tela inteligente

Vida inteligente e culturalmente relevante no universo televisivo

Allan Aminadab

Um apreciador contumaz de tudo aquilo que permita ao indivíduo sair do lugar-comum propiciando-o reflexões, lágrimas, risos, inquietação, novas perspectivas, aprendizado ou qualquer outra reação realmente sincera. Amante de um bom livro ou HQ e de um ótimo filme, série ou minissérie com destaque especial para os documentários sobre Filosofia, História e Ciências em geral

Uma Viagem Mais que Pessoal

A retomada da viagem pessoal iniciada por Carl Sagan há mais de três décadas remete-nos de volta ao convite por ele realizado já naquele tempo de que entender o Cosmos é entender a nós mesmos.


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Quando estreiou no Brasil a série original Cosmos: Uma Viagem Pessoal por Carl Sagan, eu com meus poucos sete anos de idade ainda me encontrava nas primeiras leituras. Mas minhas memórias da série são bem vívidas não apenas por ter acompanhado com boa ansiedade cada capítulo da saga ao lado de grandes incentivadores ao gosto pelas Ciências - meus pais, mas também porque deles recebi de presente de aniversário um exemplar do livro homônimo que guardo com muito zelo e carinho até hoje.

É gratificante imaginar que Carl Sagan com sua assombrosa habilidade de ver além do lugar-comum jamais cogitou que sua clássica e cultuada série fosse ressuscitada mais de três décadas após sua primeira exibição, uma bela homenagem a esse astrofísico que popularizou o gosto pelas saber científico mundo afora através da televisão numa era em que esta reinava absoluta como o maior e mais veloz vetor de informação e entretenimento. Homenagem porque no ano de seu relançamento [2014] Sagan completaria 80 anos de idade.

cosmos02.jpg Carl Sagan [1934-1996] em cena da série original dos anos 80

Apresentada agora pelo mundialmente reconhecido e premiado astrofísico - também norte-americano e novaiorquino como Carl - Neil deGrasse Tyson, a série aspira despertar no telespectador o encantamento pelas maravilhas do Universo à medida que estas são reveladas pelo sensacional poder da perspectiva científica. Brannon Braga [Jornada nas Estrelas], produtor da primeira exibição da série, segue como realizador principal ao lado do cuidadoso diretor de fotografia Bill Pope [Matrix]. Dupla acrescida da autora e viúva de Carl, Ann Druyan, que reaparece como produtora executiva garantindo uma atmosfera renovada em relação à apresentação original sem excluir uma de suas características mais marcantes, fruto do próprio espírito de Sagan: a perfeita triangulação entre História, Ciências Naturais e Filosofia.

Se a maioria das séries documentais para divulgação científica da atualidade foca no ensino das mais modernas teorias científicas com a participação de diversos especialistas, a nova "Cosmos" dedica sua atenção ao básico, àquilo que é essencial na construção do conhecimento científico dirigindo-se assim ao público geral, em especial aos mais jovens. Numa inevitável e saudável comparação Cosmos: Uma Odisseia do Espaço-Tempo presenteia-nos com novas narrativas em relação à sua antecessora expandindo ainda mais o nosso olhar sobre as realidades que permeiam o Cosmos sempre instigando à inquirição científica e a reflexão de natureza filósofica.

cosmos03.jpg Neil e o Calendário Cósmico revisto e ampliado

Neil faz um belo trabalho impregnando de sentido fenômenos incríveis e difíceis de assimilar. Com o apoio de elementos míticos da série original - agora reinventados - como o sensacional Calendário Cósmico e a onipresente Nave da Imaginação, o astrofísico permite-nos entender a magnitude da criação do Universo e o início da nossa diminuta existência humana em detalhes jamais apresentados. O resultado final é digno de uma produção cinematográfica recheada de corpos celestes impressionantes num espectáculo visual ricamente informativo.

E mais, em sua nova edição "Cosmos" não trata apenas de estrelas, galáxias e aglomerados. A série aborda também outras áreas da Ciência como a Geofísica no episódio sobre a descoberta da deriva dos continentes [inesquecível], a Matemática no episódio sobre a relação entre Isaac Newton e Edmond Halley [empolgante], a Ecologia quando trata dos efeitos nocivos das emissões de carbono num episódio amendrontador e a Biologia Evolucionária logo no segundo capítulo quando explica como os processos da Seleção Natural guiam a Evolução das Espécies.

Também são explicados conceitos da Teoria Relatividade, microbiologia, eletromagnetismo, sobre o DNA, princípios Quânticos, etc. Tudo isso explanado numa narrativa simples, contextualizada e sempre auxiliada por elaboradas sequências em computação gráfica tal como a que nos oferece uma visão espetacular da estrutura helicoidal da molécula de DNA ou que nos permite acompanhar de perto o que ocorre quando nos aproximamos do horizonte de eventos de um buraco negro.

Somem-se a isso as belas sequências animadas, abertamente inspiradas na linda produção franco-belga Uma Viagem ao Mundo das Fábulas, que encaixam-se com perfeição no arco narrativo de cada capítulo e contam como personagens de relevo nas Ciências desenvolveram seus trabalhos contribuindo para o progresso da Humanidade. Na dublagem original encontramos vozes célebres como as de Seth MacFarlane (Giordano Bruno), Kirsten Dunst (Cecilia Payne), Richard Gere (Clair Patterson), Marlee Matlin (Annie Jump Cannon), Wesley Salter (James Clerk Maxwell) e Patrick Stewart (William Herschel).

cosmos06.jpg Deleite visual: a estrutura intrínseca do DNA vista em detalhes

Mesmo sem possuir o mesmo grau de impacto da primeira veiculação, a nova produção cumpre muito bem sua tarefa de ser inquietante, vistosa, informativa e excitante para todos que a assistem inclusive aqueles que não tenham qualquer interesse em Ciências. Como uma das mais amadas séries científicas de todos os tempos, a original "Cosmos" funcionou como uma linha divisória que marcou os programas televisivos não ficcionais mudando, no ano de 1980, a maneira como as audiências eram capazes de ver além do nosso mundo. Durante 33 anos, a série permaneceu numa contínua distribuição mundial vista por mais de 750 milhões de pessoas em mais de 175 países. Nos Estados Unidos tornou-se uma das produções mais vistas da TV pública mantendo o recorde de audiência por uma década.

Unindo ceticismo e razão, interligando Ciência rigorosa com elementos visuais, emocionais e espirituais, o novo "Cosmos" é uma experiência transcendente bastante recomendada, em especial quando degustada em todo esplendor da alta-definição. E para salientar ainda mais a sua importância e qualidade, se o primeiro "Cosmos" venceu três Emmy Awards esse feito foi agora superado pela nova versão que garantiu quatro estatuetas na última edição do mesmo prêmio: melhor tema principal, melhor roteiro para série não-ficcional, melhor edição de som e melhor trilha sonora.

cosmos04.jpg Animações refinadas e mais destaques femininos na nova edição

Cosmos: Uma Odisseia do Espaço-Tempo é uma série ideal para ver, rever e comentar com seus filhos, sobrinhos e netos, para mostrar em Colégios, Institutos e Faculdades. Destinada a apresentar a Ciência como algo rico e excitante fomentando uma cultura científica e fazendo-nos perceber que entre o curtir e o compartilhar existem Universos encantadores que vão do micro ao macro que somente a Ciência pode descrever. Acompanharemos histórias de vida maravilhosas de homens e mulheres - estas com maior destaque na exibição atual - em boa parte desconhecido(a)s que ao largo do tempo aplicaram a observação, a investigação e a experimentação para obter respostas à perguntas que culminaram no desenvolvimento de tecnologias que solucionaram problemas seculares possibilitando muitas vezes uma reflexão sobre quem somos, qual o nosso lugar no Cosmos e quais as nossas responsabilidades como Civilização.

Como diria Neil: venha comigo! e sigamos nessa segunda jornada que se estende além do pessoal, mergulhando em nós, explorando a nossa história evolutiva e alçando-nos às estrelas para nos percebemos como parte de uma coletividade cósmica oriunda de uma gênese comum num Universo que não foi feito para nós. Entenderemos que somos todos passageiros temporários e efêmeros de uma mesma espaçonave, a Terra, um ínfimo grão de poeira de cor azul-pálido suspenso num raio de Sol. Compreenderemos que a fé cega apenas conduz a grandes humilhações, que o Cosmos nos convida à humildade e que a Ciência quando apreciada através da janela da Filosofia não é só compatível com a espiritualidade é também uma profunda fonte da mesma. Sendo assim terá valido e muito cada nanômetro, passo ou anos-luz que tenhamos palmilhado ao lado de Carl ou Neil. Boa viagem.

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+ COSMOS: UMA ODISSEIA DO ESPAÇO-TEMPO \\ Cosmos: A Spacetime Odyssey \\ EUA \\ 2014 \\ Gênero: Documentário \\ Duração: 13 Episódios - 40 minutos \\ Visto: em BLURAY \\ Classificação Indicativa: SEM Classificação.


Allan Aminadab

Um apreciador contumaz de tudo aquilo que permita ao indivíduo sair do lugar-comum propiciando-o reflexões, lágrimas, risos, inquietação, novas perspectivas, aprendizado ou qualquer outra reação realmente sincera. Amante de um bom livro ou HQ e de um ótimo filme, série ou minissérie com destaque especial para os documentários sobre Filosofia, História e Ciências em geral.
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