tela inteligente

Vida inteligente e culturalmente relevante no universo televisivo

Allan Aminadab

Um apreciador contumaz de tudo aquilo que permita ao indivíduo sair do lugar-comum propiciando-o reflexões, lágrimas, risos, inquietação, novas perspectivas, aprendizado ou qualquer outra reação realmente sincera. Amante de um bom livro ou HQ e de um ótimo filme, série ou minissérie com destaque especial para os documentários sobre Filosofia, História e Ciências em geral

Que Comecem os Jogos

Turing: a chave para solucionar conflitos e a nossa pequena cultura científica.


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O Jogo da Imitação não é um filmaço. Daqueles que te fazem saltar da poltrona do cinema ou em casa. Absolutamente não. O que não significa que a produção anglo-americana não tenha algo de relevante a ofertar. Tem sim: um caminho para solucionarmos o problema referente a nossa restrita cultura científica e uma indicação de como nos defrontarmos com os desafios cotidianos.

O gênio matemático Alan Madison Turing nascido em 1912 e personificado por Benedict Cumberbatch é o protagonista deste drama biográfico. Fazia tempo que não víamos na tela grande - e agora na TV - o retrato de um mente tão genial no campo da Matemática quanto a de Alan Turing. Talvez a última experiência similar tenha sido com a personificação do matemático norte-americano Jonh Nash interpretado por Russel Crowe - numa atuação que lhe rendeu o segundo Academy Awards de Melhor Ator Principal - na película Uma Mente Brilhante de 2001.

A cuidadosa produção de época nos transporta a um momento fundamental e pouco conhecido da História da Humanidade: a batalha travada fora do front, aquém das trincheiras da Segunda Grande Guerra, por cérebros brilhantes tão decisivos quanto os músculos e as estragégias do campo de batalha. No quartel-geral de Bentchley Park, sede da inteligência britânica, os fuzis, granadas, morteiros e canhões eram substituídos por fios, engrenagens, conexões e eletricidade.

the_imitation_game_photo_wallpaper.jpg Mentes Brilhantes: a Matemática como uma das soluções para o conflito

Liderando um grupo de acadêmicos, Turing trabalha incansavelmente para decifrar o até então indecifrável código da máquina criptográfica alemã "Enigma", equipamento usado pelos inimigos para proteger suas informações de guerra. E é aí que O Jogo da Imitação começa acertar ao retratar essa mente singular que agindo sob forte pressão ajudou a encurtar o tempo da guerra salvando milhares de vidas, além de haver lançado os pródromos da Computação moderna.

O diretor Morten Tyldum não faz um trabalho que mereça uma distinção especial dentre seus pares. Não há nada de novo nem de muito cativante na realização, que chega a ser monótona em algumas passagens. O Jogo da Imitação prima, contudo, pelo interesse histórico que desperta e pela história que narra, mesmo não fazendo da forma mais eficaz.

the-imitation-game-benedict-cumberbatch-2.jpg Tons de cinza e a psicosfera da guerra

O roteiro vencedor do Academy Awards 2015 na categoria adaptado nos presenteia com bons diálogos e a fotografia utiliza uma paleta de cores onde predominam sombras e tons de cinza muito representativos daquela psicosfera de beligerância. O destaque maior fica para a trilha sonora muito bem elaborada, dramática e que torna especial cada uma das sequências chaves da trama.

Na tela conhecemos um Turing ao mesmo tempo frágil e pouco acessível, mas extremamente inteligente, em três fases da sua vida: na adolescência, durante a Segunda Guerra e nos anos seguintes ao término do confronto. Apesar do ator inglês poder ir mais profundo, Cumberbatch incorpora de forma competente a fragilidade emocional e o medo de um homem detentor de um segredo delicado revelado durante o desenrolar da história.

Já a inglesa Keira Knightley é Joan Clarke, a mais interessante personagem da produção. A única mulher dentre os homens, tão inteligente ou mais que eles, independente e decidida. Será à trajetória de Joan no filme que daremos maior atenção. Por um motivo muito simples, a atuação de Knightley é cativante desde sua primeira aparição até a última cena funcionando dentro do arco narrativo como o elemento de ponderação no uso da inteligência escasso na personalidade de Turing.

A História da divulgação científica está repleta de situações que se assentam entre a realidade e a ficção. O Jogo da Imitação é mais um desses exemplos. Apesar de não ser estritamente fidedigno aos relatos originais e deixar faltar componentes importantes da vida de Turing como sua passagem pelos EUA para a realização de uma pós-graduação com outro gênio da nascente Computação, o norte-americano John Von Neumann, o filme não deixa de nos cativar.

A obra de Tyldum é um panfleto sofisticado de 114 minutos sobre a vida de Alan Turing. Um resumo refinado dessa personalidade ímpar que nos envolve com sua maneira peculiar de interação social e nos assombra com sua inteligência. Além disso, a obra também nos depara com a mentalidade extremamente conservadora da época, refletida em leis vitorianas moldadoras de comportamentos.

the-imitation-game-4.jpg Produção cuidadosa garante imersibilidade ao momento histórico

A importância de O Jogo da Imitação fica bem delineada na frase do pensador grego Plutarco: "A mente é um fogo a ser aceso, não um vaso a preencher", pois aqui a ampla divulgação científica cumpre à risca seu papel fundamental de nos acender o interesse por uma Ciência pouco conhecida e valorizada [a Matemática], sem deixar de nos emocionar e instigar por mais conhecimentos sobre uma época e um personagem real. Nesse sentido O Jogo da Imitação opera como um grande estímulo à pesquisa por mais informações sobre Turing, seus trabalhos e os esforços científicos desenvolvidos em Bletchley Park em desvendar a Enigma.

Precisamos de mais filmes assim. Que estimulem a curiosidade pela Matemática, tão presente em nossas vidas, mas tão pouco percebida e consequentemente vivenciada de forma inaproveitada. Compreender a essência do pensamento matématico capaz de produzir máquinas decifradoras como a do filme e aplicá-lo ao nosso cotidiano revelaria o quão linear é a nossa forma de interpretarmos os desafios da vida em tempos de modernidade líquida.

Nos dizeres do Professor Jordan Ellenberg, autor de O Pensamento Matemático, a Matemática devidamente apreciada é a Ciência de como não estar errado, nos ajudando pensar melhor ao aguçar a intuição, afinar a capacidade de julgamento, domar as incertezas possibilitando uma compreensão do mundo de modo mais profundo e consistente. Capaz de minimizar conflitos e dar-lhes soluções, desde aqueles que nascem na esfera do indivíduo até aqueles que envolvem as relações entre nações passando pelos desafios próprios de cada país.

ellenberg-hzx-web.jpg Ellenberg: o pensamento matemático aplicado ao bem da coletividade.

O ano de 2015 começou muito favorável se levarmos em consideração o acréscimo doutra produção de relevo: "A Teoria de Tudo", que versa sobre a vida do renomado astrofísico inglês Stephen Hawking e que deu ao seu interprete - Eddie Redmayne - o Academy Awards de Melhor Ator Principal na última edição da premiação. Num mundo em que a divulgação científica ainda é muito pobre, filmes que permitem discutir sobre Turing ou Hawking e fomentam o pensar fora do lugar-comum são obviamente muito bem-vindos.

Em levantamento recente produzido na Europa, 46% dos espanhóis não souberam mencionar um único nome quando requisitado pelo menos três personalidades importantes da História da Ciência. Na Itália e no Reino Unido esse quantitativo foi de 31% e 27%, respectivamente. Por melhores porcentuais de citação temos: Albert Einstein [43%], Isaac Newton [24%], Hawking [10%], Marie Curie [9%], Charles Darwin [8%] e Louis Pasteur [8%]. Dentre os dez investigadores científicos mais citados pelos europeus não aparece o nome de Turing.

_63304560_turing.jpg O verdadeiro Alan Madison Turing

Pelo visto padecemos de uma considerável ignorância científica em escala planetária. Na maioria dos países analisados, os nomes mais lembrados foram Newton e Einstein. O primeiro certamente por força dos bancos escolares, o segundo devido sua exposição midiática como a cara da Ciência contemporânea [com direito a lingua para fora]. É lastimável que cérebros de destaques como o de Alan mal sejam lembrados em sua terra natal no velho mundo como um dos nomes mais importantes na evolução científico-tecnológica que culminou nesse mundo globalmente interconectado.

Sob a perspectiva de cinebiografar "novas" e importantes personalidades da Ciência, O Jogo da Imitação consiste numa produção que merece aplausos, muitos aplausos. Uma iniciativa que vem acender outras chamas no uso do Cinema como vetor de propagação de uma cultura científica assentada em personagens reais que dedicaram de modo apaixonante suas vidas à construção, desenvolvimento e aplicação do Conhecimento.

Que apareçam novas cinebiografias sobre grandes nomes das Ciências e do universo da Tecnologia.

Que imitem O Jogo da Imitação e a A Teoria de Tudo.

Que comecem os jogos! . . . pelo menos os bons jogos da imitação em nome da divulgação científica.

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+ O JOGO DA IMITAÇÃO \\ The Imitation Game \\ Reino Unido - EUA \\ 2014 \\ Gênero: Biografia - Drama - Suspense \\ Duração: 114 minutos \\ Direção: Morten Tyldum \\ Canal: NETFLIX \\ Classificação Indicativa: NÃO Recomendado para Menores de 12 Anos.


Allan Aminadab

Um apreciador contumaz de tudo aquilo que permita ao indivíduo sair do lugar-comum propiciando-o reflexões, lágrimas, risos, inquietação, novas perspectivas, aprendizado ou qualquer outra reação realmente sincera. Amante de um bom livro ou HQ e de um ótimo filme, série ou minissérie com destaque especial para os documentários sobre Filosofia, História e Ciências em geral.
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