tela inteligente

Vida inteligente e culturalmente relevante no universo televisivo

Allan Aminadab

Um apreciador contumaz de tudo aquilo que permita ao indivíduo sair do lugar-comum propiciando-o reflexões, lágrimas, risos, inquietação, novas perspectivas, aprendizado ou qualquer outra reação realmente sincera. Amante de um bom livro ou HQ e de um ótimo filme, série ou minissérie com destaque especial para os documentários sobre Filosofia, História e Ciências em geral

De Olhos Bem Abertos

Mais que um drama homoafetivo. "Azul é a Cor Mais Quente" é um fragmento do Cinema contemporâneo que suscita uma releitura das concepções de normalidade, de gênero e de sexualidade num mundo histórica e socialmente estruturado por saberes, limites e interesses heteronormatizados.


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Azul é a Cor Mais Quente é sem sombra de dúvidas uma das películas mais aguardadas por cinéfilos de todo mundo quando da sua estreia em qualquer meio de veiculação. Para a crítica especializada, a produção franco-belga-espanhola [com colaboração tunisiana também] é um dos melhores filmes vencedores da Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes dos últimos dez anos. E não é por menos.

A dupla de protagonistas Léa Seydoux [Emma] e Adèle Exarchopoulos [Adèle] mais o diretor tunisiano Abdellatif Kechiche construíram uma das mais elegantes produções cinematográficas do ano passado presentando-nos com uma bela sinergia entre roteiro, interpretações e elaboração visual da narrativa que gravitam em torno da relação entre duas jovens, muito além do homoerotismo. Não há um olhar ou gesto captado por Kechiche que não seja explicitamente revelador de sentimentos e/ou sensual, inteiramente desprovidos de possíveis rotulações ou afetações.

Ao espectador a produção entrega, independente de pré-concepções e com exímia transparência de exposição, a história de vida de dois seres completamente livres. Tal como explicitado no título original - La Vida de Adèle: Chapitres 1 et 2 - a história está dividida em duas partes que se assentam sobre um veio principal: a maturação para a vida adulta daquelas jovens, em especial Adéle.

o-BLUE-IS-THE-WARMEST-COLOR2.jpg Adéle e os desafios da subjetividade na transição para a vida adulta

A produção inicia-se com Adèle concluindo o ensino médio com ênfase em Literatura. Autores e suas respectivas obras são citados, lidos e rapidamente refletidos - Pierre Marivaux, Jean-Paul Sartre e Pierre de Laclós para citar alguns. Aqui a vida de Adèle - filha de uma classe de trabalhadores tradicionais - ressoa em sintonia com a literatura que estuda: repleta de incertezas presentes, ornamentada de perspectivas futuras idealizadas.

Os textos lidos em sala de aula, os comentários dos alunos e dos professores e as breves reflexões existencialistas sobre a liberdade antecipam de alguma forma os dramas que desfilarão na segunda parte da película. Adèle lê bastante, o que lhe amplia o olhar sobre a existência. Sensível, ela está mais atenta ao mundo ao seu redor e nesse ínterim vivencia o desencontro com o sexo oposto que a catapulta na direção de Emma, uma artista plástica dedicada ao desenho e à pintura.

Emma - uma clara referência à Emma Bovary, a icônica personagem do Realismo de Gustave Flaubert - pertence a uma classe mais aberta ao contato e a experimentação de novas realidades ou "texturas" como apresentado no filme através de uma acertada metáfora culinária; pertence a uma classe mais culta e livre para pensar e agir. Ali Adele encontra a inteligência que admira e pela qual anseia. A atração é imediata, cerebral e sexual.

azul3.jpg Desenho da graphic novel original de Julie Maroh que inspirou a película

O primeiro capítulo possui uma velocidade mais tranquila, mais pessoal, onde os personagens são construídos em separado com grande destaque para Adele. A câmera de Kechiche acompanha a moça em todas as suas reações: como dorme, mastiga, se espreguiça. Repleta de primeiros planos muito bem enquadrados onde a emotividade expressa pelos olhos e boca suplementam as falas essa primeira etapa também conta com uma fotografia que espalha-se por espaços abertos - praças, pátio da escola, caminhadas pela rua, e por uma edição serena e segura que faz a história fluir sem sobressaltos.

Na segunda parte, depois de um intermédio sutil e magnificamente bem elaborado onde Emma e Adèle conhecem-se e se aproximam no tempo e no espaço afetivos, elas passam a viver juntas. Emma agora é uma pintora em vias de projeção e Adèle uma dedicada professora pré-escolar. São existências que se unem sem prejuízo de serem o que são em essência noutra referência explícita a um pensamento sartreano discutido na primeira parte.

Nesse segundo momento o filme apresenta outro ritmo, mais urbano, entre as quatro paredes da casa delas, na escola infantil ou numa galeria de arte. A fotografia é mais escura, a edição mais ágil, a narrativa mais densa configurando o prenúncio de tempos difíceis. Aqui as cenas de sexo funcionam como um amálgama de almas afins, uma sutura invisível de identidades que transcendem o gênero, um movimento de integração que inicia-se nos seus corpos, no revolucionar dos braços, pernas, cabeças e na troca de olhares que revelam sensações e emoções plenas, realidade própria de um amor que nasce liberto de qualquer normatização.

azul4.jpg Produção oferece deslumbrante integração de cores e iluminação à narrativa

Kechiche é um ótimo diretor de atrizes. Consegue fazê-las representar com naturalidade os relatos de vida e os desejos de suas personagens não somente através da fala, mas também por meio de seus corpos, das posturas e movimentos corporais, das flexões faciais, dando uma forma e sentido belamente incomuns aos seus filmes onde são as mulheres que tocam a ação ficando os homens a orbitarem ao seu redor. Nesse quesito o grande destaque fica para a atriz parisiense Léa Seydoux - premiada anteriormente como revelação feminina em Cannes 2009 - numa atuação avassaladora, a espontaneidade das suas expressões de afeto por Emma durante o período de aproximação é simplesmente encantadora.

Azul é a Cor Mais Quente é acima de tudo um singelo convite ao pensamento queer. É um fragmento do Cinema contemporâneo que suscita uma releitura das concepções de normalidade, de gênero e de sexualidade num mundo histórica e socialmente estruturado por saberes, limites e interesses heteronormatizados. Azul é a cor da mudança de perspectiva, a busca por um novo olhar, por um novo sujeito cuja essência encontra-se sempre em vias de amadurecimento, dinamico, aberto a novos horizontes existenciais, não estagnado em si por uma ontologia social, ditames biológico ou teorias "psi" heterossexualizadas.

Os corpos que se enroscam a ponto de não identificarmos os limites que definem formas remete-nos há uma nova perspectiva: a de uma realidade diversa aonde não existe mais espaço para antigas e ultrapassadas categorizações fundamentadas em singularidades corpóreas instituídas por séculos de dominação religiosa ortodoxa-dogmática somada aos interesses do capital. Ser o azul a cor mais quente é uma clara convocação à necessidade de ressignificação de nossa visão de mundo guiada pelo que se passa no mais íntimo do ser: como ele se vê, se sente ou pensa à respeito de algo, independente de padrões. Nesse contexto, Adéle não é apenas alguém que busca sua identidade sexual, mas um indivíduo que vai além, um raro exemplar de ser humano em construção não-normativa da subjetividade.

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+ AZUL É A COR MAIS QUENTE \\ La vie d'Adèle \\ França/Tunísia/Bélgica/Espanha \\ 2013 \\ Gênero: Drama/Romance \\ Duração: 179 minutos \\ Direção: Abdellatif Kechiche \\ Visto: na NETFLIX \\ Classificação Indicativa: NÃO Recomendado para Menores de 18 Anos.


Allan Aminadab

Um apreciador contumaz de tudo aquilo que permita ao indivíduo sair do lugar-comum propiciando-o reflexões, lágrimas, risos, inquietação, novas perspectivas, aprendizado ou qualquer outra reação realmente sincera. Amante de um bom livro ou HQ e de um ótimo filme, série ou minissérie com destaque especial para os documentários sobre Filosofia, História e Ciências em geral.
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