Gilsara Mattos

Gilsara Mattos é escritora, roteirista, palestrante, publicitária e empresária.

O belo é bom?


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Eu estava lá, sentada no banco de uma praça bem movimentada, a observar as pessoas.

Por quatro meses fiquei indo a essa praça, e lá permaneci por longas horas... observando as pessoas.

Eu queria saber o motivo pelo qual o belo é tão amado, cobiçado, invejado e festejado, enriquecendo a indústria da beleza: cosméticos, cirurgiões plásticos, centros de estética, alta costura, cabeleireiros vip...

Mas afinal, o que é o belo?

E se alguém considerar o A belo e outro alguém não o considerar? Como definir se algo é belo?

Para ser considerado belo, o objeto tem que ter essa consideração por um número elevado de pessoas. E essas pessoas têm que pertencer a opiniões, classes sociais e gêneros, diferentes.

Sim, o belo tem que exercer igual opinião em diferentes pessoas.

É como se existisse um gosto universal, e o belo teria que responder, que atender, a esse gosto.

E era aí o ponto que me intrigava: como podemos definir um gosto?

Observando as pessoas, com diferenças em todas os aspectos, cheguei à uma conclusão.

Todas pensam que o belo é bom.

Suas expressões mudavam, ficando mais alegres e leves, ao verem algo belo, fosse esse belo uma pessoa, paisagem ou objeto.

Da mesma forma, suas expressões também mudavam para tristes e pesadas, ao verem algo feio.

Convidei alguns amigos para estarem comigo nessa praça, em lugares diferentes.

Pedi que eles abordassem, para pedir alguma informação, por exemplo, às pessoas que passavam.

Foi absolutamente impressionante como as pessoas eram acessíveis às pessoas consideradas belas e inacessíveis às pessoas consideradas feias.

E o cúmulo da surpresa foi que as mesmas pessoas que tinham sido totalmente simpáticas com a bela fornecendo-lhe prontamente a informação solicitada, não demonstravam a menor pressa de continuarem seus caminhos e até se mantinham sorrindo, mas ao serem abordadas novamente mais à frente, por uma pessoa considerada feia, negavam a informação e mantinham-se caminhando, embora diminuindo levemente o ritmo de seus passos, mas não tinham mais o sorriso nem a paciência... dois minutos depois de terem sido abordadas pela pessoa considerada bela.

E foi assim, todos os dias, por meses, e a reação era sempre a mesma.

Mesmo quando a pessoa bela se vestia mal, a reação era a mesma, embora as pessoas passassem seu olhar analítico nas roupas que as pessoas belas estivessem usando. Mas mantiveram-se ali, paradas, informando, e era a pessoa bela que as despedia, agradecendo e saindo, ao invés das pessoas abordadas, que por sua vez, mantinham-se paradas à mercê das belas.

Era como se o belo as hipnotizasse. Era como se elas pensassem inconscientemente que ao estar em contato com as pessoas belas, também se sentiam belas, como se tivessem recebido passaportes para um mundo melhor, perfeito.

As pessoas pensam estar "lucrando" com o belo.

E isso também explicava o fato de tantos homens e mulheres serem vítimas de pessoas belas para as quais se abriam facilmente, e depois se amarguravam por terem sido roubadas, enganadas, traídas, ou por manterem-se cativos.

O fato é que as pessoas, em geral, acreditam que o belo é perfeito.

E se é perfeito, é bom.

Embora todos tenhamos consciência de que não existe ninguém perfeito neste planeta, as cativas do belo, acreditam verdadeiramente nisso.

Os belos são os reis do acesso permitido. Nada lhes é negado. Isso explica a enorme quantia gasta para ser belo: o desejo de ser aceito, incluso, ser convidado, desejado, ter acesso.

E isso me levou aos feios.

Automaticamente, os feios têm acesso negado, são excluídos, não são convidados, e portanto, não são aceitos.

A não ser que sejam "legais", o que aqui significa "engraçado".

Então, de repente, o feio se tornou o "palhaço", o "bobo da corte" para ter utilidade entre os belos.

Observamos também que não há belos sem empregos. A questão da "boa aparência" inclui estar no padrão do belo. Os belos ganham empregos em funções melhor remuneradas. Funcionam como "enfeites" agregando "valor" ao lugar.

As pessoas belas são cobiçadas, portanto, a tendência é conseguirem facilidades que as pessoas consideradas feias, não têm. Pois os belos são "desejados" para serem "usados" como um "produto". O belo é comercializado. Ou por si mesmo, ou por outros. Mas todos lucrarão com essa beleza.

Portanto, é natural entender o motivo do alto gasto com estética para atender às exigências do padrão belo de "ser" ou melhor dizendo "existir". Inclusive, lembrando das pessoas que trabalham com moda, vestindo as criações dos estilistas e caminhando com elas em uma passarela são denominadas "modelos".

Mas o fato é que a palavra "modelo" se refere à criação, à roupa (modelo) que estão vestindo para mostrar o trabalho do estilista, induzindo ao resultado de que aquela roupa é para ser tida como "modelo" de bem vestir, de um alto padrão de vestimenta, que dita a moda a seguir.

Mas elas, as pessoas contratadas para desfilar as roupas, é que ficaram donas da palavra "modelo", criando uma nova marca para si mesmas e para a palavra.

E por que?

Primeiro que, pelo fato de terem que ser magras para que não interfiram no modelo de roupa, para que todas as roupas vistam bem, não interferindo cada uma com seu próprio corpo, no resultado final, o que aconteceu foi que o magro acabou por ditar a regra de ser belo, (nos tempos modernos), já que todas as roupas vestem bem um corpo magro.

Segundo, por causa de suas maquiagens. Na maioria das vezes feitas de forma a ficarem mesmo diferentes do "comum", para complementar o conceito da roupa criada, acabou por evidenciar bocas e olhos, camuflando imperfeições. Essa maquiagem acabou por transmitir portanto, perfeição, força, superioridade.

E terceiro, porque toda a atenção fica nelas uma vez que desfilam as roupas para as quais o evento foi criado.

Então, é como se elas estivessem em ênfase, e não as roupas. Afinal, o "ser humano" é mais que suas vestes.

Automaticamente, as pessoas começaram a entender que ser magro é ser bom.

E é mesmo, já que gordura faz mal à saúde, causa muito desconforto aos movimentos e acaba com a agilidade e bem estar.

Mas a magreza foi atribuída ao belo já que ela está nas pessoas que desfilam as roupas.

Pouquíssimas pessoas entendem que essas pessoas são altamente exigidas, que passam mal por alimentarem-se mal e para manterem-se magérrimas já que sua profissão é baseada em vestir bem qualquer roupa sem interferir em seu desenho.

Mas se as pessoas magérrimas fossem apresentadas feias e mal vestidas, todos iriam querer ficar acima do peso para se distanciarem ao máximo do conceito terrível de ser magro.

Entende?

As pessoas atribuem feio ao mal estar, mal sentimento, portanto, o feio é considerado ruim, e ruim é excluído, claro, pois ninguém quer o ruim para si.

Enquanto que o belo é cobiçado por causar bons sentimentos e todos querem o bom para si.

Mas poucos sabem dos bastidores desse grande teatro, onde as pessoas são tratadas como não-humanas, mas simples objetos, como se fossem cabides que se mexem em uma passarela. E isso é tremendamente terrível. E elas mesmas suportam essa realidade pelo prazer de ser cobiçada e pelas portas que lhe são facilmente abertas, então, consideram os sacrifícios como ossos que todo ofício tem.

E isso é um fato: portanto, o belo é buscado pelas pessoas para ser usado. E isso é uma agressão, na minha opinião. É desrespeito com o outro, pois o outro passa a ser algo que "convém", e não um ser humano.

Todos, inclusive o belo, sabem do poder que a beleza exerce nas pessoas, e que por isso pode ter tudo facilmente. E como o mundo é um lugar onde tudo que o se quer resulta apenas com muito trabalho, que é cansativo e de resultados muitas vezes demorados ou que não surgem, é fácil ceder aos pés do conforto e das facilidades pela enorme porta que se abre dante de si, simplesmente por ter algo que o mundo deseja: a beleza.

Então, como observei lá, na minha praça, com os passantes "comuns", o belo causa "boa sensação" aos que o veem.

Por isso o belo é considerado bom: porque causa boa sensação, bom sentimento, felicidade, êxtase.

Da mesma forma, o feio é considerado ruim porque causa má sensação, sentimento ruim, repulsa.

Daí, tudo e todos, que estão fora do padrão ditado pelo belo, está fora, desajustado. E é indesejado.

O que você sente quando vê aquele cachorrinho "bonitinho" e "fofinho" andando na rua, "engraçadinho"?

Esse sentimento faz você desejá-lo.

Da mesma forma, ao ver um cachorro feio, você nem quer olhá-lo, e muitos até se aborrecem por terem-no visto.

Voz bonita, lota teatros.

O mesmo com tudo: carros, celulares, computadores, bicicletas, casas, pratos, copos, cabelos, roupas, sapatos, jóias... qualquer coisa, se for bonito, vai ser desejado.

Designer com bom gosto, ganha o mundo.

Decoradores recebem a quantia que quiserem se souberem criar um ambiente magnificamente belo.

Belo está associado à sentimento bom. Quanto mais belo, mais êxtase.

E queremos ser belos para causar esse sentimento nas pessoas.

Ninguém quer ser excluído.

E queremos evitarmos essa dor a qualquer custo.

Dor de não sermos aceitos, convidados, queridos, incluídos. Dor de não sermos amados.

No entanto, as pessoas consideradas feias, podem viver muito felizes, exatamente por não serem perseguidas, exigidas, desejadas e usadas.

A liberdade e o prazer, está em ser feio. Se o feio não colocar seu valor em ser belo, mas em ser uma pessoa realmente humana, com seus valores sendo realmente os únicos valores a serem, em si, agregados.

Afinal, é verdade que a beleza não está no exterior.

Podemos ser perfeitos do lado de fora e termos uma imperfeição super feia, do lado de dentro.

O que você prefere?

. Ser belo, cobiçado e levar uma vida de flashes que não te dão um segundo consigo mesmo, tornando-o frágil e uma espécie de rei-escravo; . Ser feio e poder apreciar a vida, andar por todos os lugares, ser e fazer amizades sólidas, ter paz e muito amor?

Opto pela qualidade de vida. A feiura funciona como um filtro: quem ficar do meu lado está pelo que sou e não pelo que tenho, pois se não fosse assim, ao não ter mais o que os interessa, estaria em completa solidão.

Para mim, não deve haver feio e belo, porque todos somos bonitos. Somos seres humanos e como a natureza, em várias formas de expressão. Mas que é sempre, sempre natureza. Existe algo mais lindo?

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Gilsara Mattos

Gilsara Mattos é escritora, roteirista, palestrante, publicitária e empresária. .
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