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Vida inteligente e culturalmente relevante no universo televisivo

Allan Aminadab

Um apreciador contumaz de tudo aquilo que permita ao indivíduo sair do lugar-comum propiciando-o reflexões, lágrimas, risos, inquietação, novas perspectivas, aprendizado ou qualquer outra reação realmente sincera. Amante de um bom livro ou HQ e de um ótimo filme, série ou minissérie com destaque especial para os documentários sobre Filosofia, História e Ciências em geral

Estradas Cruzadas

Nebraska é uma pequena obra-prima. Uma melancólica história de sonhos desfeitos e de perseverança. Viajamos em preto e branco por uma América abandonada, desencantada e sem esperança acompanhando pai e filho numa relação de altos e baixos que nos apaixona de forma indescritível.


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Partindo de um gênero bastante explorado o diretor Alexander Payne retorna ao seu estado natal, Nebraska, para extrapolar as possíveis limitações dramáticas de um "filme de estrada" [roadmovie] lançando um olhar amargo sobre uma terra tão devastada pelo esquecimento quanto a alma do idoso Woody Grant (Bruce Dern) que recebeu pelos correios uma revista contendo um bilhete que o conduz a um prêmio de um milhão de dólares. Prêmio que ele pensa ser imediato detentor apesar de toda sua família em Billings (Montana) afirmar que não. Sobre esse velho homem paira a esperança de receber a vultuosa quantia pela qual ele inicia uma viagem de 1.366 quilômetros até Lincoln, Nebraska, para resgatar.

Não é difícil compreender a situação do debilitado e demente Woody. O medo de perder a dinheirama eclode rapidamente na sua mente fragilizada fazendo-o persistir na caminhada em direção a Lincoln até ser alcançado pelo seu filho mais novo David (o comediante Will Forte num encaixe perfeito para o papel) que também percorre uma estrada, de cunho pessoal, uma trilha particular também guiada pela esperança. Abandonado pela namorada e preso numa crise existencial de meia-idade ele parte em auxílio ao seu pai sempre oferecendo ao velho homem um olhar de tristeza e raiva por constatar ali um relacionamento arruinado pelo álcool e o mau humor.

nebraska_0.jpg Dern na interpretação que o confirmou como melhor ator em Cannes 2013

O que move David? O fato de não ser capaz de entender seu pai e de vislumbrar naquela companhia uma chance derradeira de compreendê-lo para então compreender-se. Sua ida a Lincoln ao lado da figura paterna é uma última oportunidade de superar esse desafio antes que seja tarde demais não havendo outra oportunidade como aquela. Tal como sua Nebraska berço, Alexander Payne conhece muito bem como penetrar no coração das relações familiares apresentando-as segundo a perspectiva singular de cada individuo que a compõem.

É a partir desse ponto que Nebraska mostra-se uma história de traços quixotescos: um homem idoso, Woody, nosso Dom Quixote (que no clássico original também perdeu a razão) "recebe" um prêmio e sai à buscá-lo a qualquer custo mesmo que todos os desafios da viagem tentem persuadi-lo a desistir. Não há ganância em Woody, não há um desejo explícito de se tornar um milionário como fica explicitado por sua esposa [June Squibb, numa atuação esplendorosa] ao saber do bilhete: - "Aquele filho da ... nunca me disse que queria ser milionário!". Seu único objetivo é ao receber o prêmio comprar uma camionete. Já David encarna Sancho Pança, o escudeiro responsável por trazer o velho Quixote à realidade dos fatos subtraída pela demência, numa busca heróica de proteger um homem que nunca soube ser pai.

nebraskaa.jpg June Squibb em interpretação indicada ao OSCAR

Payne é talvez o último grande humanista do cinema norte-americano. Suas histórias são cheias de personagens comuns, totalmente humanos, não são seres especiais. São personalidades portadoras de algumas virtudes e de múltiplos defeitos, todas submersas em histórias de grande simplicidade. Seus personagens são como boa parte das pessoas que conhecemos, desiludidas, com limitações as mais diversas e que sucumbem diante de problemas triviais por não saber como superá-los. Woody Grant e David são dois desses desiludidos com o cotidiano capazes de deixar tudo em nome de um sonho. Estão fugindo de uma existência plena de lugares-comum onde até mesmo as pequenas vitórias, como a do personagem Ross, primogênito do Woody que torna-se âncora de um telejornal local, consiste numa fachada para esconder o medo de fracassar.

Dern interpreta um Woody desgrenhado, de olhar melancólico, que nos transmite a partir de sua aparente passividade a dor de uma vida que não mudou sob muitos aspectos nos últimos anos. Seu objetivo é usar seus raros lapsos de razão para se convencer de que algo valeu a pena nessa existência. A viagem leva-o de volta às suas raízes familiares onde as dispustas são constantes e ao egoísmo dos amigos ainda presente como antigamente. Sua odisséia é indiscutivelmente uma jornada de redenção, um caminho final de penitência, uma razão para continuar vivendo, uma réstia de esperança de encontrar algo para se preocupar.

movies3-1.jpg Pai e filho numa relação inspirada em Cervantes

Enquanto Woody tentar entender sua vida e o que significa a esta altura olhar para trás, David aprende a compreender as ações de seu pai elaborando uma visão mais completa dele indo além do bêbado que se cristalizou em sua mente desde a infância. É nesse ato de busca de uma percepção plena do outro que nasce um perdão implícito a um pai presente na estrutura familiar mas ausente na dinâmica desse mesmo grupo.

A fotografia de Nebraska é toda em preto e branco. De acordo com Payne esse era o tom certo para a história. Um ocaso da vida, um melancólico inverno da existência construído a partir das memórias do cineasta e embalado por uma encantadora trilha sonora. A película é um trabalho sincero e triste, um olhar para trás com a intenção de compreender hoje aqueles que nos rodeiam, um grito de socorro perante as dificuldades impostas pelas relações familiares e um reconhecimento do quão é difícil para qualquer um de nós refletir sobre essa realidade que nos detêm estáticos, sem reação, impossibilitando que esse quadro mude para melhor.

Nebraska é um filme de estrada terno e engraçado que nos relembra a todo instante que para entendermos um pouco o nosso momento existencial de agora temos que irremediavelmente nos voltarmos para trás durante alguns instantes observando o caminho percorrido através das lentes da existência daqueles que nos são mais próximos e que se encontram na estrada há mais tempo que nós. Ouvindo-os, percebendo-os, ensinado-os e auxiliando-os hoje, compreenderemos como e porque chegamos até aqui, além de nos tornar capazes perdoar. E para que isso ocorra requer-se viver-se e permitir viver muitas vezes certas ilusões. O que de acordo com Payne é ser tipicamente Nebraska.

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+ NEBRASKA \\ Nebraska \\ EUA \\ 2013 \\ Gênero: Comédia - Drama \\ Duração: 115 minutos \\ Direção: Alexander Payne \\ Canal: HBO \\ Classificação Indicativa: NÃO Recomendado para Menores de 12 Anos.


Allan Aminadab

Um apreciador contumaz de tudo aquilo que permita ao indivíduo sair do lugar-comum propiciando-o reflexões, lágrimas, risos, inquietação, novas perspectivas, aprendizado ou qualquer outra reação realmente sincera. Amante de um bom livro ou HQ e de um ótimo filme, série ou minissérie com destaque especial para os documentários sobre Filosofia, História e Ciências em geral.
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