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Ricardo Scarelli

Um amante do ócio - e do churrasquinho - grego.

A Guerra Fria Carregando nas Tintas

O inusitado episódio em que a arte moderna foi desprezada por duas ideologias ao mesmo tempo em que era adotada, à surdina, por uma delas.


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Durante a Guerra Fria a cultura foi um campo fértil para o uso de mensagens subliminares como armas de propaganda ideológica. A real eficácia deste expediente muitas vezes pode ser questionada mas a sua criatividade,jamais.

No caso específico das artes plásticas tão logo a sutileza avançou algumas casinhas e retirou de cena o maniqueísmo mais primário ocorreu algo curioso com a vertente denominada arte moderna: preterida pelos comunistas russos, que a viram como a síntese da expressão elitista e burguesa, ela seria combatida poucas décadas depois no Congresso americano por quem a via como uma ameaça ao establishment da América.

Na Rússia do início do século XX a arte moderna se expandiu, assim como em toda a Europa, culminando com a exposição, em 1915, da obra “Quadrado Negro Sobre Fundo Branco”, de Kazimir Malevich, marco do chamado suprematismo, uma variável da arte abstrata centrada nas formas geométricas. Sem dúvida, uma expressão artística por demais complexa naqueles tempos e confesso que a mim ainda o seja, mesmo com o providencial apoio do oráculo dos leigos.

FOTO 02.jpg Kazimir Malevich: “Quadrado Negro Sobre Fundo Branco”

E por falar em nós leigos: "Toda arte moderna é de cunho comunista" afirmou, nos anos cinquenta, o deputado republicano George Dondero. Ele referia-se especificamente ao Expressionismo Abstrato, um movimento artístico da vanguarda de Nova York. O fato de muitos nomes desta corrente – incluindo seu maior expoente, Jackson Pollock - terem tido um passado simpático aos ideais da esquerda, provavelmente influenciou em sua tosca análise artística.

Mas há de se admitir que ele foi criativo em sua complementação: "O cubismo visa destruir pela desordem deliberada. O futurismo visa destruir pelo mito da máquina (...). O dadaísmo visa destruir pelo ridículo. O expressionismo visa destruir macaqueando o primitivo e o insano. O abstracionismo visa destruir pela criação de transtornos mentais (...). O surrealismo visa destruir pela negação da razão."

Hitler, amante da arte clássica, já havia dado chiliques em relação à arte moderna. E menos de três décadas antes de Dondero, Lênin afirmara, com um pouco mais de humildade: “Não posso elogiar as obras dos expressionistas, futuristas, cubistas e outros ‘istas’ como a máxima revelação do gênio artístico. Não os entendo. Não me agradam”. Para o líder russo era nítido que a arte deveria ser uma forma direta de comunicação com as massas e, nesse sentido, a subjetividade contida na arte moderna não cumpria tal papel.

Dondero, por sua vez, ignorou este passado recente desprezando ainda o fato que tão logo eclodiu a revolução bolchevique a arte abstrata passou a ser preterida na Grande Rússia em detrimento de uma orientação pela estética do realismo socialista com inspiração no folclore nacional. E que assim que Stalin chegou ao poder esta orientação passou a ser uma imposição do estado soviético pelo engajamento à triunfante representação do culto aos líderes, operários, soldados, agricultores...

FOTO 03.jpg Evdokiya Usikova: “Lenin with Villagers”

FOTO 04.jpg Boris Vladimirski: “Rosas para Stalin”

O mais plausível é que, como todo paranoico que se preze, Dondero tenha visto algo que ninguém foi capaz de enxergar e captado em um insight que aqueles “borrões incompreensíveis da arte moderna” possuíam, sim, algo de transgressor e representavam, de fato, um perigo à sua segurança.

Outros parlamentares foram além: "A arte moderna é, na realidade, um meio de espionagem", acusou um deles. "Se você souber lê-los, os quadros modernos revelarão os pontos fracos das fortificações dos Estados Unidos e de construções cruciais, como a represa de Boulder."

Aí, sem dúvida, os macarthistas perderam a credibilidade. Se no Brasil de 2015 talvez eles encontrassem eco nas redes sociais, na América dos anos cinquenta foram todos ignorados. Ninguém deu like.

O fato é que os adeptos das teorias conspiratórias não sabiam que a arte moderna era impulsionada pelo MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, dirigido por Nelson Rockfeller e que, em parceria com a CIA, propagava esta estética por todo circuito artístico americano a fim de ser alçado exatamente como um contraponto ao que era conhecida como “a arte comunista.”

FOTO 05.jpg Willem De Kooning: “Escavação”

FOTO 06.jpg Jackson Pollock: “Number 8”

Tratava-se, portanto, da improvável batalha entre o Expressionismo Abstrato Norte-Americano X Realismo Socialista Soviético.

O poder imagético dessa dualidade de estilos era algo muito claro ao sofisticado anticomunista Rockfeller, segundo o qual o traço abstrato do expressionismo americano “revelaria a ideologia da liberdade, da livre iniciativa. Sendo não figurativo e politicamente silencioso, ele era a própria antítese ao realismo socialista”.

É notório que Rockfeller não era um simples mecenas; desde sempre ele atuava em parceria com Allen Dulles, diretor da CIA e igualmente responsável pela promoção dos expressionistas abstratos, tanto nos EUA quanto na Europa, financiando secretamente congressos, vernissages e pomposas festas em Paris.

Deste modo a arte moderna norte-americana, antes desprezada pelo público, teve uma rápida adesão por parte dos críticos a serviço do establishment e passou a combater a formalidade da arte soviética, ainda que os artistas abstratos se propusessem apolíticos.

Entretanto, nos EUA também havia uma corrente artística realista com suas peculiaridades, entre as quais a recorrente temática da solidão ou alienação na América e certo senso crítico ao american way of life. O oposto, portanto, da fuga da realidade proposta pelo abstracionismo.

Naturalmente essa corrente foi pouco promovida e Edward Hopper, seu maior expoente, chegou a criar o chamado “Manifesto da Realidade” acusando o MoMA de estar boicotando deliberadamente o estilo e influenciando outros centros culturais.

A suspeita levantada por Hopper só seria confirmada pela imprensa americana nos anos sessenta, ainda de maneira nebulosa e deixando dúvidas quanto a sua veracidade, sendo por muitos anos tratada como uma lenda no meio artístico.

FOTO 07.jpg Edward Hopper: “Notívagos”

FOTO 08.jpg George Tooker: “Subway”

Em 2008 a jornalista britânica Frances Stonor Saunders lançou o livro “Quem Pagou a Conta?” confirmando o episódio e indo além dos EUA e das próprias artes plásticas: Saunders demostrou como a CIA financiou e estimulou intelectuais das mais diversas áreas culturais do Ocidente a atacar o stalinismo.

Eventualmente, artistas e críticos de arte teciam espontaneamente críticas contra a chamada sociedade de massa americana, o que lhes dava ainda mais credibilidade.

Um segmento igualmente importante era o de antigos esquerdistas que se tornavam ferozes críticos aos que permaneceram seguindo essa orientação ideológica.

Curiosamente, anos antes do livro de Saunders, um ex-oficial da Agência de Inteligência Americana, Donald Jameson, já havia declarado: “Quanto ao expressionismo abstrato eu adoraria dizer que a CIA o inventou só para ver o que aconteceria em Nova Iorque e no centro da SoHo. Porém, o que fizemos realmente foi impulsioná-lo para tornar o realismo socialista ainda mais estilizado, rígido e confinado do que era”.

Nada mais verdadeiro, sendo só possível ilações sobre como teria sido o seu desenvolvimento, bem como das demais correntes artísticas do período, caso não houvesse esta interferência externa no curso natural da história.

FOTO 09.png O grupo de Expressionistas em 1951 em foto da revista Time & Life: 1.Theodoros Stamos 2.Jimmy Ernst 3.Barnett Newman 4.James Brooks 5.Mark Rothko 6.Richard Pousette-Dart 7.William Baziotes 8.Jackson Pollock 9.Clyfford Still 10.Robert Motherwell 11.Bradley Walker Tomlin 12. Willem de Kooning 13.Adolph Gottlieb 14.Ad Reinhardt 15.Hedda Sterne

Mas a grande indagação surgida já a partir do final dos anos sessenta foi se os artistas abstratos eram cientes ou não de que a CIA era quem os bancava. Quando a imprensa americana divulgou o esquema houve uma gritaria geral e muitos se mostraram perplexos.

Entretanto, Tom Braden, um ex dirigente da Seção das Organizações Internacionais da CIA, acabou dando detalhes de como, na verdade, todos sabiam quem lhes dava suporte e, por conseguinte, inflava seus egos tanto quanto seus bolsos de dólares.

E segundo Saunders, alguns deles como Motherwell, Baziotes, Calder e Pollock eram inclusive membros do Comitê Norte Americano pela Liberdade Cultural, uma fachada da própria CIA no circuito cultural. Outros, como Mark Rothko e Adolph Gottlieb, ex-simpatizantes do comunismo, tornaram-se anticomunistas engajados durante a Guerra Fria.

A única exceção comprovada foi Ad Reinhardt que condenou publicamente a adesão dos colegas ao esquema e desde então acabou sendo boicotado pelo meio artístico oficial.

Bônus: Homenagem

FOTO 10.jpg Xico, de Caras & Bocas, era só instinto e independência: nunca leu Marx, tampouco recebia bananas da CIA.


Ricardo Scarelli

Um amante do ócio - e do churrasquinho - grego..
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