Gilsara Mattos

Gilsara Mattos é escritora, roteirista, palestrante, publicitária e empresária.

Envelhecer

Então agora vocês serão os "pais de seus pais". Sério?


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É muito comum ouvir dizer que temos que cuidar de nossos pais quando envelhecem, que trocamos os papéis, que os pais se tornam crianças, que nos tonamos pais e eles filhos.

Isso causa uma grande apreensão, frustração e confusão.

E eu discordo disso plenamente.

É certo que as pessoas quando envelhecem se tornam crianças?

Não, de forma alguma elas se tornam crianças.

Mas elas se libertam de todas as preocupações que lhes foram impostas e carregaram pela vida inteira, que como adultos, bem sabemos quais são, de sua intensidade e constância que nos ocupa e estressa.

Acredito que ao chegar à uma idade mais avançada, chegamos na verdade à uma idade mais privilegiada, pois passamos a ver as coisas com mais clareza e então vemos que na verdade viver é tão simples e o que complica são ações como querer conquistar muitas coisas e acreditar que o amor é ruim ou difícil.

Talvez pelo fato de que envelhecer nos permite ver melhor, passamos a rir tanto, brincar tanto exatamente por causa do que vemos.

E isso faz com que nos pareçamos com as crianças, que já elas chegam aqui pensando assim, dessa forma simples, vendo claramente as coisas, ou seja, "nós" chegamos aqui pensando direito, vendo tudo certo, e quando começamos a crescer nos deparamos com a maldade e isso nos faz também começar a sentir medo de errar, ao invés de confiança para aprender, vergonha de nós mesmos, ao invés de amizade, pressão para ganhar mais e mais dinheiro colocando a competitividade e a rivalidade em primeiro lugar, desamor ao invés do amor, correr pela vida ao invés de apreciá-la, tomar tudo quanto é medicamento para tornar nosso corpo atraente ao invés de poder conquistar só através de nossas qualidades.

Eu acredito que quando envelhecemos nos libertamos dessa idiotice toda tanto quanto uma criança já se comporta de forma livre porque é livre de tanta regra sem sentido, ou seja, "nós" quando crianças já chegamos livres, e por esse motivo, quando envelhecemos voltamos a ser livres e usufruir a liberdade que nos é natural de apenas viver e ser feliz por estarmos vivos em um lugar onde há tantas pessoas para conhecermos, para brincarmos, e então começamos a dar valor e a aproveitar o que realmente importa na vida, que é a própria vida.

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Então entendemos que brincar, sorrir, correr, gargalhar, ouvir, apreciar, se interessar, falar, perguntar, se deslumbrar, amar, comer, dormir, vestir o que tiver vontade, fazer a barba ou pentear os cabelos quando bem quiser, sem se importar com o que pensam de nós, porque na verdade isso realmente não importa já que cada um é um ser único se expressando, e ficamos finalmente a vontade para fazer tantas outras ações simples que antes a vida social corrida nos impedia pois tínhamos que criar uma imagem de perfeição (mesmo com todo mundo sabendo que isso não existe nem em si mesmo e nem em outro), podem fazer os filhos se arrepiarem de tanto susto se compararem seus pais "atuais" com os "velhos" pais austeros, exigentes, perfeccionistas, dinâmicos e imperativos, sempre sem tempo para brincar ou sorrir, mas que sempre "conheceram" e que lhes davam tanta segurança, apesar dos aborrecimentos e tristezas exatamente por nunca poderem parar para conversar ou brincar.

Resta-lhes agora apenas verem que esses "antigos" pais eram apenas personagens cumprindo funções ditadas por convenções sociais inúteis, visto a desorganização social em que todos vivem desde que o mundo é mundo, e que na verdade não levam à nenhuma felicidade prometida, pois a qualidade de vida que essa falsa organização social ensina se limita ao que conseguimos comprar, mas a felicidade vem simplesmente de amar e ser amado.

Viver tendo que contornar a depressão causada pela pressão social que exige sempre mais perfeição de seres imperfeitos em um mundo imperfeito é mesmo uma grande tolice só vista quando envelhecemos. Por isso sorrimos tanto, para não perdermos mais tempo!

Envelhecer é algo libertador onde você pode rir e falar, ou dormir, ou andar, ou não responder, quando bem quiser e entender. Não é assim que as crianças bem fazem?

Pois se você não quer ouvir é porque não é agradável ou não faz sentido, se não quer calar, é porque já chegou ao limite, se quer andar, é porque tem lugar melhor pra onde ir e que com certeza é mais legal do que onde está.

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O fato é que quando envelhecemos nos sentimos livres do nó da gravata que nos cala as melhores palavras e emoções, do salto alto que nos fadiga, do cabelo escovado que nos retira a identidade, da barba feita para que outros se sintam confortáveis, do cabelo cortado mesmo que você não queira ter o mesmo corte que o mundo inteiro, da unha feita dispendiosa, do terno engomado que engoma também nosso sorriso e nossa vontade de seguir.

Não comemos, não descansamos, não sorrimos e não mais conseguimos ver o verdadeiro horizonte onde o sol brilha grandioso, ocupados em ver novos horizontes para safar dos problemas o tempo todo.

Então, quando seus pais envelhecerem não se sintam pais deles, vocês continuam sendo filhos e eles sabem disso.

Continuem respeitando-os como pais porque são o que são. E além disso são verdadeiros heróis de terem conseguido encarar. e vencer, toda essa batalha que o mundo empurra no peito de todos, massacrando os sentimentos fazendo com que cresçamos já tristes aprendendo a suprimir a nós mesmos, em um mundo de adultos-pais estressados, levando-nos a pensar que vai ser melhor crescer logo porque terão chance de ser finalmente felizes correndo atrás também do pote de ouro ao final do arco íris...

E na verdade só vão se dar conta quando também envelhecerem, que essa é a maior pegadinha de todos os tempos, pois o ouro consistia o tempo todo em apreciar a beleza do próprio arco íris.

Então, se seus pais precisarem de vocês, façam o seu melhor assim como eles fizeram para vocês, mas não como se fossem crianças ou adultos insuficientes, mas por gratidão, por amor, por reconhecimento.

Façam tudo o que puderem para seus pais, isso é ser bons filhos.

Mas o grande lance é ajudar seus pais agora que ainda estão em campo, suando, brigando. Sabe como? Não exigindo o que não podem dar, não exigindo que baixem os punhos que mantêm altos para defendê-los, mas sorrindo para eles a cada momento que conseguirem desviar o olhar dos olhos dos adversários procurando os seus, dando-lhes muito carinho, reconhecimento, gratidão e amor, para que possam renovar suas forças para se cuidarem e terem uma enorme saúde quando estiverem livres de todas essas amarras que os impedem viver felizes.

Isso é o que lhes dará uma grande saúde, simplesmente porque a alegria gera saúde. Amor gera saúde. Gratidão gera saúde.

Diga-lhes o quanto os amam, o quanto são gratos, o quanto eles fizeram um bom trabalho.

E quando envelhecerem, saiam bailando juntos por aí dando boas risadas do mundo aproveitando para receberem deles toda sabedoria, atenção e mel que tanto seus pais desejavam dar a vocês mas não tinham força nem tempo quanto vocês desejaram receber, mas que não receberam porque seus pais estavam agindo como bocós não aproveitando a vida por não conseguirem enxergar que ela passa e que as melhores coisas não estão na correria, mas na calmaria, exatamente como vocês estão errando agora.

Mas não precisa ser assim! Vão lá ouvir as coordenadas para uma melhor caminhada!

E se você trabalha na área de psicologia, terapia, e semelhantes, crie formas para que pais e filhos possam interagir quando adultos, pois é isso que os pais e filhos precisam para que ambos se sintam juntos e exerçam a grande amizade que realmente têm, mesmo que bem lá no fundo, escondida sob palavras não ditas e sentimentos não compartilhados.

Pois se não fazemos isso vamos nos tornando estranhos e sendo tratados como tais à medida que o tempo passa. E o sofrimento e a solidão se instalarão de ambos os lados.

É isso. A vida é maravilhosa!

Divirtam-se exercendo o Amor.

Porque se não tiver amor, tudo parecerá uma grande merda. "Parecerá", mas você sabe... na verdade não é.

No entanto, só quando você envelhecer é que vai descobrir isso. Mas... por que não agora?

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Gilsara Mattos

Gilsara Mattos é escritora, roteirista, palestrante, publicitária e empresária. .
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