the dance we do

- Fale-me, fale-me do mundo que não vimos distraídos que estávamos inventando léguas entre nós.

Priscila Wellausen

Ama cafeterias, cortinas brancas, os solos de Coltrane, sorvete de limão. Tem um peixe azul, um jarro de lavanda e um eterno desejo de chuva.

Uma fábula do horror moderno: A escuridão que nenhuma luz anula

A vida em sociedade, que deveria, com suas luzes, afastar as trevas da floresta mais escura de nossos ancestrais, revelou-nos diabolicamente uma nova escuridão, mais terrível que aquela de nosso passado – uma escuridão que nenhuma luz anula, residente no próprio coração da civilização, filha dos homens, escuridão que não acaba com o fim da noite.


O medo é mais assustador quando difuso, disperso, indistinto, desvinculado, desancorado, flutuante, sem endereço nem motivo claros; (...) quando a ameaça que devemos temer pode ser vislumbrada em toda parte, mas em lugar algum se pode vê-la. “Medo” é o nome que damos à nossa incerteza: nossa ignorância da ameaça e do que deve ser feito – do que pode e do que não pode – para fazê-la parar ou enfrentá-la, se cessá-la estiver além do nosso alcance. Zygmunt Bauman

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Vivemos na era da hipérbole dos medos. Mais que nunca, o grande catálogo de medos cresce a cada dia*, construindo uma verdadeira mitologia do terror – medo do câncer, do desemprego, do incêndio, do estuprador, da gripe suína, do acidente de carro, da traição, do assalto, do maníaco, da solidão, da bala perdida, das rugas... Abra o jornal, e rapidamente descobrirá mais um perigo iminente à espreita, imprevisto e muito mais próximo do que se poderia supor. A vida contemporânea tornou-se uma constante luta contra o que nos aguarda na neblina – sim, pois “o ambiente de nossas vidas está envolto em neblina, não na escuridão total (...): na neblina, a pessoa é livre, mas é a liberdade de uma pessoa na neblina”*. Vemos um pouco à frente, apenas o suficiente para saber (aterrador saber) que não podemos administrar a imensidão de perigos ainda ignorados – e que provavelmente sucumbiríamos a um ataque surpresa.

E sem armas, esperamos. Acreditamos fazer o possível para evitar o pior – mas o possível é impossível. Seja belo, magro, coma nos melhores restaurantes, seja inteligente, bem sucedido, disposto, competitivo, rico, mas dinheiro não compra felicidade! Estude, leia, corra, repouse, evite sair tarde, esteja na balada do momento, compre, vista, consuma, mas quem gosta de trabalhar? Arranje tempo para a família, seja saudável, fique atento aos problemas dos seus filhos, esteja informado, faça terapia, pague as contas, durma bem, mas como dormir quando há tanta coisa na lista para ser amado e respeitado? Contrate um seguro, ou dois, ou todos os seguros possíveis; cubra todas as possibilidades de catástrofe iminente. Ah, e relaxe.

Esta mitologia do terror tem como maior arquiteta a mídia, a grande vitrine do medo da era pós-moderna, e encontra terreno fértil na mente sobressaltada de cada um. Já predispostos a esperar pelo pior (em todas as suas concepções), abraçamos medos fabricados como se sempre tivessem sido nossos (apenas não sabíamos ainda – abençoados jornais, que nos despertam para nossos pavores adormecidos!) – medos estes legitimados e confirmados pela experiência registrada, publicada, debatida, filmada e catalogada pelos meios de comunicação. E imersos em sucessivos contos de horror, não questionamos por um segundo a pontualidade daquele evento designado pela mídia como o grande arauto emblemático do caos atual – casos aberrantes são tomados como paradigmas, que sem dúvida voltarão a se repetir muitas vezes em qualquer (e todo) lugar.

Desta forma, vivemos num cenário de cuidadoso cultivo e manutenção de níveis controlados de pânico – sim, o que se afigura como uma contradição lógica ganhou lugar cativo na Era dos Absurdos. Nunca houve tão imensa epidemia de transtornos ansiosos, admitidos ou mascarados, e nunca nos foi tão pesado o temor do amanhã, do hoje, do próximo instante. A vida em sociedade, que deveria, com suas luzes, afastar as trevas da floresta mais escura de nossos ancestrais, revelou-nos diabolicamente uma nova escuridão, mais terrível que aquela de nosso passado – uma escuridão que nenhuma luz anula, residente no próprio coração da civilização, filha dos homens, escuridão que não acaba com o fim da noite.


Priscila Wellausen

Ama cafeterias, cortinas brancas, os solos de Coltrane, sorvete de limão. Tem um peixe azul, um jarro de lavanda e um eterno desejo de chuva. .
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