toda prosa

e talvez um pouco de poesia

Lia Bianchini

Tentando sobreviver ao tempo, esse mesmo, que destrói tudo.

Azul é a cor mais quente

O romance existencialista do ano


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“Em primeira instância, o homem existe, encontra a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define.” A frase, de Jean-Paul Sartre, adequa-se perfeitamente ao enredo de “Azul é a cor mais quente”, novo filme do diretor tunisiano Abdellatif Kechiche, ganhador da Palma de Ouro na última edição do Festival de Cannes.

Narrando o relacionamento amoroso entre Adèle, jovem de 17 anos, em plena descoberta pessoal, e Emma, estudante de Belas Artes, pouco mais velha e já convicta de suas escolhas quanto à sexualidade e à profissão, o filme (baseado na HQ homônima de Julie Maroh) é como uma demonstração cinematográfica do existencialismo sartreano.

O que vemos, ao longo de quase três horas, é o processo de formação do ser, tal como proferido por Sartre, de uma das protagonistas, Adèle (interpretada por Adèle Exarchopoulos): da descoberta da sexualidade à escolha de uma profissão, passando tanto por momentos de euforia e de convicções, quanto por outros de angústias e de incertezas, todos potencializados a partir do encontro com Emma, vivida por Léa Seydoux.

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O desenrolar da obra também parece uma afirmação da filosofia sartreana: a Adèle que conhecemos no início apenas existe, mas, no decorrer da história, percebemos sua transformação pessoal, seu amadurecimento. Claramente, retrata-se a existência como precedente da essência, essa segunda a qual se constrói regida pelas livres escolhas feitas, consciente ou inconscientemente, por Adèle.

Ainda condizente com Sartre, está o próprio amor devotado de Adèle por Emma, que pode ser entendido como um amor pela liberdade que esta possui, contrária à condição daquela. Emma é o completo oposto de Adèle: homossexual assumida, aceita pela família e pelos amigos, conhecedora de arte e filosofia, convicta sobre o futuro profissional que deseja, independentemente da instabilidade que a carreira artística pode trazer. Emma talvez seja o ideal de liberdade de Adèle e, exatamente por isso, tenha despertado tamanha devoção.

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À delicada filosofia da história, junta-se a crueza com que Kechiche a conta. Sua câmera desnuda, majoritariamente através de closes, os estados emocionais de cada personagem; e as cenas de sexo explícito (paradoxalmente, as que demonstram menor química entre as atrizes) banalizam o tabu da homossexualidade.

Vem daí, aliás, um dos aspectos que torna “Azul é a cor mais quente” tão fluido: o relacionamento entre Adèle e Emma jamais é tratado como algo fora do comum. Fato que deveria ser óbvio, mas que pode ser visto como uma qualidade, em tempos de normalização da homofobia.

Ademais, as excelentes interpretações de Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux, fazendo com que os longos diálogos aparentem ser espontâneos e, através da química entre elas, dando veracidade à história, contribuem para que o filme seja uma experiência imersiva na subjetividade das personagens.

“Azul é a cor mais quente”, desse modo, consegue, magistralmente, transformar uma história simples e comum em um exercício de pensar filosófico e de transgressão de tabus sociais, tanto na relação da obra cinematográfica para com a plateia, quanto na relação íntima e individual de cada espectador para consigo mesmo.

Retomando Sartre, por fim, uma de suas frases paira no ar, após o desfecho do filme: “o homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo”.

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Lia Bianchini

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