the dance we do

- Fale-me, fale-me do mundo que não vimos distraídos que estávamos inventando léguas entre nós.

Priscila Wellausen

Ama cafeterias, cortinas brancas, os solos de Coltrane, sorvete de limão. Tem um peixe azul, um jarro de lavanda e um eterno desejo de chuva.

“But I still have to face the hours, the hours after the party…”

A solidão, como uma mosca desagradável, nos sobrevoa e zumbe sua cantiga monótona e vazia em nossos ouvidos – e por mais que a afugentemos, ela nunca está longe. Os holofotes que jogamos sobre nossa vida nos cegam e nos dão a (agridoce) ilusão de haver alguém na platéia – mas estamos sós sob uma luz inútil e indiferente.


ddddd_n.jpg

Estava hoje ouvindo uma de minhas canções favoritas de Dave Matthew’s Band, #41, e há um certo trecho que sempre me nocauteia por sua beleza e tristeza: I used to sing for all the loneliness that nobody notices now. E me ocorreu que, hoje em dia, a solidão não é apenas ignorada – ela tornou-se a nova fobia moderna.

Todos conhecemos alguém que não consegue estar desconectado. Celular, smartphone, tablet, chats, e-mails, notebook – o sonho de abolir a solidão parece mais realizável que nunca. Há quem não consiga aproveitar uma refeição se não compartilhá-la com toda sua lista de amigos; se não publicar fotos da viagem, é como se ela não tivesse acontecido; qualquer mínimo acontecimento do dia precisa ser divulgado, dividido, exposto, analisado, até que nada esteja longe do olhar coletivo, destrinchado em dezenas de comentários – uma verdadeira necropsia pública do banal.

Mas por que esta necessidade de compartilhar tudo, o tempo todo? Por que esta ânsia desenfreada de estar ligado a alguém – mesmo que este alguém seja abstrato e indeterminado, resumindo-se numa curtida ou num comentário desimportante? Saber-se feliz já não é o bastante, é preciso a legitimação de toda a longa lista de ilustres desconhecidos do Facebook. Sentir é apenas um evento a ser compartilhado com seus milhares de amigos (amigos?), pois sem eles não teria sentido nem razão – seria um sentimento sem propósito. O propósito agora é ditado por quantas pessoas “se importam” – e este importar-se é tão oco e vazio que não resistiria a um olhar mais atento e cuidadoso.

Pois esta é uma curiosa farsa coletiva. Estamos todos cientes da fragilidade destes laços eventuais e insípidos, e sabemos que não podemos exigir mais que aquele contato virtual superficial; ainda assim, movemos nossa vida ao redor disso, procurando não pensar muito no quão vazias são nossas colunas de sustentação (“Não pensar muito” é um bom mantra – pois há muito tempo você decidiu que o melhor mantra é aquele que lhe permite dormir bem à noite).

Sabemo-nos sós, mesmo com centenas de amigos virtuais, mesmo com milhares de curtidas e comentários. A solidão, como uma mosca desagradável, nos sobrevoa e zumbe sua cantiga monótona e vazia em nossos ouvidos – e por mais que a afugentemos, ela nunca está longe.

Bauman discorre sobre isso: “Preferimos investir nossas esperanças em “redes” em vez de parcerias, esperando que em uma rede sempre haja celulares disponíveis para enviar e receber mensagens de lealdade. Esperamos compensar a falta de qualidade com a quantidade. (...) Os rastros deixados por essa busca por segurança parecem, contudo, um cemitério de esperanças destruídas e expectativas frustradas, e o caminho à frente está salpicado de relacionamentos frágeis e superficiais. O chão não está mais firme à medida que caminhamos; parece mais lodoso e inadequado para nos assentarmos sobre ele. Estimula os caminhantes a correr, e os corredores a aumentar sua velocidade.”.

Assim, por mais que desviemos o olhar, os olhos imensos e estáticos da solidão estão pousados sobre nós. Não importa o quão longa seja a festa, ela terá um fim. Não importa quantos amigos haja no chat, uma hora você terá que desligar. Ainda que todos curtam sua foto do jantar, ainda será sua boca solitária a mastigá-lo lenta e dolorosamente.

...But I still have to face the hours, dont I? The hours after the party, and the hours after that…


Priscila Wellausen

Ama cafeterias, cortinas brancas, os solos de Coltrane, sorvete de limão. Tem um peixe azul, um jarro de lavanda e um eterno desejo de chuva. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/artes e ideias// //Priscila Wellausen