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Ricardo Scarelli

Um amante do ócio - e do churrasquinho - grego.

Quando a Black Music Foi Trilha Sonora da História - parte 1

A música refletindo e sendo reflexo de seu tempo.

Parte 1 de 2: o fim da escravidão, o início do segregacionismo e o surgimento do blues.


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Há uma sincronia entre a transformação das relações raciais nos EUA e o desenvolvimento da sonoridade que originaria a chamada Black Music. É também perceptível o papel fundamental que inúmeros anônimos, ou quase anônimos, exerceram no desenvolvimento de ambos os fatos.

É possível afirmar ainda que, sobretudo em seus primórdios, em cada riff de origem desconhecida transmitido pela tradição oral ou em cada gesto de contestação à ordem vigente é que se criaram as condições para que a História personificasse seus heróis e seus ídolos, tanto quanto propiciasse a existência dos mesmos.

Quando a jovem professora emancipada Charlotte Forten retornou da igreja naquele domingo, 14 de dezembro de 1862, e anotou em seu diário: “Voltei com o blues. E me sinto muito triste e miserável”, ela fez uma referência ao seu estado de espírito após ouvir, durante o trajeto de casa, os gritos dos escravos sendo açoitados nos alojamentos. Este foi um dos primeiros registros do termo blues como sinônimo de melancolia.

O gênero musical homônimo que tão bem retrataria esse tipo de sentimento ainda não existia, mas suas origens estavam bem próximas de Charlotte: nos campos de plantações de algodão da Carolina do Sul ouviam-se as Works songs, os cantos cadenciados que os negros entoavam enquanto eram escravizados. Se para estes era uma forma de minimizar o sofrimento para seus malfeitores o som ouvido ao longe era uma garantia de que tudo estava sob controle.

Mesmo após o fim da escravidão esse tipo de canção ainda era ouvido pelas chamadas Chain Gangs, grupos de prisioneiros negros que eram cedidos pelas prisões do Mississipi para a construção de ferrovias. Como ex-escravos eram detidos pelos motivos mais banais garantiu-se por anos uma mão de obra abundante e gratuita.

Em outros momentos emanava-se o Negro Spiritual, surgido da fusão de melodias europeias com cânticos africanos e que teria como descendente direto o gospel.

O Spiritual foi utilizado como meio de evangelização e consequente domínio cultural por parte dos brancos escravocratas se tornando, posteriormente, uma forma de resistência ao incorporar em suas letras mensagens dúbias ou em códigos.

Criadas por libertos e antiescravagistas, a partir de então essas canções passaram a transmitir não somente mensagens de uma esperança transcendental, mas também a busca terrena por melhores dias e até eventuais planos de fuga.

Work Song e Chain Gang

Entretanto, quando o fim da Guerra Civil Americana efetivou a abolição da escravatura em todo território dos EUA somente parte deste desejo se concretizou: tão logo as tropas nortistas deixaram o sul o plano inicialmente proposto de inserção social aos ex-escravos passaria a sofrer constantes objeções.

Além do surgimento de organizações explicitamente racistas, como a Ku Klux Klan, logo entrariam em vigor as chamadas “Leis de Jim Crow”, que viriam a institucionalizar o segregacionismo na América.

Seriam essas leis que obrigariam a maioria dos locais públicos a possuírem instalações para os negros com os infames dizeres “Colored” separando ambientes. Essa é a origem das imagens que nos são familiares pelas fotografias ainda na década de cinquenta do século passado.

Mas esse era apenas o lado visível do segregacionismo, já que inúmeros outros direitos foram cerceados aos ex-escravos, dentre os quais o do voto.

De todo modo, alguns poucos conseguiram acesso à educação, sobretudo no norte do país, enquanto outros se tornaram arrendatários, ainda que obrigados a entregar 90% das colheitas aos donos das terras.

Trabalhando praticamente sozinhos enquanto aravam os campos estes últimos entoavam um canto solitário conhecido como Field holler, ainda mais lento do que as não tão antigas work songs, e que vez por outra era respondido ao longe por algum arrendatário de propriedades vizinhas.

Ao mesmo tempo grande parte dos ex-escravos partiu das lavouras em busca de trabalho nas fábricas que começavam a despontar nas cidades, logo formando um subproletariado e segregados em guetos. Em que pese todas as adversidades, será neles que emergirá uma cultura negra americana, inclusive musical.

O acesso a instrumentos como o banjo, a guitarra e a harmônica permitiu improvisos estilísticos sobre as referências musicais do passado.

De modo que foram nos cabarés, nos prostíbulos, nos bares ou nas igrejas que surgiram as diversas variações musicais que derivariam em novos ritmos, que antes mesmo de consolidados já se mesclavam a outros, em uma constante ebulição criativa.

Spiritual

Field Holler

O transporte ferroviário, por sua vez, permitiu que muitos desses músicos viajassem de cidade em cidade em busca de oportunidades ao mesmo tempo em que trocavam influências musicais. W. C. Handy foi um desses viajantes e quando em Memphis compôs “Memphis Blues” (1912) e depois “The St. Louis Blues” (1914) nas primeiras referências registradas ao gênero. Handy, posteriormente autointitulado o Pai do Blues, afirmaria que ouviu algo parecido com "Where The Southern Crosses The Dog" cantada por um bêbado tocando guitarra com uma faca em uma estação de trem, em 1903. Mais um anônimo, agora inventando o slide...

E quando esse “trem da musicalidade” chegou a New Orleans, por exemplo, encontrou um ambiente de forte influência francesa e a presença do ragtime, ritmo que se utilizava de instrumentos musicais típicos das bandas marciais, e seguiria um caminho próprio, originando o jazz.

Como os experimentos e fusões ocorriam espontânea e concomitantemente no início havia incrível semelhança entre os diversos ritmos, sendo que gradualmente cada qual assumiria as caracteristicas próprias que os diferenciariam entre si.

É fato que os primórdios do blues foram pouco documentados ao contrário do surgimento, devidamente registrado em 1909, da Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP), a primeira organização antirracista dos EUA, criada pelo sociólogo W. E. B. Du Bois após este presenciar inúmeros linchamentos de negros. Essas cenas eram tão corriqueiras no início do século XX quanto os enforcamentos de negros pelos motivos mais banais.

Tal situação levaria o professor judeu Abel Meeropol a escrever o poema Strange Fruit, posteriormente musicado e gravado por Billie Holiday nos anos trinta. Mas já desde os anos 20 a indústria fonográfica produzia a série “Race Music” lançando os grandes nomes femininos do blues.

Ao contrário da figura solitária e algo errante do tradicional bluesman, essa cantoras se apresentavam com conjuntos musicais e mantinham uma postura mais refinada. E foram pioneiras ao inserir o blues no mercado comercial.

O Começo

A primeira grande campanha da NAACP ocorreu na defesa de nove adolescentes negros acusados pelo estupro de uma jovem branca sendo que, após longo processo judicial, todos foram inocentados pela Suprema Corte. Acusações falsas contra ex-escravos eram corriqueiras sendo praticamente impossível a eles se defenderem individualmente. Este caso ficou conhecido como Scottsboro Boys e agitou o Alabama entre 1931 e 1937.

FOTO 02.jpg A NAACP,fundamental no período pré Movimento dos Direitos Civis

Ainda no final dos anos trinta morreria um dos mais reverenciados bluesman: Robert Johnson, aquele que, diz a lenda, teria vendido a alma ao diabo em troca do sucesso. É fato que Johnson compôs grandes clássicos e entrou para a história do blues. E foi morto supostamente envenenado por um marido traído. Tudo isso em apenas dois anos.

Mas se algo de sobrenatural ocorreu nesse período foi o surgimento da guitarra elétrica e as consequências que isso traria à música popular...

Quando a crise algodoeira intensificou o processo migratório do sul ruralista para o norte industrial, que já ocorria desde o início do século XX, inúmeros trabalhadores partiram em direção a cosmopolita Chicago dos anos quarenta, onde o blues se transformaria, ainda antes de ter suas primeiras guitarras plugadas por T Boone Walker, Big Bill Broonzy e Muddy Waters.

Seria com a incorporação de instrumentos das big bands, como o piano, que ocorreria a primeira grande alteração na sonoridade do blues tradicional, mais rural e predominante no Delta Mississipi, onde surgiram nomes como Charlie Patton, Tommy Johnson, Son House, Big Joe Williams, Skip James e o próprio Robert Johnson.

O vídeo abaixo, apesar de retirado do festival American Folk Blues de 1963, nos passa uma ideia de como foi gradual essa transição nos anos quarenta: é possível notarmos a tradição ao lado da modernidade e um som mais swingado que traria também a felicidade, enfim, á temática blues. E seria dessa singela variação rítmica que surgiriam novas transformações na música: o rhythm & blues e deste, o rock n' roll. E, por conseguinte, uma revolução comportamental na sociedade.

Só as feras: Otis Spann (1º vocal e piano); Big Joe Williams (2º vocal e guitarra); Sonny Boy Williamson II (3º vocal e harmônica); Willie Dixon (4º vocal e contrabaixo); Lonnie Johnson (5º vocal); Victoria Spivey (6º vocal); Muddy Waters, o “Pai do Chicago Blues” (7º vocal) e Memphis Slim (8º vocal e piano). Na bateria, Bill Stepney.


Ricardo Scarelli

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