the dance we do

- Fale-me, fale-me do mundo que não vimos distraídos que estávamos inventando léguas entre nós.

Priscila Wellausen

Ama cafeterias, cortinas brancas, os solos de Coltrane, sorvete de limão. Tem um peixe azul, um jarro de lavanda e um eterno desejo de chuva.

O rapaz de olhos tristes no canto da sala

Estamos numa pequena festa, algumas pessoas pela sala. Elliott Smith chega com duas taças de vinho, um blues toca ao fundo. Donovan está à porta, alguém vá atender, por favor. Damien Rice agora fala da viagem que fez mês passado, vamos até a cozinha ver o que tem no forno. Buckley cantarola distraído enquanto olha pela janela... E aquele rapaz ali no canto? Você conhece? Quem é ele?


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'Cause I’m down here in the dirt With the fossil of my heart

Muitos lamentam o grande vazio deixado por Elliott Smith e Jeff Buckley, os garotos tristes com violões, cujas canções têm um gosto de madrugada. A angústia delicada da voz de Jeff nos enleva e quase conseguimos ver seus olhos abatidos seguindo um amor perdido pela sala... “Twenty-nine pearls in your kiss / A singing smile / Coffee smell and lilac skin / Your flame in me”. Numa noite fria sob as estrelas de Memphis, ele desapareceu nas águas escuras do Wolf Harbor.

Elliot, por sua vez, alcança frestas esquecidas na escuridão de cada um, e seus versos sóbrios inauguram uma nova melancolia: “Drink up one more time and I'll make you mine / Keep you apart, deep in my heart / Separate from the rest where I like you the best / And keep the things you forgot”. Há algo por demais austero e doloroso nas suas linhas, algo que simplesmente não pode ser preterido por mais que não nos seja conveniente senti-lo.

It’s raining now on Royal Street And I’d walk to you if I could trust my feet

Mas ambos se foram; e quando pensávamos que só nos restaria a solidão (agora mais que nunca solitária) de vozes mortas numa noite sem amor, ou no granulado nublado de uma quinta feira, eis que nos aparece Damien e sua tristeza comovente. “Delicate”, “The Blower’s Daughter”, “9 Crimes” são alguns de seus trabalhos que já se tornaram clássicos desse estilo de folk abençoado por Leonard Cohen e Bob Dylan.

…Take another hit Let the bottle slip through your fingers and Break like a promise made…

Muitas vezes imaginei como seria uma noite com todos eles. Sobre o que falariam entre duas taças de vinho, que desventuras confessariam ao pé da escada, qual seria a música da reunião... ou se algum, já comovido pela bebida e o luzir pálido das estrelas, me revelaria o nome – da pessoa que ele perdeu, ou que nunca teve, aquela para quem ele canta... Mas este artigo não trata dos rapazes já conhecidos – pois esta reunião tem muitos comensais. Nossa atenção volta-se para o canto da sala. Ali está um rapaz calado e sozinho, seus graves olhos azuis acinzentados percorrem o cômodo (ficamos confusos com essa nova cor inventada e olhamos mais atentamente para seu rosto sério). Quem é? Ninguém parece conhecê-lo. Até que alguém chega e sussurra: “Lá está o Tom”. “Que Tom?” “Tom Mcrae.”

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Tom McRae é um dos mais bem guardados segredos da música. Até hoje, não conheci ninguém que já tivesse ouvido falar dele – o que é uma injustiça sem tamanho. Já com diversos álbuns lançados (já são seis desde 2000, quando estreou com álbum epônimo), ainda não recebeu o destaque de outros colegas.

A day like today Has stained my eyes

Apesar de sua voz magoada ter uma expressividade particular, engana-se quem o toma por um rapazinho deprimido com músicas tristes e cansativas. Tom McRae consegue acertar o passo tanto em baladas tristes como “Ghost of a Shark” ou “Cant Find You” como em músicas mais enérgicas como “One Mississipi” e “Sound of the City” (inevitável se pegar cantarolando “It’s the soooound of the city...” nas horas mais inesperadas do dia). Por vezes, ele assume um tom pessimista e não se isenta de tecer críticas irônicas à sociedade, com frases ácidas como “And leaders need a bloody war / Congratulation, this is yours / Looking through the history books / Of liars, cheats, and petty crooks”, ou “So close another file / of revolution turned to style / We’re so tired of walking blind / Growing fat in hungry times”. Assim, ele transita por vários ambientes confortavelmente sem se perder ou tropeçar – e ainda pega um canapé e uma taça de vinho no caminho.

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And I know I’m born with a prophet’s curse Never see the good, only see the worst But in time the snake will split his skin To reveal another snake within

Algo, porém, permeia todas as canções de Tom como uma constante inegável, desde seus primeiros trabalhos. Algo nunca mudou, impregnando sua voz com uma tristeza quase palpável, permeando todos seus versos: ele ama e sofre – arrisco até dizer que ama e sempre amou uma única pessoa. Em todas suas músicas há o fantasma de alguém perdido e há muito procurado por Tom, que com olhos vazios pela multidão arrasta-se entre uma canção e outra atrás de um rastro imaginário – um fantasma buscando outro.

From the ruins of my home Built a ship from skin and bone Nothing in the old world will keep me warm Like my love

E assim, McRae vaga por este mundo com seu coração partido, cantando melancolicamente. Admito que a cada nova música, fico curiosa sobre esta história inconclusa (in?)... Será que eles se encontraram desde então? Algo foi dito? Há uma chance? Quantas milhas há agora entre eles…? Correndo o risco de soar uma romântica piegas, não duvido que no fim, em seu ultimo suspiro, Tom ainda terá um único nome nos lábios.

And you raised me to be cruel You raised me like a bruise I’m bleeding still

*Todos os trechos citados em destaque são de músicas de Tom McRae.


Priscila Wellausen

Ama cafeterias, cortinas brancas, os solos de Coltrane, sorvete de limão. Tem um peixe azul, um jarro de lavanda e um eterno desejo de chuva. .
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