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Um Mundo Imerso Em Arte, Amor e Textos

Marcelo Normando

A Arte é Eterna

Do Inferno Ao Céu Com Norah

A história de Norah. Viveu o inferno para ascender aos céus, e viver o que sempre sonhou.


tumblr_mm3dqynVQi1rb4qnyo1_1280.jpg Norah, no que seriam seus últimos momentos

Seu corpo estava ali, estendido no frio asfalto noturno. Norah ainda consciente, mas em choque. De onde olhava, conseguia naquele momento ver o semáforo mudar a cor do vermelho para o verde. O som do motor distanciando-se, perturbava seus ouvidos, até que enfim, desapareceu. Restara o meio silêncio. Conseguia ouvir os cliques do sinaleiro mudando suas sistemáticas cores e a lenta brisa que harmoniosamente o acompanhava. Não se mexia. Apenas os olhos podia piscar.Naquele momento, percebeu que estava sóbria. Nunca estivera tão sóbria.

tumblr_lbn17k0i4T1qaxowvo1_500.jpg Todd e Norah

Foram seis longos anos entre idas e vindas com Todd, seu namorado, desde que tinha dezesseis anos de idade. Um filme em preto e branco começava a passar em sua cabeça, como trailers antes de um filme qualquer. Havia sido criada por pais protetores e de bons conceitos. Era a dita "moça de família". Infância rica de amor, carinho e estabilidade no seio familiar. Desde pequena foi prodígio. Filha de estrangeiros, moravam nos Estados Unidos, além do inglês, falava francês e alemão. Lembrou-se que havia tido uma pré-adolescência focada em responsabilidades, dividindo-se entre estudos e ajudando seus pais, donos da mais famosa doceria da cidade. Um leve sorriso em seu pálido rosto surgiu, em meio a um difícil respirar. Na mente, a lembrança vívida do cheiro do quente pão e do café das manhãs e fins de tarde. Mentalmente sussurrou: Foi um tempo bom.

mulher-dirigindo1.jpg O sonho de dirigir

Entrou na adolescência como qualquer garota. Dedicada, inteligente e educada. Norah era linda. Por dentro e por fora. Dona de longos cabelos lisos e olhos verdes. Tinha uma beleza natural que todos admiravam. Disso ela sabia. Mas genuinamente se importava com quem era e não com o que seu esteriótipo lançava aos olhos dos outros. Os dezesseis anos aguardava. Um de seus sonhos era dirigir. E enfim, esse dia chegou. Aprendeu como poucos e sempre cautelosa era ao volante. Nesta época, estava no segundo ano do ensino médio, em uma das melhores escolas da cidade. Aos poucos tornava-se uma mulher confiante, mas ainda vestia as roupas da inocência.

muito_dinheiro.jpg Todd e a ilusão

Um certo dia conheceu Todd. Nesse momento, Norah sentiu uma grande, confusa e desordenada mistura de sentimentos ao lembrar. Afinal, era muito por causa dele que ali no chão estava. Ele era três anos e dois meses mais velho que ela. Um popular filho de ricos. Sua família o criara com tudo do bom e do melhor. Nesta época já tinha dezenove anos e não sabia nem o que significava o trabalho. Não precisava. Tinha dinheiro para sustentar até seus futuros netos, se um dia viessem a nascer. O rapaz era um autêntico rebelde sem causa. Daqueles que criado foi pelo dinheiro, e de amor nada a ele havia sido ensinado. Mais um aspirante a peão em um jogo de interesses. Norah interessou-se por ele. Todos de fora da situação não conseguiam entender de que forma havia acontecido. Ela em sua natural imaturidade, enxergou nele liberdade, onde o que havia na verdade, era somente libertinagem. Em Todd confiou, quando o que ele por ela tinha era mais um interesse superficial.

drogas-post.jpg Viriam as desmedidas e vazias festas

Chegara a essa conclusão ali, estirada no chão. Era somente sexo e status. Conseguira apaixonar a menina inteligente, ingênua e mais nova. Auto-afirmação para com seus comparsas ditos "amigos". Não era vitimista, mas sentia ser o fim da sua vida. Ali cabia essa reflexão. No final das contas, ele havia lhe ensinado o que era sexo, bebidas e drogas. Nesses aspectos, Todd era o prodígio da vez. De início dizia que era só por diversão esporádica entre amigos. Depois, com ela comentou que era sensacional fazer sexo "chapado" de erva, despertando em Norah, a tal curiosidade. Como estava com seu namorado, ela experimentou e gostou. Sentia-se mais leve e mais sensível ao toque. Para ele, cada trago era só mais um "pega". Recordou que nessa época já bebiam juntos todos os fins de semana. Um dia, Todd estava muito bêbado e ainda era início de madrugada, na casa de amigos em comum. A fraternidade. Que nada de fraterna tinha. Norah viu o namorado retirar-se ao banheiro e foi ver se ele estava bem. Chegando lá, percebeu que Todd tinha um pequeno saco na mão direita e na esquerda carregava uma chave. Ela o surpreendeu com sua presença. Ele então explicou que era só para passar os efeitos da bebedeira, e assim poderia dar mais atenção a ela. Perguntou se ela queria experimentar. Norah, mais uma vez meio "alta", não viu mal em acompanhar. Afinal, era só essa vez. Logo estava imersa em um mundo ao qual não pertencia. Fumava todos os dias, bebendo e usando cocaína com seu amado Todd todos os fins de semana.

casal_discutindo_465.jpg

Passaram então a discutir constantemente. A atenção que ele um dia prometera, transformou-se em descaso. Norah tornara-se apenas seu feminino trincado reflexo. Não se viam mais durante a semana. Enquanto ela tentava equilibrar-se entre seus psicológicos vícios com o fumo e o trabalho na doceria, Todd a traía diariamente com diferentes "amigas" de faculdade. Nos fins de semana, entre um "tiro" e outro, seu temperamento tornara-se agressivo e enciumado. Os ciúmes sem sentido dele sempre estragavam as noites. Não faziam mais sexo. Até havia vontade. O que lhes faltava era condição física. Não comiam ou dormiam. Viraram um casal de "zumbis". Quando voltava a sobriedade, em meio a inevitável depressão, mesmo ali, agonizando, lembrava o quanto seu amor por Todd era verdadeiro, e ao mesmo tempo, o quanto por ele foi enganada. Pensou nessa hora que gostaria de não tê-lo conhecido. Lembrou de seus pais sempre amorosos e o quanto haviam alertado sobre o mau caráter de Todd. Pela primeira vez em muito tempo, lhes deu razão. Eles já não estavam ali para ouvi-la.

traicao_fidelidade.jpg A descoberta da traição de Todd

Aquela noite era só mais uma de um fim de semana qualquer. Bebidas e drogas como de costume. Nessa noite, Norah descobriu que seu namorado a traía. E da pior forma. Ninguém contou. Ela viu. Todd estava agarrado com uma de suas amigas da faculdade. Um mais "louco" que o outro. O chão sumiu de seus pés. Era como um filme, onde ela, agora era apenas parte de um triste cenário. Deixou a festa, que dessa vez, era perto da segurança de sua casa. Entorpecida pela cena e pelas drogas, ainda pôde ver o semáforo avermelhar para os carros. Sem pensar atravessou. Aquele carro surgira "do nada". Provavelmente, mais um alcoolizado em meio à madrugada cruzando mais um sinal vermelho. Sentia que eram seus últimos suspiros. Norah viu que teve a chance de repensar por instantes sua vida e pedir perdão por suas más escolhas. Ela o fez. Sentiu-se perdoada. Tinha uma boa essência que não fora destruída, apesar de todos os erros. Muito não foi por escolha, mas por amor. Seu único erro matriz de tentáculos mil, foi doar seu amor a quem não merecia. Mas estava em paz. Sabia que inteira havia sido. Ouvia sons de ambulância, enquanto a morte a rodeava de perto. Em último alcançar de seus olhos, pediu a Deus uma única chance para tudo mudar. Era muito jovem. Não queria morrer. Tinha muito a realizar. E em coma ela entrou.

familia-feliz-casal-e-filha.jpg A redenção

Foram muitas cirurgias e um belo dia após desacreditados meses, voltou à consciência em início de primavera. Não era mais a mesma. Havia ido do inferno ao céu, voltando a Terra para cumprir sua missão. Ensinar a amar e ser verdadeiramente amada. Todd morreu dois anos depois, apanhado por uma overdose de cocaína e bebida energética. Colheu o que em um dia distante plantou. Hoje, Norah casou-se e é verdadeiramente feliz. A doceira mais talentosa da cidade. Mãe de Sarah e esposa de Phillip. Esse por sinal, é um dos enfermeiros que lhe deu os primeiros socorros ali, naquela madrugada fria, enquanto ela agonizava. Sabia agora que o tempo não era dela e que apesar dos tropeços o amor existia. Phillip, mesmo sem saber se ela viveria, apaixonou-se sem ter nem mesmo recebido uma só palavra de sua boca.

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Viveram felizes. Juntos e honestamente ricos. Não só financeiramente, mas principalmente de pleno amor. Sarah, sua filha, virou médica, inspirada na história dos pais. E viu os mesmos embarcaram bem velhinhos em um sono sem fim. Juntos. Para acordarem novamente em um outro lugar. Onde em campos floridos, sentados de mãos dadas estariam, esperando o segundo sol chegar.


Marcelo Normando

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