tela inteligente

Vida inteligente e culturalmente relevante no universo televisivo

Allan Aminadab

Um apreciador contumaz de tudo aquilo que permita ao indivíduo sair do lugar-comum propiciando-o reflexões, lágrimas, risos, inquietação, novas perspectivas, aprendizado ou qualquer outra reação realmente sincera. Amante de um bom livro ou HQ e de um ótimo filme, série ou minissérie com destaque especial para os documentários sobre Filosofia, História e Ciências em geral

Febre por Conhecimento

O recente descobrimento do Bóson de Higgs observado a partir do olhar de seis dos mais renomados físicos de partículas da atualidade envolvidos no projeto do Grande Colisor de Hádrons, o maior e mais caro experimento científico da História, permite-nos admirar as fronteiras da inovação, experimentação e imaginação humana.


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Particle Fever é sim um documentário científico onde a Ciência se mostra de forma pura e direta. Apresenta conceitos matemáticos, de Engenharia e de Física. Fala-se sobre a matéria e a busca por uma partícula quântica há muito tempo teorizada e nunca encontrada. É um pequeno tesouro documental que merece ser descoberto nesse oceano hodierno repleto de produções irrelevantes.

"Para que servirá isso?", questiona um dos protagonistas desse ótimo filme que funciona como um thriller envolvente sobre mulheres e homens apaixonados pelo Conhecimento. "Não faço ideia" é a resposta oferecida pelo próprio questionador que em seguida se põe a listar diversas descobertas científicas que inicialmente não possuíam uma finalidade concreta ou aplicação imediata.

A produção se passa no Grande Colisor de Hádrons [LHC, da sigla em inglês], um acelerador de partículas operado por um grupo que conta com pouco mais de 10.000 profissionais trabalhando diuturnamente na busca da detecção da partícula denominada Bóson de Higgs. Também conhecida como "partícula de Deus" sua existência realimenta algumas eternas inquirições científico-filosóficas: "O que é o Universo?", "Até onde esse se estende?", "Quanto mais ele pode expandir-se?" e se "Há um único Universo ou múltiplos Universos?".

particlefever2.jpg Físicos protagonistas: a italiana Fabiola Gianotti e o americano David Kaplan

Não é um documentário difícil ou acessível somente para pessoas da área. Não mesmo. Assim como na leitura dos romances de Dan Brown não é necessário ser especialista em História das Religiões e Ciências em geral para apreciar os termos religiosos e científicos ali presentes ignorar a linguagem técnica utilizada pelos físicos que aparecem na tela não expulsa-nos da história e do suspense incluso na procura do Bóson.

"Sem os teóricos não teríamos experiências e sem os experimentalistas não saberíamos se as teorias são verdadeiras ou não". É mais ou menos este o ponto de partida da história, a colaboração entre dois ramos da Física que são inevitavelmente necessários: de um lado um segmento que pensa sobre os mistérios do Universo e como transformá-los em Teoria, do outro um grupo que experimenta essas teorias para comprovar sua validade ou não. Sem rivalidades aparentes esses grupos de cientistas se dedicam em tempo integral a discutir e testar numa perspectiva seminal explicações para a mecânica do Cosmos, sempre imbuídos de muita paixão pela Ciência, pesquisa, Educação e aprendizado.

particlefever5.jpg O inglês Peter Higgs formulador da partícula que leva seu sobrenome

E é nesse contexto que descobrimos ser o LHC um projeto em solo europeu que foi rejeitado pelos EUA por representar gastos públicos exorbitantes num experimento sem retorno financeiro iminente. "O que os europeus realizarem em seguida tomaremos deles os resultados", chegou a afirmar um congressista norte-americano quando as Câmaras de Representação se recusaram a desenvolver o projeto por lá. Isso não impediu que o sonho de diversos pesquisadores do mundo inteiro se materializasse nas terras do velho mundo num trabalho conduzido pelos melhores "cérebros" do planeta oriundos de mais de 100 países numa dimensão histórica jamais vista.

Desacoplados dessa realidade que discute financiamentos, exploração midiática e lucro instantâneo estão mulheres e homens dedicados à tarefa para qual foram contratados: determinar a massa da menor partícula conhecida até este momento ratificando as teorias do Modelo Padrão do Universo - conhecida como Supersimetria - ou demonstrando que nós realmente estamos lidando com Multiversos - Universos em múltiplas dimensões. Para este último caso, o LHC teria que detectar uma partícula com massa muito elevada que a tornaria instável produzindo uma queda em sequência das Leis da Física até então estabelecidas. Assim, a partícula apresentaria um comportamento imprevisível na sua pequenez infinitesimal incluindo o poder de nos destruir da mesma forma que nos criou.

Risos e boa ironia são inerentes à natureza humana, e aqui não é diferente, o bom de humor encontra-se presente em qualquer conversa do grupo multinacional e multiétnico que trabalha nesse acelerador de partículas com 27 quilômetros de circunferência construído pela Organização Europeia de Energia Nuclear [CERN, da sigla em francês] na fronteira franco-suíça. São esses animados pesquisadores provenientes de várias universidades pelo mundo, principalmente dos EUA, que acompanhamos os esforços científicos dos últimos quatro anos de desenvolvimento de um projeto que levou duas décadas para ser concluído constituindo-se na maior obra de engenharia do planeta dedicada inteiramente à pesquisa científica.

particlefever4.jpg Animações auxiliam na compreensão de conceitos importantes

O documentário nos transporta a um terreno muito peculiar desconhecido por muitos: o da experimentação séria de teorias que buscam explicar como o Universo se comporta nas suas engrenagens mais fundamentais. Não há referências à religiões ou crenças, não há dogmas em fazer-se Ciência, o que não é demonstrável não existe e o que demonstra-se errado é descartado. Sob esse olhar a descoberta do Bóson de Higgs surge como um marco importante na História da humanidade, especialmente para aqueles que têm febre por conhecer e aprender, que possuem um espírito de inquietude científica, que vivenciam uma curiosidade inata que os fazem perguntar sempre por que ou como as coisas são e acontecem.

Por outro lado, a película também nos convida a experimentarmos esse espírito inquiridor-científico que repousa latente em nós e que ainda não despertou porque faltou-nos os dois principais estímulos: o familiar e o dos bancos escolares. É a ação apaixonada dos pesquisadores associada a uma ótima edição de material que nos translada para o LHC ao mesmo tempo que transporta a psicosfera científica do LHC até nós. No final estamos encantados com o trabalho realizado por aquelas mentes brilhantes que também se apresentam como seres humanos noutro grande acerto da produção ao mostrar-nos um pouco do cotidiano não-acadêmico dos protagonistas - a cena da festa de inauguração é emblemática nesse sentido.

Com uma produção visual muito bem elaborada Particle Fever configura-se como um título altamente recomendado como vetor de divulgação científica, prazer pela inovação e gosto pela descoberta, acrescido de momentos emocionantes, como a aparição do próprio Peter Higgs enxugando as lágrimas ao ver constatada experimentalmente a partícula que teorizou, comprovação que lhe garantiu o Prêmio Nobel de Física em 2013.

Num patamar menor mas não imperceptível temos o uso da música, especificamente a "Ode a Alegria" de Beethoven que cumpre um belo papel de representação sonora do contentamento com os primeiros êxitos do LHC num casamento de imagem e trilha sonora que lembra a harmonia exaltante entre esses dois elementos obtida com o uso da valsa "Danúbio Azul" de Johann Strauss no clássico "2001: Uma Odisseia no Espaço" de Stanley Kubrick.

O destaque final fica para Mark Levinson, diretor do filme, que também é físico de formação, fato que auxilia bastante na construção narrativa da história deixando-a mais compreensível para o leigo quando a assiste. Levinson faz-nos perceber a importância e magnitude do projeto sem esquecer o lado pessoal de físicos cujas vidas acompanha até o objetivo final. Sua obra nos suscita uma pequena reflexão filosófica sobre nossa existência, sobre o Universo que nos contém, mas vai além, muito além, ao incitar em nós o uso de uma das mais ricas ferramentas investigativas que possuímos segundo o próprio Higgs . . . a imaginação.

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+ PARTICLE FEVER \\ Particle Fever \\ EUA \\ 2013 \\ Gênero: Documentário \\ Duração: 99 minutos \\ Direção: Mark Levinson \\ Visto: na NETFLIX \\ Classificação Indicativa: LIVRE para Todas as Idades.


Allan Aminadab

Um apreciador contumaz de tudo aquilo que permita ao indivíduo sair do lugar-comum propiciando-o reflexões, lágrimas, risos, inquietação, novas perspectivas, aprendizado ou qualquer outra reação realmente sincera. Amante de um bom livro ou HQ e de um ótimo filme, série ou minissérie com destaque especial para os documentários sobre Filosofia, História e Ciências em geral.
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