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Ricardo Scarelli

Um amante do ócio - e do churrasquinho - grego.

O Vietnã e a Ironia da História

É motivo de reflexão o quanto somos vulneráveis frente às circunstâncias em dado espaço-tempo histórico. A Guerra do Vietnã, já absurda em si pela sua crueldade, também pode ser considerada uma das mais estúpidas e inúteis alterações do destino de milhões de vidas humanas.


foto 1.jpg Grafite de Banksy sobre a icônica imagem de Kim Phuc em foto de Nick Ut.

Há entre as duas fotografias abaixo quase cinquenta anos de História, uma guerra com oito milhões de toneladas de bombas despejadas, 72 milhões de litros de desfolhantes químicos, além de quase quatro milhões de vítimas, entre mortos, feridos e mutilados.

Na primeira fotografia, vemos a mega empresária vietnamita Thien Thuy Le Hong, atualmente um dos símbolos de um Vietnã que outrora fora massacrado pelo temor de que ele não pudesse mais exibir imagens como Thien Thuy Le Hong. Esse mesmo temor seria o responsável por empurrar as anônimas camponesas da segunda foto, muito antes de Thien existir, involuntariamente no olho do furacão da guerra do Vietnã, nos anos 60.

foto 2.jpgA empresária vietnamita Thien Thuy Le Hong em frente a sua casa em 2012

foto 3.jpgMulheres vietnamitas nas proximidades de Saigon, em meados dos anos 60

Evidentemente, a Guerra Fria nos explica, para além de concepções como karma ou determinismo, o porquê do destino de milhões de vidas foi drasticamente alterado pelas decisões de outras poucas vidas, algumas destas a quase 14 mil quilômetros de distância (em Washington, D.C.) e completamente alheias à existência daquelas.

Após a Segunda Guerra Mundial, tão logo os japoneses foram expulsos do Vietnã (que junto ao Camboja e Laos formavam a então Indochina, região dominada pela França) iniciou-se um período de lutas pela Independência que seria conquistada em 1954.

Todavia, a parte sul do Vietnã permaneceria fiel aos franceses enquanto o norte, liderado por Ho Chi Minh, se alinharia à Moscou.

Entretanto, ficara decidido na Conferência de Genebra que os dois governos coexistiriam até as eleições livres em 1956 quando seria votada a reunificação ou não do país.

Mas, temendo a reunificação, o Vietnã do Sul rompeu esse tratado iniciando-se assim o conflito entre as duas partes.

Os EUA entrariam diretamente na guerra em 1964, apoiando o Vietnã do Sul que por sua vez possuía em seu território nacionalistas contrários aos EUA e pró-Vietnã do Norte, os chamados vietcongs. A partir daí há uma vasta e crítica cinegrafia a respeito do conflito que terminaria oficialmente em 1975 com a derrota americana e a reunificação do país no ano seguinte, sob a égide comunista.

Ou seja, com vinte anos de atraso em relação às eleições previstas para 1956, que poderiam ou não decidir pelo mesmo caminho e sem a estatística macabra do primeiro parágrafo.

Mas o curso da História traria ainda mais surpresas já que em meados dos anos 90 o antes temido Vietnã reunificado adotaria o socialismo de mercado, inspirado no modelo chinês.

E ainda no governo Clinton o embargo econômico americano ao país, que persistia desde a década de setenta, seria suspenso.

Mas quem saberia o futuro? E ainda que soubessem os senhores da guerra se importariam quando o presente indicava que o “Mundo Livre” corria perigo ou o “Novo Mundo” era impedido de vingar?

foto 4.jpegCrianças vítimas do agente laranja no Vietnã, nascidas após a guerra.

Desde o governo Reagan iniciou-se um processo para se enterrar o que o republicano chamava de Síndrome de Vietnã. Bush Pai contribuiu na tentativa de exorcizar esse fantasma do passado quando, ao invadir o Kuwait em 1991, anunciou: “o espectro do Vietnã foi enterrado para sempre sob as areias do deserto da Península Arábica”. Enfim,um homem presumivelmente tosco também em suas aflições.

Enquanto isso, no Vietnã as sucatas da Guerra foram incorporadas à paisagem como monumentos e um detalhista Museu de Memórias da Guerra não deixa o passado ser esquecido. Todavia não é captado pelo olhar ocidental um clima beligerante e sim orgulho e uma quase resignação. Há ainda um roteiro turístico que explora os caminhos antes percorridos pelo terror e pela estupidez humana.

É claro que seria muita ingenuidade esperar do establishment algo mais do que uma referência ao patriotismo raso de um lado ou um pragmático culto à memória histórica de outro.

Portanto, voltemos ás fotos e o que elas de fato representam e têm em comum: a frivolidade humana.

Se na jovem magnata ela é explícita e até ingenuamente tola é se abatendo sobre as camponesas em desespero, na forma do desprezo pela vida, que ela surge em sua forma mais cruel.

Resta-me apenas encerrar confirmando que sim, tudo poderia ter sido diferente.

A empresária Thien Thuy Le Hong, nascida em 1970, tem apenas uma vaga lembrança da guerra da qual prefere não tecer maiores comentários e mantém uma postura discreta sobre o envolvimento de sua família em relação ao conflito.

A garota Kim Phuc, atingida por napalm em 1972 e que ilustra o grafite de BanKsy, realiza trabalhos como embaixadora da Boa Vontade junto a UNESCO e reside no Canadá.

Não há registros sobre o destino das camponesas da segunda fotografia.

Atualmente a cidade de Ho Chi Minh (ex Saigon, então capital do Vietnã do Sul) é coberta pelas grifes ocidentais de alto luxo enquanto a atual capital Hanói (a antiga capital do Vietnã do Norte) não é mais coberta pelos bombardeiros B-52’s de outros tempos.


Ricardo Scarelli

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