toda prosa

e talvez um pouco de poesia

Lia Bianchini

Tentando sobreviver ao tempo, esse mesmo, que destrói tudo.

Ninfomaníaca - Volume I

Longe de toda polêmica esperada, o que vemos, enfim, é o grande deboche de Lars von Trier.


*Pode conter spoilers (dependendo da classificação de cada leitor para a palavra) img5182581a7e280.jpg

Fomos ludibriados pela publicidade. Ninfomaníaca, a nova obra de Lars Von Trier, nos foi vendida como um polêmico filme erótico, quase um pornô cult. E nós, inocentes e empolgados, compramos.

O filme, porém, desvia da imagem segundo a qual foi vendido. A narração da história de Joe, a ninfomaníaca do título, tem sua parcela de erotismo, indubitavelmente. Mas não é sobre isso que von Trier quer nos falar. Não é o ato sexual que está em foco no primeiro volume do longa, estreado na sexta, dia 10, no Brasil.

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Logo no início, ao som de pingos de chuva, conhecemos Joe adulta, interpretada por Charlotte Gainsbourg, desacordada ao chão. Um corte. O heavy metal da banda alemã Rammstein entra em cena, assim como Seligman, vivido por Stellan Skarsgård, personagem que, após acolher Joe em sua casa, passa a ouvir sua história de vida. É a partir de então, que Lars von Trier começa a debochar dos nossos moralismo e conservadorismo. Em um diálogo quase didático, à medida em que Joe, sempre se portando como pecadora, conta suas experiências, Seligman as desmistifica com metáforas.

Animais, vegetais, objetos. As metáforas com cada um desses itens nos mostram, ao longo do filme, que o ser humano é tão comum quanto qualquer um deles. E o sexo, nada mais é do que uma parte congênita e natural de nossas vidas. É uma questão corpórea, que não precisa ser sagrada, nem ao menos profana. O propósito de von Trier, ao escolher contar a história de uma ninfomaníaca, talvez tenha sido exatamente esse: questionar o quê nós, por meros moralismo e convenções sociais, condenamos.

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Assim, vemos a jovem Joe (vivida pela estreante Stacy Martin) transar com diversos desconhecidos, competindo com uma amiga por um pacote de chocolates. Ou então, falar sobre amor, enquanto descreve outros parceiros sexuais, além daquele que diz amar. Um ser humano ruim, como ela mesma diz a Seligman, e como nós, moralistas que somos, entendemos.

Claramente, nesse primeiro volume, von Trier brinca com nossa superestimação do sexo, banalizando-o. E vai além, abordando, ainda que timidamente, questões familiares na relação entre Joe e seus pais e na excelente cena de Uma Thurman, onde rimos naturalmente do desespero de uma mãe e esposa ao ver seu marido, que acaba de deixá-la, na casa da amante.

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Para quem espera inúmeras cenas de sexo explícito, Ninfomaníaca – Volume I é decepcionante (pelo menos na versão que chegou aos cinemas, com cortes). Já para os que estão ansiosos para mais um filme de Lars von Trier, esse é o mais leve dentre a filmografia do diretor, por enquanto. A segunda parte, prevista para março, é que dará a sentença.

Até agora, o que temos é um bom prelúdio para algo que pode vir a ser um dos filmes mais irônicos e sagazes do cineasta dinamarquês.


Lia Bianchini

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