the dance we do

- Fale-me, fale-me do mundo que não vimos distraídos que estávamos inventando léguas entre nós.

Priscila Wellausen

Ama cafeterias, cortinas brancas, os solos de Coltrane, sorvete de limão. Tem um peixe azul, um jarro de lavanda e um eterno desejo de chuva.

“...we are strange allies with warring hearts...”

O amor como duelo, em que o oponente ideal não é aquele que o derrota, mas que o faz querer continuar no combate.


Go to him, stay with him if you can …but be prepared to bleed

Ambos encaram-se demoradamente. Perscrutam o outro, movem-se lentamente, medem os passos do oponente. A tensão é quase palpável e o espaço entre eles é preenchido com todos seus temores, expectativas, desejos.

O modelo clássico de romantismo não me atrai. Não me interessa o amor clichê, em que almas gêmeas encontram-se sob a boa sorte das estrelas, facilmente sabem-se apaixonadas, suspiram, abraçam-se, fazem juras e promessas. O romantismo feijão-com-arroz, modelo pronto de filmes hollywoodianos, me soa fácil e raso, vazio e pobremente definido.

Atrai-me a arte que se debruça sobre o surgir do encanto, sobre o ceticismo que é demovido pela emoção, sobre a imprecisão do não saber – não saber quem é aquele diante de si e que terríveis forças ele pode exercer sobre seu destino, forças estas que você não pode nem deseja repelir. Não quero o embalo manso da valsa, mas a fúria impetuosa do tango: não me interessa o amor como dócil aceitação, mas o amor como combate.

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Um dos mais belos romances que vi é o de Irene Adler e Sherlock Holmes no seriado inglês da BBC. Ao longo de todo o episódio, vemos o encontro de dois duelistas que nunca conheceram oponente à altura e agora vêem (assombrados/assustados/consternados) seus golpes serem aparados e suas intenções compreendidas – mais que simplesmente expostas, mas compreendidas. Nenhum beijo se faz necessário para traduzir o que há entre eles. Ardis e mentiras permeiam este embate, mas a trapaça mais vil num jogo de embusteiros, o não-amor, simplesmente não é um golpe aceitável.

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Yes, filme primoroso de Sally Potter, mostra o confronto íntimo entre Ela, cientista, inglesa, rica, e Ele, libanês e cozinheiro, um cidadão de 3ª classe num mundo pós 11/09 (sem nomes, os personagens são despersonalizados, e assim, universalizados). Presa num casamento sem amor com um marido infiel e desiludido, encontra n’Ele um aliado e oponente – ao longo do filme, vemos a tentativa de diálogo entre a clareza da razão e o fogo dos impulsos, até o ponto em que esta polarização desaparece: ambos encontram a si mesmos no outro. No espaço entre eles há todo o ódio e preconceitos de dois mundos abissalmente diferentes; ainda assim, a distância entre ambos é menor que a imensidão da mesa de jantar entre Ela e seu marido (a cenografia desta cena do jantar exprime brilhantemente o deserto árido e vazio em que seu casamento falido transformou-se).

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Seus movimentos encontram-se e completam-se. Acostumados a sempre ter ditado o ritmo do duelo, descobrem-se agora numa dança nunca antes ensaiada, mas compreendida por ambos, dança que há muito aguardavam. Intuitivamente atacam, e intuitivamente bloqueiam – a distância é perfeita, os golpes precisos, a cadência impecável.

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Já em Secretária, há um dos mais provocativos embates que vi. A relação entre eles é permeada de tensão (necessária e desejada) e sensualidade: a aproximação entre os dois assemelha-se a quem esteja apalpando no escuro, e à medida que os olhos acostumam-se a esta treva estranhamente familiar, ambos permitem-se ser plenamente, sem necessidade de acordos ou concessões.

Agora entendem: reconhecem no outro o que buscavam, e exultam, e apavoram-se. Já não são mais dois singulares: eles sabem que ganhar e perder são a mesma coisa agora. À medida que cada um, intrigado, investiga seu par, rompe distâncias seguras e adentra em domínios desconhecidos – o amor, este enigma do desejo.

Eis, enfim, o inimigo há tanto tempo procurado e amado.


Priscila Wellausen

Ama cafeterias, cortinas brancas, os solos de Coltrane, sorvete de limão. Tem um peixe azul, um jarro de lavanda e um eterno desejo de chuva. .
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