the dance we do

- Fale-me, fale-me do mundo que não vimos distraídos que estávamos inventando léguas entre nós.

Priscila Wellausen

Ama cafeterias, cortinas brancas, os solos de Coltrane, sorvete de limão. Tem um peixe azul, um jarro de lavanda e um eterno desejo de chuva.

O aleatório esculpindo maravilhas

Ao demorar nosso olhar no banal, surgem deslumbramentos: uma simples gota de tinta em movimento cria imagens espetaculares, numa festa de formas de cor esculpidas pelo acaso. Subitamente, o mundo ganha uma amplitude inconcebível, quase intolerável: que encantos há sob nossos olhos que passam despercebidos?


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A tinta cria vida. Através de técnica e imaginação, pinturas são a vida manifestando-se na tela, florescendo do branco através de cores. A tinta sempre foi mero instrumento desta magia humana - até hoje. Dois projetos - Aqueous, de Mark Mawson, e Bring color to life da agência publicitária Dentsu - partem da premissa de que a tinta é a protagonista, com resultados surpreendentes e espetaculares. Agora, a tinta não apenas cria vida: ela está viva.

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Fãs do abstracionismo (e mais particularmente do expressionismo abstrato) perderão o fôlego diante de imagens de um novo mundo (o nosso mundo!) que nem desconfiávamos existir. Para o projeto Bring color to life, uma boa descrição (poética!) o definiria como “criar formas de cor através de som”, e seria bem apropriada.

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A técnica resume-se em esticar um balão sobre um alto falante, criando uma membrana sobre a qual são colocadas gotas de tinta; as vibrações do som fazem as gotas de tinta “pularem”, criando bailados de pura cor e som – literalmente! Claro que não é assim tããooo simples... Infelizmente, eu e você não podemos capturar estas imagens em casa, uma vez que para isso são necessárias câmeras profissionais com lentes ultra macro que capturem imagens em altíssima velocidade com riqueza de detalhes. Num mundo de imagens cada vez mais dependente de edição digital, é ainda mais impressionante saber que não houve nenhuma alteração nestas fotos: this is the real thing.

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Mark Mawson, por sua vez, também capta o comportamento da tinta: na sua série denominada Aqueous (há um portfolio de fotos e um vídeo no seu site, www.markmawson.com/#/), captura a reação da tinta ao cair na água.

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Em espirais etéreas de cor, acompanhamos sua mescla de tons, sua fluidez, suas mil formas – que vão desde espectros fantasmagóricos, ou figuras graciosas como uma bailarina...

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...ou aterradoras como uma explosão nuclear, até a completa metamorfose da imagem em uma paleta impressionista.

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O fulgaz ergue esculturas de pura cor por um milésimo de segundo que depois desaparecem para sempre – pois nenhuma destas formas jamais se repetirá novamente. O acaso é o grande escultor destas maravilhas: a cada freqüência sonora ou fluir da água, novos tons e formas singulares surgem ao nosso olhar assombrado para depois sumir antes que consigamos processar o que acabamos de ver. Tão acostumados a obras de arte pensadas, organizadas por um propósito e delimitadas pela lógica humana (às vezes bem questionável, mas ainda assim...), somos arrebatados pela beleza do aleatório e do fugaz, onde não há qualquer sentido pretendido: apenas pulso, forma, cor, movimento.

Vídeo de "Bring Color to Life", para Canon.

Ao assistir ao vídeo de Aqueous, é impressionante a delicadeza das curvas e linhas em movimento, a mescla de figuras irreais e insonhadas até aquele momento criando novas quimeras de cor... Só digo isso: o trabalho de Mawson merece mais visualizações que muito vídeo de gatinho do Youtube.

E assim, somos transportados a diversas dimensões surreais, de esculturas líquidas de vidro de murano a espirais quase etéreas de cor pura, e quando nos vemos perguntando onde serão estes mundos incríveis e longínquos... estão ao nosso lado, é nosso próprio mundo redescoberto. Percebemos (com algum sobressalto) o quão cegos andamos por nossa própria existência e quantos infinitos deslumbres são perdidos – inclusive neste exato momento.

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É assombroso imaginar que estas imagens e movimentos, esse sonho surreal de cor é um evento tão banal como uma gota de tinta em movimento. Subitamente, o mundo ganha uma amplitude inconcebível, quase intolerável: que encantos há sob nossos olhos que passam despercebidos? Você, que desatento segue pela rotina buscando maravilhas, ocupando todo seu tempo tentando driblar o enfado cotidiano por algumas migalhas de êxtase e sonho... que deslumbramentos estão sendo ignorados neste exato momento? O que você está deixando passar?

Ao demorar nosso olhar no banal, surgem as maravilhas.

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Priscila Wellausen

Ama cafeterias, cortinas brancas, os solos de Coltrane, sorvete de limão. Tem um peixe azul, um jarro de lavanda e um eterno desejo de chuva. .
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