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orações ao Tempo... por seres tão inventivo(s).

Ricardo Scarelli

Um amante do ócio - e do churrasquinho - grego.

Quando a Black Music Foi Trilha Sonora da História - parte 2

A música refletindo e sendo reflexo de seu tempo. Parte 2: o Movimento dos Direitos Civis, a Soul music, o Black Power e o Funk.


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A partir dos anos 40 o êxodo rural levou milhares de trabalhadores, e também o blues tradicional do Delta Mississipi, para o norte dos EUA. Em Chicago este último sofreria sua primeira grande transformação ao incorporar instrumentos das big bands e, posteriormente, a guitarra elétrica. Com o som ampliado, seus vocais se tornaram mais vigorosos e o seu ritmo mais acelerado, surgindo a variável jump blues.

O produtor Sam Phillips, surpreso com a quantidade de jovens brancos da classe média que ouviam e compravam discos deste tipo de música, promoveria a gravação de canções do repertório negro por artistas brancos – do qual originaria o rhythm & blues, um termo criado por questões mercadológicas pela revista Billboard em substituição ao já arcaico conceito da Race music.

Muito brevemente, e com algum tempero country, o rhythm & blues daria origem ao rock ‘n roll. O próprio Elvis Presley afirmaria: “O que eu faço não é novidade. Os negros vêm cantando e dançando dessa forma há muito tempo”. E Chuck Berry, ícone pioneiro do rock, foi o símbolo desta integração, algo ainda distante na sociedade em geral, mas que teria nessa mesma década uma lenta e discreta movimentação.

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Nos anos 40, uma série de fatores alteraria o espírito do tempo, que até então via cenas como a da foto acima, com certa naturalidade: a crescente contestação de jovens oriundos das universidades negras criadas por igrejas, as contradições do aclamado “american way of life”, o apoio de parcela de jovens urbanos brancos - sobretudo mulheres - e a própria luta pela independência na África seria um estímulo contra qualquer eventual passividade.

Roy Brown em 1947

Entretanto, tudo ocorreria gradualmente e a América tinha as suas prioridades: o primeiro passo foi em 1941, quando Roosevelt estabeleceu o Ato de Emprego Justo, proibindo a segregação nas industrias de defesa. O segundo foi em 1948 com o presidente Truman abolindo a segregação nas Forças Armadas...

Na contramão da crescente integração musical a NAACP é obrigada, ainda em 1952, a recorrer à Suprema Corte a fim de garantir a matrícula da garota Linda Brown em uma escola próxima de sua casa, no Kansas. Foram meses de batalhas judiciais até que a sentença final decidiu em favor de Brown, tornando inconstitucional, a partir de 1955, a segregação em todas as escolas públicas dos EUA. O episodio ficou conhecido como “O Caso Brown X Conselho de Educação”.

E na noite de 1º de dezembro deste mesmo ano de 1955, a costureira Rosa Parks se recusou a ceder o seu lugar a um homem branco, como determinava a legislação da cidade Montgomery, no Alabama. Rosa foi presa e multada; porém, sua atitude foi determinante para que homens e mulheres negros, associados às igrejas de Montgomery, se reunissem e organizassem um boicote ao transporte coletivo por 381 dias, liderado pelo pastor batista Martin Luther King Jr.

Durante mais de um ano os negros se recusaram a utilizar os ônibus de Montgomery e caminhavam – cantando - diariamente quilômetros até o trabalho. Naturalmente, também eram xingados e agredidos durante o trajeto. Com as empresas quase falindo, a Suprema Corte suspendeu a lei discriminatória em novembro de 1956, sendo que o Movimento só seria encerrado oficialmente em 21 de dezembro de 1956, marcando o início do Movimento dos Direitos Civis nos EUA.

Como mentalidades não mudam – ao menos a curto prazo - por decretos, ainda em 1957 o governo federal precisou enviar tropas para garantir o ingresso de nove alunos negros em uma escola do Arkansas no episódio conhecido como Os Nove de Litte Rock. A efervescência desses dias seria notada também na música: técnicas vocais do gospel que expressavam devoção, como o call and response, foram incorporadas por Clyde McPhatter e Ray Charles aos temas seculares do rhythm & blues, lançando assim as bases da soul music. Logo surgiria o “blue eyed soul”, ou soul de branco, e grupos como os Righteous Brothers.

Menos de três anos após o episódio do Arkansas surgiram as “Sit-ins de Grensboro” quando jovens sentavam-se nos locais reservados aos brancos nas lanchonetes e não sendo atendidos, lá permaneciam pacificamente, sendo ainda constrangidos ou agredidos. A origem do protesto remonta a quatro universitários negros que não foram atendidos em uma lanchonete da Carolina do Norte.

As Sit-ins se propagaram por meses em diversos estabelecimentos de inúmeras cidades. Quando em julho de 1960 a lanchonete que originou o incidente encerrou a segregação, ela foi seguida pelas demais. Mas os quatro universitários, conhecidos como “Friendship 9” só seriam perdoados (?) pelo governo da Carolina do Norte em janeiro. De 2015.

FOTO 05.PNG Resistência pacífica: sit-in em 1960

Ainda que protestos pontuais continuassem a ocorrer, como no caso dos jovens da Carolina do Norte, o que predominaria a partir de Montgomery/55 seriam as grandes mobilizações pacificas sob a liderança de Martin Luther King. De modo similar, ainda que não necessariamente engajados como uma Nina Simone, todos os artistas de Soul music passaram a representar uma nova imagem de autoafirmação, sucesso e visibilidade. O soul foi a música da fraternidade, da união e acompanhou o Movimento dos Direitos Civis ao longo dos anos 60 tendo, nesse sentido, uma postura igualmente política.

A Marcha convocada por King em 1963 para a cidade Birmingham, então um foco de explícito segregacionismo, contou com a presença de crianças e idosos, sendo violentamente reprimida pela polícia local e gerando grande repercussão nacional. O governador do Alabama chegou a afirmar que a segregação seria eterna naquele estado, mas em julho a Suprema Corte declararia inconstitucional a legislação segregacionista de Birmingham.

Em agosto deste mesmo ano é programada a Grande Marcha de Washington provocando um temor na Casa Branca de que novos confrontos ocorressem e levando o presidente Kennedy a propor o cancelamento do evento, sem obter sucesso. O clima realmente era hostil e um gigantesco aparato de segurança então foi montado para que 250 mil pessoas ouvissem pacificamente o discurso de King em que ele mencionaria a frase “Eu tenho um sonho...”

O Protesto teve grande adesão, expandindo sua influência para além da população negra e militante sofrendo inclusive críticas de Malcon X por considera-la descaracterizada do Movimento. Entretanto, ela obteve resultados positivos: Kennedy, mais pragmático do que fiel à causa, após o término pacífico da Manifestação recebeu os seus líderes – algo que havia se negado a fazer naquela mesma manhã – comprometendo-se a enviar a Lei dos Direitos Civis ao Congresso. Com o seu assassinato em novembro do mesmo ano, seu sucessor Lyndon Johnson cumpre o prometido e em julho de 1964 o Congresso aprova o Civil Rights Act.

Em outubro King recebe o Nobel da Paz e no ano seguinte ocorrem as Marchas pelo Direito ao Voto, conhecidas como as Marchas de Selma, que foram duramente reprimidas. Após diversos incidentes com inúmeras mortes o presidente Johnson assinou o Voting Rights Act, condenando a segregação em locais públicos e garantido o direito de voto dos negros.

Em 1966 Malcolm X é assassinado no Harlen, presumivelmente por antigos companheiros devido a divergências ideológicas. Antes crítico da integração dos negros à sociedade branca, Malcolm mudou sua postura após uma viagem à Meca e seguiu um caminho independente do proposto pelo grupo Nação Islã, da qual fazia parte até então. Na mesma época surgiu o movimento político/cultural Black Power enfatizando a autoestima afro americana e buscando acelerar a inserção social dos negros, inclusive no parlamento. É criado o Partido dos Panteras Negras, na verdade uma organização extraparlamentar.

FOTO 06.jpg Olimpíadas de 1968: os atletas John Carlos e Tommie Smith fazem a saudação dos Panteras Negras; no pódio também o australiano Peter Norman

O Black Power ditaria um novo modo de agir e viver por parte da comunidade afro americana e politicamente sua mensagem causaria divergências com organizações tradicionais de combate ao racismo, como a própria NAACP.

Na música essa postura mais agressiva seria traduzida por James Brown ao transformar o soul em um ritmo mais dançante com fusões junto ao R&B, jazz e influencias do rock, dando origem ao funk. Surge a ênfase na politização da identidade dos afros americanos e os símbolos de resistência, enquanto lemas como Black is Beautiful são popularizados.

A agitação dos anos sessenta foi incorporada também por Martin Luther King que, em seus dois últimos anos de vida, não apenas combateu a segregação racial como defendeu mudanças socioeconômicas para reduzir a pobreza e fez críticas severas à Guerra do Vietnã. Em 1968 em visita ao Tennessee para apoiar uma greve de servidores da limpeza pública ele planejou a Marcha dos Pobres. Mas foi assassinado antes de realiza-la em quatro de abril daquele ano na sacada de um hotel do Memphis.

Esta viagem de pouco mais de um século se iniciou com o canto lamurioso de um worksong e se encerrou com o groove auto-afirmativo de James Brown. Ela até poderia ser encerrada com a bela “Abraham, Martin & John”, na magistral interpretação de Moms Mabley, na verdade, a fonte inspiradora deste artigo. Mas seria contraditório reduzir a luta de centenas de milhares de pessoas nas figuras destas três personalidades. E os últimos acontecimentos, em pleno século XXI, confirmam que ainda não há sequer um final para esta História.


Ricardo Scarelli

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