the dance we do

- Fale-me, fale-me do mundo que não vimos distraídos que estávamos inventando léguas entre nós.

Priscila Wellausen

Ama cafeterias, cortinas brancas, os solos de Coltrane, sorvete de limão. Tem um peixe azul, um jarro de lavanda e um eterno desejo de chuva.

O rosto deformado e irreconhecível do Estado democrático

O indivíduo eleito é o representante do povo – esta expressão já está tão surrada que ninguém reflete sobre seu sentido: ele É o povo. A partir do momento que o povo não reconhece mais seus políticos como seus representantes, sua legitimidade rui. A própria justificação de seus mandatos perde o sentido, e eles são mantidos por puro formalismo legal. Desta forma, o que nos sobra é um Estado que tem “Democracia” na embalagem, mas não na sua alma.


“Somos nós, representados.”

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Esta semana, passei por uma banca e vi uma capa de revista que me fez parar. Em letras garrafais, dizia “QUEM SÃO ELES?”. Ora, quem são eles.. quem? Logo estanquei. A imagem lembrava um terrorista ou um bandido, e imaginei que fosse algo relacionado a isto... até ler o subtítulo.

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Parei por um momento, com um semi-riso de espanto. “Quem são eles? Como agem? O que pensam? E até onde querem chegar?”. Vamos lá, você também pensou: é hora do Globo Repórter! Um tanto perplexa, abri a revista esperando encontrar um relato testemunhal em primeira mão do que comem estes estranhos seres, ou que língua falam, de onde vêem; em vez disso, vi um desfile emblemático do reacionarismo mais encarniçado, tão engajado em desmoralizar cada aspecto e reivindicação da manifestação que nem sequer tentava esconder sua escandalosa parcialidade.

“Que imagem mais obscura para um propósito tão claro dos manifestantes.”

Resolvi ir até a página da Época no Facebook para deixar registrada minha opinião, e o que vi foram mais de 850 respostas à capa da revista. Vários dos comentários estão espalhados ao longo deste artigo, e mostram a indignação geral diante da estratégia editorial de deslegitimar o movimento popular. Um dos comentários, dito por mais de uma pessoa, me chamou muito a atenção: “Somos nós, representados”. Ele é tão importante porque, conscientemente ou não, tocou num tema sobre o qual já venho há muito refletindo e considero vital para o debate político atual: a questão da legitimidade.

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Este tema é a própria fundamentação do regime democrático: o povo, não podendo estar em sua totalidade presente para decidir todas as questões políticas, legislativas, administrativas, jurisdicionais, elege seus representantes – como alguém que passa uma procuração. Aquele indivíduo eleito é o representante do povo – esta expressão já está tão surrada que ninguém reflete sobre seu sentido: ele É o povo. E a partir do momento que o povo não reconhece mais seus políticos como seus representantes, sua legitimidade rui. A própria justificação de seus mandatos perde o sentido, e eles são mantidos por puro formalismo legal. Desta forma, o que nos sobra é um Estado que tem “Democracia” na embalagem, mas não na sua alma.

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“Igualitarismo ? Soberania popular? AI QUE MEDO!!! O que será feitos de nossos privilégios? Mariiiiiia!!! Me traz um copo d'água agora e meu Rivotril!”

E o que fazer quando o grande titular do poder, o mandante que passa procurações (algumas levianamente, assinando sem nem ler), resolve que não está satisfeito? Quando ele resolve revogar algumas dessas procurações e mudar os rumos decididos sem sua concordância? O dono da casa está de volta – e ele terá que lutar para reaver o que é seu.

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Pois acontece uma situação muito peculiar, se vista em termos práticos: o sistema criado para proteger a democracia impede que a própria democracia floresça. O aparato estatal ganhou contornos perversos ao sufocar manifestações populares justas e legítimas, e sua função – proteger o povo mantendo a ordem – foi totalmente deturpada: proteger a ordem reprimindo o povo. Já a mídia corporativa, sempre alinhada com os interesses dos mais poderosos, dá o tom da sinfonia de repressão e arbitrariedade – vimos diversas manifestações emblemáticas, desde Arnaldo Jabor na Globo, a Época e a Veja, Datena na Band...

“Eles são o Brasil acordando sem gostar do que foi feito enquanto dormia em berço esplêndido (ou nem tão esplêndido assim)”

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E pra quem diz que manifestações e protestos não dão em nada... se tivessem pensado assim, os revolucionários do passado não teriam derrubado reis e impérios – a Grã-Bretanha ainda tem um gosto ruim (de chá) na boca desde a Revolta de Boston em 1773 (evento chave para a Revolução Americana) e depois daquele baixinho carequinha indiano; da mesma forma, não teriam sido erigidos regimes democráticos sustentados na defesa de direitos humanos, ou revoluções que derrubaram séculos de imperialismo parasita (cof cof Cuba cof cof).

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O Estado democrático está com seu rosto deformado e irreconhecível, e elevam-se vozes a favor de novos legitimados – não mais aquelas figuras distantes, com sorrisos falsos, ternos finos e intenções sombrias. Nos comentários do Facebook, o mais recorrente respondia à capa da revista singelamente: “Eles somos nós”.


Priscila Wellausen

Ama cafeterias, cortinas brancas, os solos de Coltrane, sorvete de limão. Tem um peixe azul, um jarro de lavanda e um eterno desejo de chuva. .
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