Inês Petiz

Inês Petiz é artista. E não poderia ser nenhuma outra coisa.

Um sonho em Veneza

Conto sobre uma Veneza que, um dia, alguém sonhara.


wallpaper-cidade-de-veneza-anoitecendo-3191.jpg Numa cidade em que o presente aprendeu a conviver lado a lado com o passado, as ruas estreitinhas e as pontes conduzem a um tempo antigo, a um sonho onde tudo é verdadeiro e genuíno. Ao longe, ouvem-se os turistas. As águas agitam-se levemente à passagem das gôndolas, que vão alegres e descontraídas, em conversas animadas e caóticas entre os viajantes e os gondoleiros que lhes mostram a cidade. Destaca-se uma gôndola preta que vagueia pelos canais como um fantasma. O seu gondoleiro não fala. Não olha sequer quem nela entra.

venetian_roads-1280x800-374759.jpeg Tudo borbulha à sua volta, pleno de vida e actividade. Os venezianos cumprimentam-se, como velhos amigos. Mas quem olhar com mais atenção, percebe uma certa falsidade no ar. Os vendedores gritam e gesticulam com os turistas, numa atitude familiar e repetida. Mostram tudo o que têm para vender, com o sorriso de quem sabe que vai receber em dobro. Também Veneza se transformara numa cidade de palavras, onde os subentendidos e os equívocos eram constantes e as aparências reinavam. Isso desiludia-o e levava-o a permanecer calado. Ano após ano, sem olhar ninguém. Quando jovem, aportara em Veneza e deslumbrara-se com a beleza e a verdade que emanava do próprio ar. Decidira ficar e construir a sua vida. Estudou e viveu de sonhos durante um ano. O suficiente para se aperceber que a sua vida, a sua Veneza, não passava de uma ilusão. Destroçado, usou o dinheiro que lhe restava para comprar uma gôndola. Venecia__Italia__Gondola_Wallpaper_ke9xg.JPGDesde então, vive do que os turistas deixam dentro da caixa, no fim da viagem, mesmo que ele não cobre nada. Esta tarde está ainda mais agitada, os venezianos correm apressados, com longas vestes nas mãos. O dia corre-lhe muito bem no trabalho, embora o gondoleiro não mostre qualquer expressão de contentamento. Aliás, não mostra qualquer expressão, seja do que for. O seu rosto permanece inexpressivo como sempre. Uma raiva intensa consome-o por dentro. A raiva de saber que todos anseiam pelo dia seguinte para apaziguar as consciências. Percorre os canais pela noite dentro. Sozinho. Sem parar, mesmo que o chamem, e assim vê amanhecer. Quando os primeiros mascarados surgem nas ruas, afasta-se para longe, a observá-los. O silêncio impera. Olhares sedutores, gestos calmos, pensados com o coração. Novo mundo e novas gentes enchem a ilha. Por um dia, aquela é a Veneza que sonhara quando novo e ingénuo. DOT_Italy_XXIII_Venice_Carnival_2003_37.jpg Muitos anos passaram desde essa época e com eles, muitos Carnavais. O gondoleiro está cansado, quer dormir e esquecer as pessoas. As pessoas que lhe destruíram os sonhos, a vida. Canta. Uma voz triste percorre os recantos, as sombras. Ninguém reconhece aquela voz. Tão clara… fala dentro da alma de cada um. Fala de sinceridade, carácter. Verdade. Os habitantes procuram a sua origem, em vão. É uma voz que não vem de parte alguma, parece vir de dentro deles. Dura dia e noite, até que, por fim chega o silêncio e uma máscara flutua nas águas brilhantes dos canais. As pessoas recolhem, sabem que nada mais será igual. Aquele Carnaval levou para sempre as suas máscaras e terão de aprender a viver de cara lavada. Aos primeiros raios de sol, Veneza está mudada, sem máscaras, verdadeira. Uma Veneza que, um dia, alguém sonhara.


Inês Petiz

Inês Petiz é artista. E não poderia ser nenhuma outra coisa..
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