tempos híbridos

Viagem pela irrealidade cotidiana

Marques Casara

Não há sonho, o rei está morto.
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As sondas Voyager e o sentido da vida

As Voyager carregam o sonho de que um dia faremos contato. Em seus discos de dados, levam informações sobre os terráqueos. Mas não são informações sobre quem somos. São fragmentos idealizados de quem gostaríamos de ser. A carga mais pesada das Voyager é a contradição de uma humanidade que esqueceu de si mesma.


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Em 2013, a Voyager-1 deixou o sistema solar. Lançada em 1977, percorreu 19 bilhões de quilômetros até ultrapassar Plutão, em direção ao espaço sideral. Logo atrás segue a Voyager-2. Ambas viajam a incríveis 60 mil quilômetros por hora.

Não há propósito lógico nessa jornada. As sondas buscam, genericamente, serem ouvidas. Buscam o dia em que faremos contato.

Transportam discos de cobre banhados a ouro, com saudações em diversas línguas. Também levam amostras de música de diferentes culturas e épocas, sons da natureza, belíssimas imagens de diversas regiões da Terra. Carregam, em resumo, fragmentos do que somos, ou do que gostaríamos de ser.

Como embaixadoras da humanidade no espaço profundo, levam o que há de melhor, cultura, arte, conhecimento. Ruído de trovões, de chuva, do vento, de ondas do mar. Fotografias de um planeta belo e complexo.

Talvez demasiado complexo. Na finalização dos discos, duas fotos foram retiradas: a de um homem nu e a de uma mulher nua. Não se sabe ao certo o motivo da retirada das imagens. O que se sabe é que a agência espacial norte-americana, a NASA, foi orientada a suprimir as fotos. Há quem diga que foi por vergonha, pudor ou timidez. Na última hora, alguém pode ter dito: não é adequado mostrar nossos corpos nus a qualquer alienígena por ai.

Quem sabe foi culpa.

Sim, culpa. Pois não há nada nas sondas que descreva o ocaso da humanidade, as guerras, a fome, o racismo. Tudo o que somos mas não gostaríamos de ser. Nada disso entrou nos discos de cobre.

Não há, nos discos de cobre banhados a ouro, uma descrição sobre nossa natureza inexoravelmente predatória. Não há fotos de campos de concentração, de campos de extermínios, dos banhos de sangue que fizeram do século XX o mais violento e bárbaro de todos os tempos.

Não há imagens do bombardeiro B-29 que riscou Hiroshima do mapa em agosto de 1945. Bombardeiro que entrou para a história com nome de mulher: Enola Gay. Nobre senhora, soube-se depois, mãe do coronel que pilotava o B-29.

Batizar o bombardeiro com o nome de mamãe foi uma singela homenagem do coronel. Sem a dona Enola Gay, seu pimpolho não teria chegado onde chegou.

Ora, já que suprimiram as fotos do casal desnudo, bem que poderiam ter colocado, no lugar, uma meia dúzia de frases de Sigmund Freud. Explicaria as façanhas do coronel, de sua mami e de toda a humanidade.

Mas isso não importa agora. Ninguém vai ouvir as mensagens dos discos de cobre, as saudações em diversas línguas, as músicas, os fragmentos do que um dia fomos, se é que fomos.

As sondas que viagem em paz, em sua pudica e desesperada tentativa de nos conectar a algo que dê sentido à vida.

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Jornada puramente metafísica. Para além do sistema solar, o propósito das naves se despe de concretude. Levam consigo um dos problemas centrais da filosofia: é possível um mundo que não esse?

A Voyager-1 viajará 40 mil anos até chegar a estrela AC793888. A Voyager-2 chegará nas bordas de Sirius daqui a 296 mil anos. Duzentos e noventa e seis mil anos. Quando isso acontecer, quando chegarem ao destino, não existirá mais vida humana sobre a Terra. E as Voyager serão o derradeiro objeto tecnológico fabricado pelo homem.

Resistirão como paradoxo. Sobreviverão como alegoria da humanidade, a espécie que virtualizou a si mesma em busca de um sentido.

O que há no espaço sideral? Isso não terá nenhuma importância daqui a 296 mil anos. De todo modo, que as sondas deem as respostas, mesmo que tarde demais, mesmo depois do fim, quando não haverá ninguém para atender a ligação.

Pouca coisa restará da espécie humana daqui a 296 mil anos. Talvez fique uma ou outra coisa. Talvez fiquem, guardadas em uma velha escrivaninha, as fotos de um homem nu e de uma mulher nua. Com suas genitálias devidamente cobertas. Afinal, não é qualquer alienígena por ai que pode ver o que somos.

Sobre essa mesma escrivaninha pode existir, quem sabe, um rádio, que de subito comece a transmitir: ___ Terra? ___ Terra? ___ Copia Sirius?


Marques Casara

Não há sonho, o rei está morto. //.
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