Inês Petiz

Inês Petiz é artista. E não poderia ser nenhuma outra coisa.

O quarto dos preservativos: parte 1 e 2

A estranheza e o fascínio que nos prende o olhar a estas imagens que revelam o percurso sexual de uma mulher, lembra-me a curiosidade mórbida que quase todos temos em espreitar quando há um acidente na estrada. Como se ver o mal dos outros de alguma forma nos fizesse ficar aliviados por não sermos nós. Lembra-me também aquela sensação de admiração que sentimos quando alguém revela uma coragem inesperada num determinado acto. O “quarto dos preservativos” é uma provocação.


O quarto dos preservativos 1.jpg Júlia D., nome pelo qual se dá no Flickr, tem uma série de fotografias que abordam o tema do sexo de variadas maneiras. Porém, as duas imagens intituladas “Condom Room part one” e “Condom Room part two” (Quarto do preservativo parte um e dois) merecem uma reflexão extra.

Os preservativos aparecem alinhados pelas paredes do quarto, encimados pelas fotografias dos respetivos “donos”. No meio, só a cama, como palco onde decorre toda a performance. E a rapariga/mulher, dobrada sobre si mesma, numa posição de vergonha e solidão. Perturbador e interessante ao mesmo tempo, não é assim?

O quarto dos preservativos 2.jpg O cenário que as fotografias sugerem coloca uma série de questões. Para começar, qual a necessidade que aquela mulher sentiu para transformar o seu quarto num “condom room”. Poder-se-ia pensar que se trata de uma forma de mostrar as suas várias conquistas, mas o seu ar desolado parece indicar tratar-se antes de uma coleção dos seus fracassos, dos muitos homens que passaram pela sua cama, sem que nenhum permanecesse na sua vida. Por outro lado, pode ser uma provocação ao próximo homem que levar àquele quarto, um “vê se consegues fazer melhor” ou “és apenas mais um, não julgues que é amor”. Ou mesmo uma forma distorcida de apelar “tenta ser o último a figurar aqui, o que fica”.

Temos também a perspetiva masculina. Que tipo de homem se sente confortável num quarto como este? Como encaram o facto de após aquela noite de sexo, passarem a ser mais um naquelas paredes? Num comentário à primeira foto, alguém menciona que não sabe o que seria mais estranho, ter relações neste quarto “com imagens de todos os exploradores anteriores a encará-lo, enquanto ele percorre o mesmo caminho”, ou fazê-lo com zombies espetados em paus a encará-lo. Todavia, existe também a fantasia de conseguir entrar para a “Parede da Fama”, o orgulho de ser lembrado publicamente pelo grande feito.

Claro que todas estas ilações são feitas considerando que este é o quarto onde têm lugar as relações sexuais, pois existe também a hipótese de este ser um quarto a que apenas a mulher tem acesso, como um diário íntimo, escrito nas paredes, que grita o seu desespero.


Inês Petiz

Inês Petiz é artista. E não poderia ser nenhuma outra coisa..
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/Fotografia// @destaque, @obvious, eros //Inês Petiz