the dance we do

- Fale-me, fale-me do mundo que não vimos distraídos que estávamos inventando léguas entre nós.

Priscila Wellausen

Ama cafeterias, cortinas brancas, os solos de Coltrane, sorvete de limão. Tem um peixe azul, um jarro de lavanda e um eterno desejo de chuva.

Os parasitas emocionais que nos tornamos

“You’re everything to me.” “I cant live without you.” “My heart is yours.”
Desde quando deixamos de nos bastar para nos tornarmos parasitas emocionais?


971214_502459629807484_1156324800_n.png

Ligue o rádio e ouça a primeira música que tocar. Pense nas últimas comédias românticas que você assistiu. Veja as primeiras músicas da sua playlist. Lembre do último livro que você leu. Pense em algumas de suas músicas preferidas.

O que muitas delas têm em comum, não importa o gênero ou época? Expressões como “I cant live without you”, “You are my world”, “You’re everything” e similares, e a exaltação de um amor submisso e dependente. Parando para refletir, é inevitável se perguntar: desde quando deixamos de nos bastar para nos tornarmos parasitas emocionais?

“I’m yours”. Não, você não tem dono, não é coisa que se possa dar, não é mulambo que se possa perder na bagunça da casa, em meio a quinquilharias velhas.

Você pertence a si mesmo, e não pode delegar tal responsabilidade a ninguém – ela é sua e somente sua, seu maior fardo e maior privilégio.

“Você é tudo para mim”. Feche os olhos e respire fundo. Este fôlego de vida não foi concessão benevolente de nenhum outro humano, seu semelhante; no vasto álbum de todas as suas lembranças, você é a única presença constante e inafastável.

“My heart is yours”. Não, seu coração não é de outra pessoa – ele é SEU, e está neste momento bombeando SEU sangue, para SUAS veias, sem a influência de ninguém. Ainda que muito queiram, não poderão pará-lo em seu ímpeto apaixonado em manter você vivo, íntegro; e cada passo seu, cada piscar de olhos, cada momento de consciência é uma afronta a essa rendição a um senhor ilegítimo.

Teu coração não conhece senhor algum além de ti mesmo.

Agora você diz: “Mas isso é um exagero, são apenas expressões, é uma forma de falar! Não se pode ser radical e levar tudo ao pé da letra!”. Mas uma idéia não se transmite apenas pelo conteúdo da mensagem – a maneira como se diz, as palavras usadas, a forma de enunciá-la. Estas expressões que reforçam a mentalidade quase infantil de um amor dependente, subserviente, parasítico, são por tanto tempo repetidas, remaquiadas, exauridas, até soar natural dizer “não posso viver sem você” – até isso parecer ok! (como se fosse saudável condicionar seu ser, sua alma e existência aos caprichos e vontades de outra pessoa). E essas simples expressões lentamente constroem um modo de pensar, tornando-se uma mentalidade, uma forma de encarar relações através da auto-anulação. Não nos bastamos mais – somos parasitas emocionais, que não vêem alegria na individualidade e no estar só, mas que precisam encontrar a felicidade na areia movediça das relações. E o mais irônico é que nossa sociedade aceita e reafirma esta visão de mundo em cada música, filme, verso, livro, imagem, texto, em cada delirante fantasia de relações que funcionam como um moto contínuo sentimental para seu próprio bem estar. Não, a resposta não está no outro – por mais que o refrão da sua música preferida diga que sim.

Em muitos anos, poucas vezes vi algo fugir dessa linha de pensamento... uma grata surpresa se deu ao assistir ao filme “Dizem por aí”, comédia romântica americana bobinha e medíocre. Tinha tudo para ser apenas mais um filme nos moldes do amor hollywoodiano, mas a cena final trouxe uma frase única e memorável, em que a protagonista encara seu par romântico e diz:

I didnt come here to tell you I cant live without you. I can live without you. I just dont want to.*

*Eu não vim até aqui dizer que não consigo viver sem você. Eu consigo viver sem você. Eu apenas não quero.


Priscila Wellausen

Ama cafeterias, cortinas brancas, os solos de Coltrane, sorvete de limão. Tem um peixe azul, um jarro de lavanda e um eterno desejo de chuva. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/artes e ideias// //Priscila Wellausen