the dance we do

- Fale-me, fale-me do mundo que não vimos distraídos que estávamos inventando léguas entre nós.

Priscila Wellausen

Ama cafeterias, cortinas brancas, os solos de Coltrane, sorvete de limão. Tem um peixe azul, um jarro de lavanda e um eterno desejo de chuva.

#2 “Nada se cria, tudo se transforma”: covers brilhantes

Um cover bem feito presta uma homenagem digna a uma obra prima; um cover brilhante ressignifica a música e torna-se uma obra prima em si mesmo.


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WHAT A FEELING - MARC COLLIN & YAEL NAÏM

Essa versão nasce de um projeto de Marc Collin denominado "Hollywood, Mon Amour", buscando criar covers surpreendentes a partir de grandes músicas de filmes dos anos 80. A versão frenética e contagiante de Irene Cara, tema do filme Flashdance, transformou-se numa canção romântica, extremamente doce e suave, como quem sussurrasse segredos de amor ao ouvido.

Os sintetizadores deram lugar a um piano terno e à voz gentil de Yael Naim. Na ebulição das danceterias, Irene fala de superar o medo e entregar-se ao ritmo; com Yael, essas mesmas palavras falam do amor em meio a um mundo frio e sem vida, tornando-se uma elegia à redenção: What a feeling / Beins' believing.

BACK TO BLACK - BEYONCÉ & ANDRE 3000

Antes que falem, registre-se na ata, não, não, não, não digo que Beyoncé seja melhor intérprete que Amy Winehouse - apenas que o tom do cover de Knowles e André 3000 tem uma atmosfera muito mais opressora, numa cadência mais lenta e tons mais sombrios que o original. O tom jazzístico do original de Amy, extremely classy, dá lugar a um instrumental mais pesado e batidas eletrônicas, criando uma composição sonora que traduz melhor a desesperança e caos emocional do fim da relação.

A interpretação sinuosa de Knowles, sem seus habituais exageros vocais, caiu como uma luva nesse cover, já que a personagem é uma mulher exaurida pelo abandono e solidão – cair na armadilha de transformar essa música em vitrine do potencial vocal da cantora teria sido um erro mortal.

Apesar de ser inegável a entrega emocional de Amy no original, esse cover merece ser lembrado por captar a sensação sombria de “Back to Black” (trocadilhos devidamente anotados).

I FOUND A REASON - CAT POWER

A versão de Velvet Underground poderia servir como tema romântico de bailinho – aquele momento que todos os casais esperam, o rosto repousando ternamente no peito do namoradinho, a cadência lenta e acalentadora, o respirar compassado, um momento fugaz em que se descobre o coração do outro batendo mais rápido...

Já Cat Power está sozinha. Totalmente exposta diante do outro, olhos postos nele, canta, fala-lhe, “Come to me”; tudo que ela pode fazer é esperar, e é pungente seu pedido e palpável a ansiedade pelo que está por vir. Com poucas palavras (na verdade, a música inteira são apenas três frases, num minimalismo delicadíssimo), ela lança tudo à mesa - suas expectativas, inconstâncias e anseios mais pessoais.

O PASSAGEIRO – CAPITAL INICIAL

Capital Inicial fez uma versão muito mais sóbria do clássico de 1977 de Iggy Pop. Para mim, essa versão mais grave seria perfeita com a voz amarga do próprio Iggy Pop - mas não se pode ter tudo na vida.

Ao ouvir ambas as versões, vemos dois passageiros distintos: na versão de Iggy Pop, mais rápida e agitada, nos encontramos com um farrista no sábado à noite passeando pela cidade, e esse é o auge de sua juventude e vigor, num momento em que as luzes da cidade convulsionam e o convidam a viver além do possível, além do provável (o álbum é bem denominado "Lust for Life").

Na versão acústica do Capital Inicial, encontramos um passageiro cansado, percorrendo subúrbios escuros e buscando alguma luz perdida na cidade, alguma luz esquecida pelos astros. Não há a vida luxuriante e intensa de um jovem sem rumo; antes, temos um observador rodando e imergindo no que a cidade tem de mais desalentador e belo... Veremos a cidade em trapos/veremos o vazio do céu/sob os cacos dos subúrbios daqui.

E assim, a mesma frase ("He sees the things he knows are his" / "Então vamos rodar e ver o que é meu") assume sentidos profundamente diversos para cada um dos passageiros - e apesar de passar pelas mesmas ruas, eles não enxergam as mesmas coisas.


Priscila Wellausen

Ama cafeterias, cortinas brancas, os solos de Coltrane, sorvete de limão. Tem um peixe azul, um jarro de lavanda e um eterno desejo de chuva. .
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