toda prosa

e talvez um pouco de poesia

Lia Bianchini

Tentando sobreviver ao tempo, esse mesmo, que destrói tudo.

O que o sucesso de Lana Del Rey diz sobre nós

*Este artigo é apenas uma constatação e não uma crítica (no sentido negativo da palavra).


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Domingo, saindo do show de Lana Del Rey, no Citibank Hall do Rio de Janeiro, ouço uma segurança do local falar para seu colega de trabalho:

“- Essa mulher só canta música depressiva.”

Fiquei pensando na frase e tive que concordar, minimamente, afinal as músicas da cantora não são as mais agitadas, dançantes ou “alegres” que se conheça.

Mas o quê faz, então, com que Lana Del Rey tenha milhares de fãs, em sua grande maioria, jovens que, imagina-se, podem gostar de tudo, menos de uma música “triste”?

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A resposta parece-me simples: Lana é a cara da sociedade atual, essa que, por seu aspecto globalizado, tornou as relações entre os indivíduos mediadas por uma tela, pela tecnologia, aproximando-os e distanciando-os, paradoxalmente. Essa sociedade interligada por redes, que faz com que tenhamos a necessidade de conectarmo-nos com diversos outros indivíduos, mas que não nos proporciona meios de realizarmos tal tarefa efetiva e fisicamente, tornando-nos seres em constante solidão.

Consciente ou inconscientemente, desde sua primeira aparição, onde cantava: “They say that the world was built for two/Only worth living if somebody... is loving you”, Lana Del Rey construiu suas letras refletindo a batalha individual que cada ser trava consigo mesmo, interior e solitariamente, característica maior de nossa geração.

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O surgimento da cantora, aliás, diz tanto quanto suas músicas: Lana ganhou visibilidade através da internet, onde está inserida a grande maioria (se não a totalidade) de seus fãs. Meio fundamental de retroalimentação desse estado solitário no qual vivemos, ainda que, on line, estejamos cercados por “amigos”.

A internet, parafraseando Zygmunt Bauman, é onde somos solitários em meio a uma multidão, aspecto esse que perpassa as diferentes ações e relações que realizamos no dia-a-dia. Talvez por isso, por esse incessante conflito individual em que vivemos atualmente, as paixões, desilusões e obsessões cantadas por Lana Del Rey sejam tão agradáveis aos ouvidos de inúmeras pessoas, mesmo soando um tanto quanto depressivas.

Não minimizo a importância que o talento, o carisma e a simpatia da cantora detêm. No entanto, o contexto a que estamos inseridos contribui fundamentalmente para seu sucesso, afinal toda ação é definida pela ordem social à qual está submetida.

Desse modo, voltando à frase da segurança: sim, as músicas podem ser “depressivas”, mas no fundo, no fundo, só refletem a crise social pessoal que nos está interiorizada.


Lia Bianchini

Tentando sobreviver ao tempo, esse mesmo, que destrói tudo..
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