Gilsara Mattos

Gilsara Mattos é escritora, roteirista, palestrante, publicitária e empresária.

a velocidade que nos encanta

o que aprendi apostando rachas


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Ainda criança eu me interessei por competição. Fosse onde fosse: nas bolinhas de gude, nas pipas, no futebol, no jogo da velha, nos rodeios, na Fórmula 1. E aí, conheci o parque de diversões.

Ele tinha vários brinquedos, mas eu não via lógica nenhuma em montar em um carro ou cavalinho que ficasse estático sem que eu pudesse interferir em seu movimento enquanto fazia o mesmo percurso indo ao mesmo lugar no mesmo círculo até que simplesmente parasse pelo tempo predefinido.

Eu preferi os outros: todos os que ofereciam o êxtase do movimento imprevisível ligado à minha ação sobre ele.

Entre as poucas opções, escolhi os carrinhos de batida.

E criei uma brincadeira particular onde eu jamais deixava que algum deles me prendesse, imobilizasse, batesse em mim.

E então, jamais sequer pensei em ir a outro brinquedo que não fosse aquele.

Uau. Como eu me divertia.

O parque ia ao meu bairro uma vez por ano, em julho, e então, eu passava o ano inteiro acumulando moedas com o objetivo único de usá-las nos carros de batida.

Todos os dias, durante toda a estadia, eu estava lá.

Eu entregava todas as moedas ao funcionário e eram mais do que suficientes para eu brincar o tempo todo que eu quisesse, sem nem precisar sair do carro quando tocava o sinal para serem trocadas as pessoas, meus adversários.

Fui ficando cada vez mais afiada e experiente em reconhecer intenções, trajetórias, expressões corporais, oscilações de velocidades, de várias pessoas com características diferentes.

Quando cresci, realizei o que tinha se tornado uma obsessão: tirar a minha carteira de motorista.

óbvio que percebi a diferença entre um carro de brinquedo de um parque de diversões e um carro de verdade nas ruas de uma cidade, mas demorou pouquíssimo tempo para que eu adaptasse o conceito: brincar de ninguém conseguir me "pegar".

Competições com os amigos ou desconhecidos, arrancadas, zerinhos, tudo o que aparecesse nas ruas da cidade quando estavam com movimento ou na madrugada.

Não demorou muito pra cidade ficar pequena e a competição se expandir para as estradas entre cidades com pontos de chegada marcados.

Casei e continuei.

Não conseguia parar.

Uma mulher de família que era pra sossegar, deixar pra trás as aventuras, simplesmente não conseguia.

O conceito havia se instalado.

Mas o que era tão bom?

No começo, a adrenalina.

Depois, a emoção da conquista, do derrubar limites, limites que parecem nunca ter fim já que quando você atinge uma marca, sempre há outra.

O outro, o adversário, é apenas uma peça no jogo: o que tentamos superar é a nós mesmos.

Ir além do próprio limite é o que atiça e mantém alimentada essa vontade insaciável de ir.

O problema é que você está sempre "indo".

Quando chega, acaba a graça depois de alguns minutos.... ou segundos.

E o problema maior com isso tudo é que a velocidade se torna uma constante e não se consegue fazer mais nada a passos lentos.

Projetos, conversas, idas aos supermercados, viagens sozinho ou acompanhado: tudo tem que ser mais rápido.

Como um vício, você não tolera mais um baixo nível de adrena.

Tudo tem que ser intenso pra te tocar, como uma comida que começa a pedir pimenta.

E então, após 30 anos, comecei a me incomodar.

Acredite: aprender a desacelerar é muito mais difícil do que aprender a acelerar... e aguentar o tranco.

E como um viciado químico, senti o peso da abstinência.

Os músculos tremem, parecem estar bambos como cordas de violão afrouxadas.

Não foi fácil.

Vencer a tentação da velocidade é muito mais vitória do que percorrer alguns kms com todos os sentidos ligados a mil.

Ouvir o som das pequenas coisas, como o canto de um passarinho, um sorriso, é muito mais viagem do que o ronco provocante de um motor.

Hoje, eu utilizo a minha vontade nata de competir, para conseguir ampliar cada vez mais os meus sensores para entender o ser humano, a grandeza da vida, do simplesmente existir sem precisar superar nada. Sem pressão, sem pressa.

Essa é a verdadeira barreira a ser derrubada: entre os seres humanos.

A velocidade me fez sair do ritmo delicioso da vida, me colocou com um comportamento bruto, grosseiro, apressado, debochado, provocador, desrespeitoso, animal, insensato.

Ninguém vivendo assim conquista pessoas.

Nossa maior vitória.

Hoje crio campanhas publicitárias para o trânsito pacífico.

Eu posso dizer que não vale a menor pena que o trânsito seja diferente disso porque emoção mesmo é poder sentir e apreciar cada momento perfeito do ritmo ameno, constante e extasiante... da vida.

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Gilsara Mattos

Gilsara Mattos é escritora, roteirista, palestrante, publicitária e empresária. .
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