia disso e por isso fazia assim, para se proteger. Mas só ela sabia toda a tristeza que morava no fundo de seu coração.

Só ela sabia como era bom, chegar em casa e abandonar esta falsa felicidade que o mundo cobrava dela, poder chorar vendo filmes na TV, vendo as vidas que nunca teria.

Estava exatamente onde queria estar mas não sabia que a felicidade estava em tudo que havia deixado para trás. Nem lembrava-se quem era de verdade, apenas existia, assim como dava, no modo: automático.


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