Quando a Black Music Foi Trilha Sonora da História - parte 2
A partir dos anos 40 o êxodo rural levou milhares de trabalhadores, e também o blues tradicional do Delta Mississipi, para o norte dos EUA. Em Chicago este último sofreria sua primeira grande transformação ao incorporar instrumentos das big bands e, posteriormente, a guitarra elétrica. Com o som ampliado, seus vocais se tornaram mais vigorosos e o seu ritmo mais acelerado, surgindo a variável jump blues.
O produtor Sam Phillips, surpreso com a quantidade de jovens brancos da classe média que ouviam e compravam discos deste tipo de música, promoveria a gravação de canções do repertório negro por artistas brancos – do qual originaria o rhythm & blues, um termo criado por questões mercadológicas pela revista Billboard em substituição ao já arcaico conceito da Race music.
Muito brevemente, e com algum tempero country, o rhythm & blues daria origem ao rock ‘n roll. O próprio Elvis Presley afirmaria: “O que eu faço não é novidade. Os negros vêm cantando e dançando dessa forma há muito tempo”. E Chuck Berry, ícone pioneiro do rock, foi o símbolo desta integração, algo ainda distante na sociedade em geral, mas que teria nessa mesma década uma lenta e discreta movimentação.
Nos anos 40, uma série de fatores alteraria o espírito do tempo, que até então via cenas como a da foto acima, com certa naturalidade: a crescente contestação de jovens oriundos das universidades negras criadas por igrejas, as contradições do aclamado “american way of life”, o apoio de parcela de jovens urbanos brancos - sobretudo mulheres - e a própria luta pela independência na África seria um estímulo contra qualquer eventual passividade.
Roy Brown em 1947
Entretanto, tudo ocorreria gradualmente e a América tinha as suas prioridades: o primeiro passo foi em 1941, quando Roosevelt estabeleceu o Ato de Emprego Justo, proibindo a segregação nas industrias de defesa. O segundo foi em 1948 com o presidente Truman abolindo a segregação nas Forças Armadas...
Na contramão da crescente integração musical a NAACP é obrigada, ainda em 1952, a recorrer à Suprema Corte a fim de garantir a matrícula da garota Linda Brown em uma escola próxima de sua casa, no Kansas. Foram meses de batalhas judiciais até que a sentença final decidiu em favor de Brown, tornando inconstitucional, a partir de 1955, a segregação em todas as escolas públicas dos EUA. O episodio ficou conhecido como “O Caso Brown X Conselho de Educação”.
E na noite de 1º de dezembro deste mesmo ano de 1955, a costureira Rosa Parks se recusou a ceder o seu lugar a um homem branco, como determinava a legislação da cidade Montgomery, no Alabama. Rosa foi presa e multada; porém, sua atitude foi determinante para que homens e mulheres negros, associados às igrejas de Montgomery, se reunissem e organizassem um boicote ao transporte coletivo por 381 dias, liderado pelo pastor batista Martin Luther King Jr.
Durante mais de um ano os negros se recusaram a utilizar os ônibus de Montgomery e caminhavam – cantando - diariamente quilômetros até o trabalho. Naturalmente, também eram xingados e agredidos durante o trajeto. Com as empresas quase falindo, a Suprema Corte suspendeu a lei discriminatória em novembro de 1956, sendo que o Movimento só seria encerrado oficialmente em 21 de dezembro de 1956, marcando o início do Movimento dos Direitos Civis nos EUA.
Como mentalidades não mudam – ao menos a curto prazo - por decretos, ainda em 1957 o governo federal precisou enviar tropas para garantir o ingresso de nove alunos negros em uma escola do Arkansas no episódio conhecido como Os Nove de Litte Rock. A efervescência desses dias seria notada também na música: técnicas vocais do gospel que expressavam devoção, como o call and response, foram incorporadas por Clyde McPhatter e Ray Charles aos temas seculares do rhythm & blues, lançando assim as bases da soul music. Logo surgiria o “blue eyed soul”, ou soul de branco, e grupos como os Righteous Brothers.
Menos de três anos após o episódio do Arkansas surgiram as “Sit-ins de Grensboro” quando jovens sentavam-se nos locais reservados aos brancos nas lanchonetes e não sendo atendidos, lá permaneciam pacificamente, sendo ainda constrangidos ou agredidos. A origem do protesto remonta a quatro universitários negros que não foram atendidos em uma lanchonete da Carolina do Norte.
As Sit-ins se propagaram por meses em diversos estabelecimentos de inúmeras cidades. Quando em julho de 1960 a lanchonete que originou o incidente encerrou a segregação, ela foi seguida pelas demais. Mas os quatro universitários, conhecidos como “Friendship 9” só seriam perdoados (?) pelo governo da Carolina do Norte em janeiro. De 2015.
Resistência pacífica: sit-in em 1960
Ainda que protestos pontuais continuassem a ocorrer, como no caso dos jovens da Carolina do Norte, o que predominaria a partir de Montgomery/55 seriam as grandes mobilizações pacificas sob a liderança de Martin Luther King. De modo similar, ainda que não necessariamente engajados como uma Nina Simone, todos os artistas de Soul music passaram a representar uma nova imagem de autoafirmação, sucesso e visibilidade. O soul foi a música da fraternidade, da união e acompanhou o Movimento dos Direitos Civis ao longo dos anos 60 tendo, nesse sentido, uma postura igualmente política.
A Marcha convocada por King em 1963 para a cidade Birmingham, então um foco de explícito segregacionismo, contou com a presença de crianças e idosos, sendo violentamente reprimida pela polícia local e gerando grande repercussão nacional. O governador do Alabama chegou a afirmar que a segregação seria eterna naquele estado, mas em julho a Suprema Corte declararia inconstitucional a legislação segregacionista de Birmingham.
Em agosto deste mesmo ano é programada a Grande Marcha de Washington provocando um temor na Casa Branca de que novos confrontos ocorressem e levando o presidente Kennedy a propor o cancelamento do evento, sem obter sucesso. O clima realmente era hostil e um gigantesco aparato de segurança então foi montado para que 250 mil pessoas ouvissem pacificamente o discurso de King em que ele mencionaria a frase “Eu tenho um sonho...”
O Protesto teve grande adesão, expandindo sua influência para além da população negra e militante sofrendo inclusive críticas de Malcon X por considera-la descaracterizada do Movimento. Entretanto, ela obteve resultados positivos: Kennedy, mais pragmático do que fiel à causa, após o término pacífico da Manifestação recebeu os seus líderes – algo que havia se negado a fazer naquela mesma manhã – comprometendo-se a enviar a Lei dos Direitos Civis ao Congresso. Com o seu assassinato em novembro do mesmo ano, seu sucessor Lyndon Johnson cumpre o prometido e em julho de 1964 o Congresso aprova o Civil Rights Act.
Em outubro King recebe o Nobel da Paz e no ano seguinte ocorrem as Marchas pelo Direito ao Voto, conhecidas como as Marchas de Selma, que foram duramente reprimidas. Após diversos incidentes com inúmeras mortes o presidente Johnson assinou o Voting Rights Act, condenando a segregação em locais públicos e garantido o direito de voto dos negros.
Em 1966 Malcolm X é assassinado no Harlen, presumivelmente por antigos companheiros devido a divergências ideológicas. Antes crítico da integração dos negros à sociedade branca, Malcolm mudou sua postura após uma viagem à Meca e seguiu um caminho independente do proposto pelo grupo Nação Islã, da qual fazia parte até então. Na mesma época surgiu o movimento político/cultural Black Power enfatizando a autoestima afro americana e buscando acelerar a inserção social dos negros, inclusive no parlamento. É criado o Partido dos Panteras Negras, na verdade uma organização extraparlamentar.
Olimpíadas de 1968: os atletas John Carlos e Tommie Smith fazem a saudação dos Panteras Negras; no pódio também o australiano Peter Norman
O Black Power ditaria um novo modo de agir e viver por parte da comunidade afro americana e politicamente sua mensagem causaria divergências com organizações tradicionais de combate ao racismo, como a própria NAACP.
Na música essa postura mais agressiva seria traduzida por James Brown ao transformar o soul em um ritmo mais dançante com fusões junto ao R&B, jazz e influencias do rock, dando origem ao funk. Surge a ênfase na politização da identidade dos afros americanos e os símbolos de resistência, enquanto lemas como Black is Beautiful são popularizados.
A agitação dos anos sessenta foi incorporada também por Martin Luther King que, em seus dois últimos anos de vida, não apenas combateu a segregação racial como defendeu mudanças socioeconômicas para reduzir a pobreza e fez críticas severas à Guerra do Vietnã. Em 1968 em visita ao Tennessee para apoiar uma greve de servidores da limpeza pública ele planejou a Marcha dos Pobres. Mas foi assassinado antes de realiza-la em quatro de abril daquele ano na sacada de um hotel do Memphis.
Esta viagem de pouco mais de um século se iniciou com o canto lamurioso de um worksong e se encerrou com o groove auto-afirmativo de James Brown. Ela até poderia ser encerrada com a bela “Abraham, Martin & John”, na magistral interpretação de Moms Mabley, na verdade, a fonte inspiradora deste artigo. Mas seria contraditório reduzir a luta de centenas de milhares de pessoas nas figuras destas três personalidades. E os últimos acontecimentos, em pleno século XXI, confirmam que ainda não há sequer um final para esta História.