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orações ao Tempo... por seres tão inventivo(s).

Ricardo Scarelli

Um amante do ócio - e do churrasquinho - grego.

O Viralatismo de Laboratório

Há exatamente um ano o Brasil sediava o seu segundo Mundial de Futebol e meses antes já convivia com o tragicômico bordão “Imagina na Copa”, em referência ao iminente fiasco que, enfim, não se confirmaria. Ao menos fora dos gramados.


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Na esteira do pertinente debate sobre o custo/benefício da Copa, e logo se sobrepondo a este, o que vivenciamos no primeiro semestre de 2014 foi um festival das mais levianas previsões disseminando um virtual caos (com e sem trocadilho) pautado pela grande mídia e reverberado nas redes sociais.

A depreciação do país foi tamanha que até nosso supostamente atávico Complexo de Vira Latas – que descansava no berço esplêndido das antologias literárias – foi resgatado na tentativa de explicar o movimento direcionado a minar a autoestima do brasileiro.

Nelson Rodrigues criou em 1958 a expressão originalmente nesta crônica de modo a sintetizar – e combater – nosso sentimento de inferioridade em relação ao estrangeiro, segundo ele, agravada após a derrota para o Uruguai em 1950:

“Por complexo de vira-latas entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol.”

Todavia, o dramaturgo era um entusiasta do escrete que estava prestes a embarcar para a Suécia com Didi, Garrincha e o menino Pelé e não via sentido na falta de confiança – ou no receio de externá-la – por parte dos torcedores. E ao longo de semanas, nas páginas da revista Manchete Esportiva, ele reafirmaria seu otimismo enquanto nos gramados nossa seleção empolgava o mundo até que Bellini, enfim, erguesse a Taça e o orgulho nacional. Na crônica seguinte ao título ele exaltaria:

“E vou mais além: — diziam, de nós, que éramos a flor de três raças tristes. A partir do título mundial, começamos a achar que a nossa tristeza é uma piada fracassada. Afirmava-se também que éramos feios. Mentira! Ou, pelo menos, o triunfo embelezou-nos. Na pior das hipóteses, somos uns ex-buchos.”

É provável que a hipérbole contida nas crônicas de Nelson, ao traçar um paralelo entre o futebol e a essência do brasileiro - e suas tragédias e suas glórias - fosse mais uma consciente busca da genialidade literária como forma de expressão. Pois ficara implícito ao próprio escritor, já na sua crônica original, que o pessimismo incorporado pela torcida brasileira "nas esquinas, nos botecos, por toda parte" era apenas uma consequência do traumático Maracanaço de 1950 e a breve citação ao nosso Complexo de Vira Latas apenas ratificaria essa sua percepção.

A visão de Nelson, portanto, em muito se diferenciava do negativismo e da depreciação à brasilidade difundida, para muito além dos gramados, por um restrito circulo intelectual da primeira metade do século XX.

Ainda sob a influência do racialismo do século anterior, esse tipo de visão, segundo a qual a miscigenação era a raiz de todo mal do Brasil, encontraria respaldo nos pensamentos do médico e antropólogo Nina Rodrigues e do historiador e sociólogo Oliveira Viana. Monteiro Lobato também fazia parte deste time e chegou a afirmar:

“O Brasil, filho de pais inferiores – destituídos desses caracteres fortíssimos que imprimem um cunho inconfundível em certos indivíduos, como acontece com o alemão, com o inglês – cresceu tristemente, dando como resultado um tipo imprestável, incapaz de continuar a se desenvolver sem o concurso vivificador do sangue de alguma raça original.”

Eis a origem de nosso Complexo de Vira Latas: uma sarna elitista que sempre permaneceu restrita a um pensamento intelectual e sem de fato se propagar pela sociedade brasileira nos termos em que foi concebida.

Entretanto, na versão inflada artificialmente em 2014 pelos meios de comunicação este tipo de discurso, que hibernava, encontrou eco nas classes medianas, ainda que sem a pretensão antropológica dos racistas ou a genialidade literária de Nelson Rodrigues. Era só política. E da rasa. Em dado momento a coisa toda enveredou mesmo para uma modinha insana, sem nenhuma alusão à desprezível imagem abaixo.

foto 02.JPG A estupidez fashion da Ellus e as avançadas relações trabalhistas da grife.

Hoje, com um pouco de serenidade, talvez alguns dos que compartilharam desta má fé enxerguem que involuntariamente foram tragados por uma onda e que nada ali foi por acaso, ao menos em sua origem. A simplista percepção de que o sucesso ou o fracasso da Copa, dentro e fora de campo, teria relação direta nas eleições daquele ano logo criou um tsunami de insanidades travestidas de um senso crítico apurado.

Mas independente desta versão de 2014, que certamente deixou sequelas em alguns, sempre me surpreendi com a capacidade de alguns indivíduos em atacar genericamente o todo, do qual fazem parte, excluindo-se do mesmo. No caso específico retratado aqui, talvez porque para eles o Brasil são os outros. Ou porque sofram, sem se darem conta, da “Síndrome do Pedigree Colonizado.” E aí, provavelmente, sofram muito mesmo.


Ricardo Scarelli

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