tempo rei

orações ao Tempo... por seres tão inventivo(s).

Ricardo Scarelli

Um amante do ócio - e do churrasquinho - grego.

Belchior: aqui, ali e em todo lugar

Uma breve percepção sobre como o passado e o presente por vezes dialogaram na obra do compositor cearense.*


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Nosso requintado Belchior, tal como uma versão MPB dos punks (naturalmente sem a agressividade e o niilismo destes) por diversas vezes expressou em suas canções uma visão crítica sobre a juventude da segunda metade dos anos setenta, já devidamente incorporada, como se dizia à época, ao “Sistema”.

Igualmente ácida era sua visão sobre a utopia sessentista, ainda que sua mensagem não fosse de uma simples ruptura com os valores da geração Flower Power, sendo que em alguns momentos as recorrentes citações aos símbolos e elementos desse período eram até nostálgicas.

Em “Comentários a Respeito de John”, por exemplo, ele faz uma referência a Lennon e à canção “Happiness Is A Warm Gun”, dos Beatles, e com certa melancolia nos lembra o quão efêmera foi aquela lisérgica e coletiva quimera, já há tempos devorada pela realidade:

Saia do meu caminho/ Eu prefiro andar sozinho/ Deixe que eu decida a minha vida/ João!O tempo andou mexendo com a gente sim! /John! Eu não esqueço (Oh No! Oh No!) / A felicidade / É uma arma quente / Quente, quente...

Se há uma subjetividade evidente no entendimento dos versos acima (e na própria canção dos Beatles cujo título, segundo Lennon, fazia referência ao insano slogan de uma propaganda de armas) em outros momentos ela passa bem longe: é certo que o lado fugidio da Contracultura, com o seu misticismo e psicodelia, não era algo que fazia a cabeça de Belchior, como fica evidente nos versos de “Alucinação”:

Eu não estou interessado em nenhuma teoria / nem nessas coisas do oriente / romances astrais / a minha alucinação é suportar o dia a dia / e meu delírio é a experiência / com coisas reais

Também é explícita a leitura da passagem do tempo nos versos de “Apenas um Rapaz Latino Americano” quando da sua negação a um mundo antes cantado como “divino e maravilhoso”, numa referencia à canção de mesmo nome de Caetano Veloso, de 1968:

Tenho ouvido muitos discos/Conversado com pessoas/Caminhado meu caminho/ Papo, som, dentro da noite/E não tenho um amigo sequer/Que ainda acredite nisso não/Tudo muda!

Mas a expressão mais contundente deste sentimento de mudança nas perspectivas surge em “Velha Roupa Colorida”:

E o que há algum tempo era novo, jovem/ Hoje é antigo/ E precisamos todos rejuvenescer/ Nunca mais você saiu à rua em grupo reunido/ O dedo em V,cabelo ao vento/ Amor e flor que é do cartaz/ No presente, a mente,o corpo é diferente/ E o passado é uma roupa que não nos serve mais

E se repete, por sua vez, em “A Palo Seco” agora bem menos complacente com o idealismo e, de quebra, contextualizando as realidades distintas das Américas por meio de uma sutil citação de dois gêneros musicais:

Se você vier me perguntar por onde andei/ No tempo em que você sonhava/ De olhos abertos, lhe direi:/ Amigo, eu me desesperava(...)

Tenho vinte e cinco anos/ De sonho e de sangue/ E de América do Sul/ Por força deste destino/ Um tango argentino/ Me vai bem melhor que um blues/ Sei que assim falando pensas/ Que esse desespero é moda em 76/ E eu quero é que esse canto torto/ Feito faca, corte a carne de vocês

Em outras ocasiões Belchior brinca com elementos (não tão) distintos como o Corvo, de Edgar Allan Poe e o Assum Preto de Luiz Gonzaga, talvez ainda passando pelo Pássaro Negro dos Beatles, param enfim desaguar na inexorabilidade do tempo:

Como Poe, poeta louco americano/ Eu pergunto ao passarinho: "Blackbird, o que se faz?"/ "Raven never raven never raven"/ Blackbird me responde/ Tudo já ficou pra trás/ Assum preto me responde/ O passado nunca mais

Se em “Velha Roupa Colorida” as referências são especificamente aos sonhos perdidos dos anos sessenta é em “Como Nossos Pais” – quando a temática se repete - que a passagem do tempo é exposta de forma ainda mais abrangente e a percepção de que a antiga rebeldia de nossa juventude agora se encontrava hibernada:

Já faz tempo/ E eu vi você na rua/ Cabelo ao vento/ Gente jovem reunida/ Na parede da memória/ Esta lembrança/ É o quadro que dói mais.../ Minha dor é perceber/ Que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo/ Tudo o que fizemos/ Ainda somos os mesmos/ E vivemos/ Como Os Nossos Pais...

Havia de certo uma resignação sobre como o presente se direcionava (incluindo o contexto de nosso regime ditatorial vivido à época) e uma busca incessante por uma nova forma alternativa de vivê-lo e, enfim, rejuvenescer-se.

Cerca de uma década depois, já nos anos oitenta dos Yuppies, há muito mais sarcasmo no canto do poeta, quiçá jogando a toalha, como nos versos de “Os Profissionais”: Flower Power!Que conquista!/ Mas eis que chegou o florista/ Cobrou a conta e sumiu/ Amor,coisa de amadores/ Vou seguir-te aonde f(l)ores!/ Vamos lá,ex-sonhadores/ À mamãe que nos pariu!

FOTO 02.jpg Em 2013, com o cartunista Carlos Latuff.

Dentro do grupo de músicos que nos anos 70 ficou conhecido como Pessoal do Ceará, Belchior certamente foi o que mais expandiu seu universo para além da temática nordestina, expressando também as paixões e alucinações das vidas urbanas nas grandes cidades, com canções de amor repletas de figuras de linguagem e referências à cultura pop, o que formam um capítulo à parte em sua obra.

Infelizmente, não temos sua visão em forma de canções sobre nossos agitados últimos anos e nem sequer sabemos se há o seu interesse em externa-las.

Há mais de cinco anos Belchior, junto a sua companheira Edna, optou por uma vida reclusa e, segundo noticiado pela imprensa, deixou pendências de ordem financeira e familiar.

A notícia não demorou a gerar sensacionalismo e piadas na internet.

Quando encontrado por uma equipe da TV brasileira no Uruguai ele afirmou que estava bem, que não abandonara a carreira e trabalhava em projetos de língua espanhola, sem dar satisfações sobre sua vida particular.

Enfim, esta vivendo o seu momento e até poderia ter cantarolado os três primeiros versos de “Arte Final” pra essa turma toda (Desculpe qualquer coisa, passe outro dia,/ Agora eu estou por fora, volto logo,/ Não perturbe, pra vocês eu não estou.) mas educadamente não o fez.

Suas palavras me bastaram mas é claro que entre nós, fãs do artista, restou a quase ironia de viajarmos ao passado na trilha de suas canções ainda que isso certamente ocorreria, independente do presente.

E o desejo que a pessoa Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes esteja sempre bem. Onde quer que esteja.

* artigo publicado em 2015 e revisado em janeiro de 2017 com a inclusão da canção "Apenas um Rapaz Latino Americano".


Ricardo Scarelli

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